Miguel Jorge, 26 anos, é formado em ecologia marinha, mas a sua verdadeira paixão é encontrar um casamento perfeito entre a Ecologia e a Comunicação de Ciência. Esta entrevista faz parte de uma série em parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, que nos dá a conhecer diferentes ecólogos.
Desde muito pequeno que Miguel Jorge aprendeu o que era uma célula, ensinado por uma avó professora de Biologia que lhe comunicou o fascínio pelo mundo em redor. Hoje, trabalha como secretário administrativo na SPECO, mas de facto vai fazendo um pouco de tudo, incluindo investigar e desenvolver projetos de Comunicação de Ciência, usando novos e velhos media. Uma das suas ambições? “Virar o feitiço contra o feiticeiro”, levando dessa forma o conhecimento ecológico a mais pessoas.
Para ficar a conhecer melhor este ecólogo e o trabalho que faz, incluindo o projeto “Pergunta a um Ecólogo”, assista ao vídeo e leia também a entrevista, mais abaixo.
O que faz como ecólogo?
Sou ecólogo marinho e comunicador de ciência. Neste momento, trabalho para a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia como secretário administrativo, mas faço um pouco de tudo o que for preciso! Desde gestão de redes sociais e websites, a organização de projetos e eventos, ao típico trabalho de secretariado, os meus dias na SPECO acabam por ser muito completos.
A minha verdadeira paixão há já muitos anos é encontrar um casamento perfeito entre a ecologia e a comunicação de ciência, e testar os limites e as interseções destas duas áreas. Apesar de o tempo para tal ser pouco, os meus interesses de investigação são em testar novos tipos de media – e alguns clássicos, também – no seu potencial de transmissão de informação sobre Ecologia, principalmente a gerações mais novas. Publiquei, em 2024, um estudo sobre a eficácia de vídeos user-generated – isto é, vídeos feitos por não-profissionais com recurso a ferramentas facilmente acessíveis por todos – na transmissão de conhecimentos sobre as ameaças que o meio marinho enfrenta. Foi um projeto construído de raiz que me permitiu juntar as minhas duas paixões e me deu muita motivação para continuar a tentar encontrar as melhores maneiras de usar vários tipos de media em contextos ecológicos.
Como começou na ecologia?
Tendo uma avó professora de Biologia, comecei a interagir com estes campos desde muito cedo. Lembro-me de ser muito novo e já saber o que era uma célula, porque, no meio de brincadeiras ou de passeios pela cidade, ela encontrava sempre um momento para me ensinar sobre o mundo à minha volta. Acabei por ficar com um bichinho dentro de mim que me puxou para as Ciências, e depois me encaminhou diretamente para a Biologia. No meio do meu percurso académico acabei por me apaixonar pela Ecologia e por todas as suas complexidades, e estou embrenhado nelas desde então.
Qual é a melhor parte do seu trabalho?
São, sem dúvida, os projetos em que sinto que estou a fazer a diferença no percurso de alguém. A SPECO desenvolve, desde 2023, um projeto chamado “Pergunta a um Ecólogo”, em parceria com os CTT e com a Rede de Clubes Ciência Viva na Escola, e desde 2024 que faço parte da equipa de coordenação do mesmo. Neste projeto, alunos de vários anos de escolaridade – desde o pré-escolar até ao 12º – do norte ao sul do país, enviam-nos cartas com perguntas relacionadas com a Ecologia, em muitos casos sobre questões locais que os preocupam, ou curiosidades que querem ver respondidas. Nós atribuímos as questões a ecólogos portugueses e enviamos as respostas dos mesmos também por carta. Para além de estimular a expressão escrita e a busca por conhecimento, esta troca de cartas acaba por entusiasmar os alunos, que fazem sempre da receção das cartas um evento especial, apreciando o facto de ter sido um especialista a responder às suas perguntas.

Ao longo dos últimos anos recebemos questões fantásticas, daquelas que só crianças se lembram – desde o porquê dos girassóis se virarem para o sol, ao porquê dos pirilampos emitirem luz, e até cenários hipotéticos sobre o impacto das alterações climáticas nas suas cidades. A pergunta que mais gostei de receber nos últimos tempos foi sobre a razão da cor rosada dos flamingos, porque me permitiu voltar a embrenhar-me nos meus apontamentos das aulas de licenciatura para poder construir uma resposta. Também me fez ter de adaptar a maneira como apresento as respostas, de modo a que alunos do 7º ano as consigam perceber bem, mantendo mesmo assim o rigor científico! É um exercício desafiante mas muito gratificante.
Saber que podemos dar resposta a todas estas questões (dentro dos possíveis) e cativar os alunos para terem uma cidadania ambiental mais ativa ao mesmo tempo faz deste projecto a melhor parte do que eu faço enquanto ecólogo.
Porque é a ecologia importante?
Apesar de parecer contraditório, esta é uma pergunta verdadeiramente difícil de responder, por parecer que nenhuma resposta é adequada o suficiente para transmitir o quão importante a Ecologia verdadeiramente é. É claro que, no contexto atual, a Ecologia é mais importante que nunca – é imperativo compreender a complexidade das relações e interações ecológicas já existentes de modo a que possamos preservá-las – mas é também fulcral aprender a identificar as novas relações que vão surgindo com o impacto das ações antrópicas nos ecossistemas, e arranjar maneiras eficazes de as compreender também. Num mundo em constante mudança, é o ecólogo que tem que conectar os pontos de modo a que todos possamos ver a imagem completa.
Mas até enquanto mero conceito, a Ecologia é um fenómeno cultural cuja popularidade pode ser canalizada de forma a fazer a diferença. Dentro deste termo abrangente que é a Ecologia, e falando apenas do caso concreto de Portugal, temos ONGA que lutam todos os dias pela conservação da natureza, organizando eventos nacionais e internacionais – como a “Semana sobre Espécies Invasoras” e o “Ecology Day” – que despoletam centenas de atividades que envolvem a população local, como limpezas de praias, remoção de espécies invasoras, workshops, palestras, passeios pela natureza, entre outros.
Existem, também, projetos que incutem nas gerações mais novas o interesse pela Ecologia e o respeito pelo meio ambiente, tal como o “Pergunta a um Ecólogo”. É notório o quanto a divulgação e celebração da Ecologia consegue fazer com que as pessoas saiam de casa e procurem ver as coisas de uma perspetiva diferente.

O que gostaria de fazer, mas ainda não fez?
Gostaria de continuar a explorar esta interseção entre a Ecologia e a Comunicação de Ciência, e a descobrir as melhores maneiras de transmitir e divulgar o conhecimento científico (porque muitas vezes a informação é transmitida com uso a linguagem que os leigos não entendem e etcs, explain the why). Apesar de me ficar melhor dizer que devíamos todos pousar os telemóveis e ir ver o mar, por vezes temos que aceitar que vivemos num mundo em constante evolução tecnológica, com hábitos e tendências de consumo de media muito variáveis, e que esta realidade não vai mudar em breve.
Então porque não virar o feitiço contra o feiticeiro? Porque não estudar estas tendências e adaptar a maneira como divulgamos o conhecimento ecológico, de modo a que este cative as pessoas e fique com elas, em vez de ser mais uma coisa que viram no meio do seu scroll noturno? Parece-me ser um enorme desafio, mas também um desafio que é necessário enfrentar.
A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO), iniciada em maio de 2024. São vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que têm estado aqui a explicar o que fazem e o que é para eles a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante, Afonso Ferreira, Sara Mendes, Diana Sousa Guedes, Martina Panisi e Mariana Ramos.