Ecóloga marinha e mergulhadora científica no CIIMAR, centro de investigação da Universidade do Porto, Bianca Reis tem 32 anos e venceu o 1º Prémio de Doutoramento em Ecologia Fundação Amadeu Dias 2026, com uma avaliação do funcionamento ecológico das florestas ibéricas de kelp. Fique a conhecê-la melhor e o que a apaixona no seu trabalho.
O que faz como ecóloga?
Sou ecóloga marinha e mergulhadora científica no CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, da Universidade do Porto. O meu trabalho centra-se sobretudo na ecologia de recifes temperados, em particular em florestas marinhas, maioritariamente florestas de kelp, e na flora e fauna que lhes estão associadas. Kelp é um tipo de alga marinha castanha de grande porte, pertencente à ordem Laminariales, que forma densas e ricas florestas subaquáticas em águas costeiras frias e rasas.
Interessa-me perceber como estes ecossistemas, que são espetaculares a vários níveis, funcionam, quais são as suas principais funções ecológicas, que fatores promovem a sua mudança e como diferentes comunidades se relacionam entre si. Uma parte importante do meu trabalho passa também pela conservação e proteção destes ecossistemas, que estão em risco, e, sempre que possível, pelo restauro.
Grande parte da minha investigação é feita diretamente debaixo de água. O mergulho científico permite-me observar estes habitats no seu próprio contexto, fazer experiências in-situ e perceber processos que seriam muito difíceis de estudar de outra forma. Gosto muito dessa dimensão da ecologia: não olhar para o ecossistema à distância, mas estar literalmente dentro dele.

Como começou na ecologia?
Acho que, como a maioria dos ecólogos, sempre tive muita curiosidade pela natureza. No meu caso, sempre tive um fascínio e uma ligação muito forte ao mar.
Mas acho que o interesse pela ecologia surgiu sobretudo da vontade de perceber relações: porque é que uma espécie ocorre num sítio e não noutro, o que muda quando uma espécie desaparece, ou como pequenas alterações podem ter efeitos em todo um ecossistema.
Quando comecei a mergulhar, isso ganhou outra dimensão. De repente podia observar diretamente aquilo que queria compreender. E as florestas marinhas acabaram por reunir muitas das coisas que me interessam: são ecossistemas muito dinâmicos, complexos, visualmente incríveis, com elevado valor e sobre os quais ainda há imenso por descobrir.

Qual é a melhor parte do seu trabalho?
Provavelmente a sensação de descoberta.
O mergulho dá-nos acesso a lugares que continuam relativamente fora do nosso campo de visão e, às vezes, a sítios onde pouca gente esteve. Há algo muito especial em poder observar comportamentos, comunidades ou processos que acontecem “fora do nosso meio”, raramente são vistos diretamente e, ocasionalmente, encontrar algo que talvez ninguém tenha observado daquela forma antes.
Também gosto muito do carácter imprevisível do trabalho de campo. Podemos entrar na água com uma pergunta muito concreta e sair de lá com três novas. Para mim, essa capacidade de continuar a ser surpreendida é uma das melhores partes de fazer ciência.


Porque é a ecologia importante?
A ecologia é de uma importância difícil de expressar porque está presente em tudo o que nos rodeia. Há relações de dependência, competição, alimentação, abrigo, transformação do habitat e quando uma dessas peças muda, os efeitos podem propagar-se por todo o ecossistema e escalas maiores.
Num contexto em que estamos a alterar os ecossistemas a uma velocidade cada vez maior, a ecologia dá-nos as ferramentas para perceber essas mudanças, antecipar as suas consequências e tomar decisões mais informadas.
É também isso que torna a ecologia tão interessante para mim, não se trata apenas de saber que espécies existem, mas de compreender processos, relações e funções. E esse conhecimento é essencial para conservar os ecossistemas de forma eficaz, em vez de simplesmente reagirmos quando os problemas já são evidentes.

O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Gostava de continuar a explorar florestas marinhas noutros contextos e noutras partes do mundo. Interessa-me muito perceber o que muda entre sistemas que, à primeira vista, parecem semelhantes, mas que funcionam de formas bastante diferentes.
Pretendo também continuar a aprofundar o meu conhecimento sobre a forma como as florestas marinhas funcionam e perceber melhor o que determina a sua persistência, a sua recuperação e a forma como respondem a diferentes pressões ambientais.
Interessa-me particularmente explorar os processos ecológicos que sustentam estes ecossistemas, desde a produtividade e as interações entre espécies até ao efeito de fatores como a herbivoria, que na nossa costa ocorre maioritariamente por peixes herbívoros (como a salema – Sarpa salpa) e também ouriços do mar que se alimentam das kelp, e perceber de que forma esse conhecimento pode ser aplicado à conservação, à gestão de áreas marinhas protegidas e, quando viável, ao restauro.
Também gostava muito de levar estas perguntas a sistemas menos acessíveis, como florestas de kelp mais profundas. São ambientes ainda pouco estudados e onde há muito espaço para juntar investigação ecológica com aquela componente de exploração e descoberta que tanto me atrai no trabalho de mergulho.

A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO), iniciada em maio de 2024. São vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que têm estado aqui a explicar o que fazem e o que é para eles a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante, Afonso Ferreira, Sara Mendes, Diana Sousa Guedes, Martina Panisi, Mariana Ramos, Miguel Jorge, Mónica Maia-Mendes e Andreia Anjos.