Professora e investigadora ligada ao Centro de Ecologia Funcional e à Universidade de Coimbra, Elizabete Marchante co-lidera o INVASORAS.PT Lab, dedicado às espécies invasoras. Fique a conhecer esta ecóloga no Dia da Ecologia, que se comemora a 14 de setembro. Esta série, que nos dá a conhecer diferentes ecólogos portugueses, é uma parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia.
“Poder contribuir, ainda que só um bocadinho, para recuperar os nossos ecossistemas tão ameaçados.” Esta é a melhor parte do trabalho de Elizabete Marchante, que se dedica ao estudo e controlo das plantas invasoras – e a transmitir esses ensinamentos às gerações mais novas – e acredita que está desta forma a adicionar a sua “gotinha ao oceano da vida”.
Para ficar a conhecer melhor esta ecóloga, assista ao vídeo e leia a entrevista, mais abaixo.
O que faz como ecóloga?
Sou licenciada em Biologia, mestre em Ecologia e doutorada em Biologia, com especialização em Ecologia. Ou seja, vejo-me como ecóloga e, durante grande parte da minha vida, tenho trabalhado com temas relacionados com a ecologia — no sentido lato, como a ciência que estuda os seres vivos, o ambiente onde vivem e as interações entre ambos.
Sou investigadora na área das invasões biológicas, especialmente por plantas, no Centro de Ecologia Funcional, no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra (DCV/UC). Neste centro, co-lidero uma pequena equipa – o INVASORAS.PT Lab – onde desenvolvemos trabalho em várias áreas: desde a ecologia e os impactes das plantas invasoras ao restauro de habitats invadidos, controlo biológico, redes ecológicas e deteção remota. Trabalhamos também a vertente mais social, procurando compreender a perceção e o conhecimento da população, promovendo ciência cidadã, educação e comunicação ambiental, e prestando consultoria a diversas entidades.
A partir deste mês de setembro, vou abraçar um novo desafio como professora no DCV/UC, onde irei lecionar várias disciplinas, sobretudo na área da ecologia vegetal.
Faço ainda parte da direção da SPECO, estando especialmente envolvida na Rede InvECO — Rede Portuguesa de Estudo e Gestão das Espécies Invasoras. Colaboro também com várias instituições internacionais, como a EASIN – European Alien Species Information Network, a EPPO – European and Mediterranean Plant Protection Organization, a DG-ENV – Direção-Geral do Ambiente da Comissão Europeia), a IPBES – Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas e a IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza.
Como começou na ecologia?
Comecei por trabalhar em ecotoxicologia, durante o meu estágio de licenciatura, quando usei mitocôndrias para avaliar a toxicidade de um composto químico utilizado no ambiente. No mestrado, regressei à ecologia, mas numa área totalmente diferente — estudei o efeito de diferentes tratamentos de gestão de resíduos orgânicos e fertilização na colonização por micorrizas (associações entre fungos e raízes de plantas) em plantações de eucaliptos.
Depois, durante o doutoramento, comecei a trabalhar com plantas invasoras, focando-me nos impactes da acácia-de-espigas na ecologia do solo e na forma como esses impactes se mantinham – ou não – após o controlo da espécie. Desde então, tenho trabalhado na área das invasões biológicas, explorando diferentes abordagens e temas.
A perceção da gravidade dos impactes causados pelas invasoras levou-me a querer contribuir para o seu controlo, e desde então tenho procurado desenvolver e aplicar estratégias de ecologia aplicada para melhorar a prevenção e gestão destas espécies. Uma das abordagens mais relevantes tem sido o controlo biológico clássico – o uso de inimigos naturais oriundos da região de origem das plantas invasoras para ajudar a reduzir a sua capacidade de crescimento ou reprodução. Para isso, tenho recorrido a várias ferramentas para estudar e monitorizar estes agentes de controlo biológico e os seus efeitos, como redes ecológicas, deteção remota, modelação, ciência cidadã e, claro, metodologias convencionais de ecologia de campo.

Qual é a melhor parte do seu trabalho?
Poder contribuir, ainda que só um bocadinho, para recuperar os nossos ecossistemas tão ameaçados. Sentir que, com o que faço, adiciono a minha gotinha ao oceano da vida. Não apenas ajudar a prevenir e gerir melhor as espécies invasoras — protegendo a natureza e a biodiversidade — mas, em última instância, também contribuir para o bem da própria humanidade, porque todos dependemos da biodiversidade, mesmo que isso não seja evidente para a maioria das pessoas.
Tenho uma grande ligação ao meu trabalho (muitas vezes nem sabe a trabalho): adoro o contacto com a natureza e os seres vivos, as saídas de campo, o trabalho de laboratório – embora hoje em dia já o faça muito menos. Também me motiva analisar dados, escrever artigos, ler, discutir ideias em busca de soluções e explicações, e contar histórias com base no que os dados nos revelam. No fundo, o que mais me entusiasma é estar sempre a aprender, abrir horizontes, explorar áreas novas e descobrir diferentes formas de ver o mundo.
Gosto igualmente do lado humano do meu trabalho: acompanhar gerações mais novas de ecólog@s, que chegam com ideias frescas; comunicar e transferir conhecimento; contribuir para que mais pessoas se interessem e assumam um papel ativo na prevenção e gestão das invasões biológicas.
Porque é a ecologia importante?
Porque nos ajuda a compreender melhor os seres vivos que nos rodeiam – como vivem, onde vivem, como interagem entre si e com o ambiente, e de que forma contribuem para o mundo tal como o conhecemos. E, com esse conhecimento, podemos prevenir ou mitigar muitos dos grandes desafios que enfrentamos enquanto sociedade.
Para respeitar e proteger o mundo que sustenta a nossa vida e sobrevivência, precisamos primeiro de o conhecer e entender. A ecologia – tal como muitas outras ciências – dá-nos ferramentas para perceber melhor o que nos envolve: desde os seres vivos mais pequenos aos maiores, do solo que pisamos ao ar que respiramos, dos locais mais familiares aos mais remotos. E isso é fundamental.
A quem esteja a pensar seguir ecologia, só posso dizer: façam-no! É uma área cheia de desafios e de descobertas, onde se aprende todos os dias e onde o nosso trabalho pode ter impacto real, na natureza, na sociedade e no futuro. Precisamos de mais pessoas curiosas, criativas e comprometidas com um planeta mais saudável e sustentável. Não é um caminho fácil, mas nunca me arrependi de o escolher.

O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Há tantas perguntas por responder na área em que trabalho — e espero ainda vir a responder a muitas! Mas, de forma mais abrangente, gostava de fazer uma grande expedição a um local desconhecido para mim, descobrir “um mundo novo” e contribuir para aumentar o conhecimento ecológico dessa região.
Apesar de viajar bastante em trabalho e de contactar com muitas culturas e formas diferentes de ver e abordar o mundo, a maior parte do trabalho de campo que faço é em Portugal. É aqui que sinto que “tenho o meu papel”. Mas a natureza e a ecologia não têm fronteiras, no sentido em que aquilo que fazemos aqui tem reflexos noutras partes do mundo, e gostava de passar um tempo num local distante que, ainda assim, pudesse fazer a diferença também cá.
A série “À Conversa com um Ecológo” é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO). Serão vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que vão estar aqui a explicar o que fazem e o que é a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro. Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira e Joana Jesus.