Bianca Reis, Joana Nogueira e Miguel Gandra foram os galardoados com o Prémio de Doutoramento em Ecologia 2026 – Fundação Amadeu Dias, organizado pela SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, foi hoje revelado.
O primeiro prémio foi atribuído a Bianca Reis, investigadora no Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), pela sua avaliação do funcionamento ecológico das florestas ibéricas de kelp.
Bianca Reis quis saber mais sobre como funcionam as florestas ibéricas de kelp mas também quais as suas vulnerabilidades face às alterações climáticas e até que ponto as podemos restaurar.
Para isso fez trabalho de campo, experiências laboratoriais e desenvolveu uma ferramenta de medição in situ da produtividade de ecossistemas marinhos.
“Os resultados demonstraram que as florestas de kelp associadas a águas mais frias apresentam maior produtividade primária e maior capacidade de absorção de carbono, desempenhando um papel determinante no ciclo de carbono azul”, explica um comunicado da SPECO enviado hoje à Wilder.
Bianca Reis descobriu ainda que “a limitação de nutrientes poderá comprometer o recrutamento de espécies boreais em cenários climáticos futuros e mostrou que os peixes poderão exercer uma pressão herbívora superior à dos ouriços-do-mar, algo inédito no Atlântico que traz novos desafios à gestão das áreas marinhas protegidas”.
A tese contribuiu também para optimizar técnicas de restauro através do método green gravel, identificando condições que favorecem o crescimento inicial do kelp.
Dar força aos ecossistemas de água doce
O segundo prémio foi atribuído a Joana Nogueira, investigadora no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO/InBio), por ter contribuído para a priorização da conservação dos ecossistemas de água doce.
Joana Nogueira combinou dados de campo, bases de dados de espécies, técnicas de DNA ambiental e a análise de interações ecológicas entre diferentes grupos taxonómicos, para identificar novas formas de definir prioridades de conservação para os ecossistemas de água doce.
“Com este planeamento procurou melhorar a conservação deste tipo de ecossistemas, sub-representado nas áreas protegidas europeias e apoiar a sua expansão”, acrescentou a SPECO.
Joana Nogueira concluiu que “muitas áreas actualmente consideradas prioritárias podem ter perdido uma parte do seu valor de conservação devido à utilização de dados desatualizados e à falta de uma monitorização regular”.
O estudo mostrou ainda que a integração de interacções entre espécies – como a relação entre mexilhões de água doce e os peixes de que dependem para completarem o seu ciclo de vida – permite seleccionar áreas com maior representatividade ecológica.
A SPECO considerou que a junção de métodos convencionais com DNA ambiental tem um grande potencial para apoiar a conservação de várias espécies em regiões com menor capacidade de monitorização.
Melhorar a monitorização da megafauna marinha
Miguel Gandra, investigador no Instituto de Investigação em Ciências do Mar (Okeanos), recebeu o terceiro prémio por ter demonstrado o potencial da combinação de tecnologias avançadas e ferramentas analíticas inovadoras de monitorização in-situ para a conservação da megafauna marinha.
Este investigador tentou compreender como é que a megafauna marinha utiliza o oceano e de que forma esta informação pode ser útil na conservação destas espécies.
Para isso recorreu a tecnologias avançadas de biotelemetria e biologging e a modelos estatísticos e algoritmos de aprendizagem automática.
Miguel Gandra conseguiu assim analisar os movimentos, o comportamento e a utilização do habitat de quatro espécies com elevado interesse económico: a corvina (Argyrosomus regius), dois tubarões de profundidade (Dalatias licha e Hexanchus griseus), e o tubarão-baleia (Rhincodon typus).
Com base em mais de duas décadas de dados recolhidos na Península Ibérica e nos Açores, a investigação identificou corredores migratórios, áreas críticas de agregação e padrões de fidelidade ao habitat até então desconhecidos.
“Estes dados revelaram comportamentos de alimentação e movimentos verticais, com implicações directas para a gestão e conservação destas espécies.”
A tese incluiu ainda o desenvolvimento de um pacote de código aberto para análise de dados de telemetria acústica, facilitando a utilização destas tecnologias pela comunidade científica.
Os prémios atribuídos, no valor de 3000, 2000 e 1000 euros, serão atribuídos, respectivamente, ao primeiro, segundo e terceiro classificados.
O prémio recebeu 11 candidaturas elegíveis de doutorados com teses defendidas nas Universidades dos Açores, Algarve, Évora, Lisboa e Porto.
O júri foi constituído por Maria Amélia Martins-Loução, presidente da SPECO (Sociedade Portuguesa de Ecologia); João Gonçalves, administrador da Fundação Amadeu Dias; Joaquin Hortal, investigador colaborador do cE3c, do Museu Nacional de Ciencias Naturales (CSIC); Jorge Gonçalves, professor convidado da Universidade do Algarve, investigador sénior e membro da direcção do CCMAR (Centro de Ciências do Mar); Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra e coordenadora do CFE (Centro de Ecologia Funcional); Myriam Lopes, professora associada da Universidade de Aveiro, e investigadora no CESAM (Centro de Estudos Ambientais e Marinhos); e Ricardo Melo, professor associado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador no MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente).
A SPECO é uma sociedade científica, constituída em Dezembro de 1995 para promover o conhecimento da Ecologia e ajudar a desenvolver e implementar soluções ecologicamente adequadas para os problemas ambientais do país.