Investigador do MARE foi este ano o primeiro classificado do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias. Esta série, que nos dá a conhecer diferentes ecólogos portugueses, é uma parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia.
A investigação que desenvolve sobre as alterações climáticas e o fitoplâncton marinho, com foco na Antártida, valeu a Afonso Ferreira, 32 anos, o primeiro prémio do concurso organizado pela SPECO. Trabalha com dados de satélite e por isso passa “muitas horas ao computador”, mas confessa que “nada supera o trabalho de campo”. Em especial quando se realiza na Antártida, onde “é sempre especial embarcar e recolher água e amostras de fitoplâncton para depois analisá-las no laboratório”.
Para ficar a conhecer melhor este ecólogo, assista ao vídeo e leia a entrevista, mais abaixo.
O que faz como ecólogo?
Sou investigador doutorado no MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Como ecólogo marinho, procuro compreender a ecologia do fitoplâncton marinho, microrganismos fotossintéticos que são a base das cadeias alimentares dos nossos oceanos, contribuindo também para a fixação de carbono e para a produção de oxigénio. Desta forma, o fitoplâncton apresenta um papel para os oceanos análogo às plantas superiores em terra.
A minha investigação centra-se em estudar a resposta do fitoplâncton às alterações climáticas e respetivas implicações ecológicas. Uma particularidade é que estudo o fitoplâncton a partir do espaço, através de dados de satélites, ferramentas indispensáveis tendo em conta a vastidão do oceano. Isto porque o fitoplâncton, tal como as plantas em terra, contêm pigmentos que lhes conferem cor, cor essa que é possível ver do espaço quando o fitoplâncton é abundante.

Como começou na ecologia?
Tudo começou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde fiz a Licenciatura em Biologia, em 2014, e depois o Mestrado em Ecologia Marinha, na mesma instituição. Na altura, já sabia que queria estudar o mar, com o qual sempre tive uma afinidade. Provavelmente por ter sido criado numa ilha (Madeira), sempre tive uma certa curiosidade acerca do mar, esse ambiente tão vasto do qual sabemos tão pouco.
No entanto, dentro da área do mar, não sabia o que é que queria estudar. Há muitos ecólogos que desde cedo têm já uma ideia do que querem estudar, fruto dos fascinantes documentários de Sir David Attenborough and Jacques Cousteau. O meu caso foi um pouco mais complicado, sendo que só comecei realmente a olhar para o fitoplâncton como um potencial objeto de estudo já a meio do Mestrado.
Porquê a ecologia do fitoplâncton? Talvez pela minha tendência de ser um pouco “do contra”, já que o fitoplâncton é um grupo biológico que não se vê e que tem uma representação nos media muito abaixo do que mereceria pelo seu papel fundamental para o ecossistema marinho e para o planeta Terra. Além disso, o fitoplâncton está muito dependente do ambiente em que vive, tornando-o um excelente indicador das mudanças no oceano.

Qual é a melhor parte do seu trabalho?
Como trabalho com dados de satélite, passo muitas horas ao computador no meu trabalho, o que é sempre gratificante quando encontramos resultados interessantes. No entanto, nada supera o trabalho de campo. Seja na costa portuguesa ou na Antártida – foco do meu doutoramento – é sempre especial embarcar e recolher água e amostras de fitoplâncton para depois analisá-las no laboratório.
Pessoalmente, a Antártica é especialmente marcante. É uma experiência única: um mês a bordo de um navio de investigação, rodeado por um mar gélido, por icebergs e pela fauna carismática que habita esta região tão importante do planeta como pinguins, focas, baleias, etc. Já tive a oportunidade de ir quatro vezes e é sempre especial.
As viagens à Antártida foram feitas no âmbito do meu doutoramento, começando em 2019. O meu objetivo foi sempre recolher amostras de fitoplâncton para depois validar com dados de satélite, garantindo a sua fiabilidade. Sempre que lá fui, foi com financiamento do Programa Polar Português (PROPOLAR) e com apoio logístico do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). O navio em que trabalhei foi sempre o mesmo – Navio Polar Almirante Maximiano – um dos dois navios que a Marinha do Brasil usa para fazer investigação na Antártida e para dar apoio logístico à Estação Antártica brasileira (Estação Antártica Comandante Ferraz).
Normalmente, eu “apanho” o navio em Punta Arenas, na Patagónia Chilena, e este desce até à Antártida. A subida é feita pelo mesmo caminho.

O meu trabalho era integrado num projeto de maior dimensão liderado por colegas brasileiros da Universidade Federal do Rio Grande (Rio Grande do Sul, Brasil), cujo objetivo era estudar as várias componentes do ecossistema – biogeoquímica, fitoplâncton, zooplâncton, aves, cetáceos. Portanto tínhamos sempre uma equipa muito multidisciplinar a bordo, quase toda brasileira.
A última ida foi em Janeiro de 2025, logo depois de ter defendido o doutoramento em novembro do ano anterior. Na verdade, mantivemos a colaboração com os colegas brasileiros e voltaremos no início de 2026 – eu e a minha colega Graça Sofia Nunes, que também participou na missão anterior.

Porque é a ecologia importante?
Num mundo em que a barreira entre as cidades e a natureza se esfuma de ano para ano e em que o papel do ser humano nos ecossistemas nunca foi tão complexo, a ecologia ajuda-nos a entender como os seres vivos e os ecossistemas respondem sob pressão.
O fitoplâncton na Antártida ilustra isso: a Antártida parece distante, mas causamos impactos diretos e indiretos que afetam o balanço dos nossos oceanos. O aquecimento global acelera o degelo e o turismo cresce desenfreadamente (mais de 100 mil visitantes por ano), pressionando ainda mais esta região tão sensível. O fitoplâncton é altamente sensível a estas mudanças e alterações na sua abundância e composição podem repercutir-se por toda a teia trófica, afetar a fixação de carbono e, em última análise, a resiliência do ecossistema.

O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Há muito que eu gostaria de fazer e estudar, como qualquer ecólogo. Pessoalmente, teria imensa curiosidade em complementar o meu trabalho na Antártida com estudos no Ártico. Apesar de serem ambas regiões polares, o Ártico está mais próximo de centros urbanos e tem um histórico de maior pressão humana, algo que tem tendência a piorar à medida que o degelo começa a tornar viável a abertura de novas rotas marítimas pelo Ártico.
Assim, em muitos aspetos, o Ártico pode ser visto com um espelho do futuro para a Antártida, se não reduzirmos a nossa pegada ambiental e se não garantirmos um melhor uso humano da Antártida no futuro.

A série “À Conversa com um Ecológo” é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO). Serão vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que vão estar aqui a explicar o que fazem e o que é a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro. Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus e Elizabete Marchante.