Cientistas descobriram fósseis com 518 milhões de anos que transformam o que se sabe sobre a origem do grupo de animais que inclui as estrelas-do-mar. Estes animais alimentavam-se usando tentáculos, e não de forma passiva através das brânquias, como se pensava até agora.
Os animais fossilizados, descobertos no sudoeste da China e baptizados de Yujingia glutenotunica, deverão estar próximos do último ancestral comum dos ambulacrários, o grupo moderno que inclui, por exemplo, as estrelas-do-mar e os ouriços-do-mar.
A equipa internacional de investigação, que inclui investigadores da Universidade de Cambridge, afirma que os fósseis poderão também ajudar a compreender por que razão duas linhagens estreitamente relacionadas – as estrelas-do-mar e os seus parentes, e os cordados, o filo que inclui os seres humanos – desenvolveram planos corporais radicalmente diferentes ao longo de milhões de anos. Os resultados foram publicados num artigo na revista científica Current Biology.
Os animais fossilizados datam de um período de rápida evolução conhecido como explosão do Câmbrico, quando a maioria dos grandes grupos de animais surge pela primeira vez no registo fóssil.
A maioria dos fósseis de animais do Câmbrico corresponde a criaturas com carapaças ou outras estruturas duras. No entanto, em alguns locais do mundo – como nos xistos de Maotianshan, na província chinesa de Yunnan, onde foi encontrado Yujingia – as condições permitiram que partes moles do corpo fossem preservadas antes de se decomporem.
Os fósseis de Yujingia têm entre 8 e 22 milímetros de comprimento e preservam o corpo, o intestino e os apêndices; são exemplos raros de ambulacrários sem esqueleto mineralizado.
Os animais tinham dois conjuntos diferentes de apêndices: um conjunto de tentáculos de alimentação semelhantes a penas, que capturavam partículas orgânicas da água, e um segundo conjunto que, pensa-se, permitia a Yujingia fixar-se temporariamente ao fundo do mar, embora provavelmente fosse capaz de algum tipo de movimento.
“Tem havido uma tendência para pensar que o último ancestral comum dos ambulacrários se assemelharia mais a um verme que vivia numa toca no fundo do mar e filtrava o alimento da água”, disse, em comunicado, o co-autor deste artigo Giovanni Mussini, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Cambridge. “Este novo fóssil sugere, pelo contrário, que o ancestral comum dos ambulacrários poderá ter-se alimentado com tentáculos e ser mais semelhante às estrelas-do-mar e aos seus parentes.”
Mussini lembra que “a simetria radial de cinco partes das estrelas-do-mar e dos seus parentes (…) têm sido, até agora, um verdadeiro mistério”.
Para determinar a posição evolutiva de Yujingia, Mussini e Kaiyue He, autor principal e investigador da Universidade do Noroeste, na China, reuniram e analisaram uma base de dados com 505 características morfológicas de 100 espécies e grupos taxonómicos actuais e extintos. Os resultados colocam Yujingia mais próximo do último ancestral comum dos ambulacrários actuais do que os fósseis anteriormente descritos, tornando-o uma forma de transição fundamental que liga os primeiros animais tentaculados do Câmbrico aos hemicordados e equinodermes.
Embora não tivesse um esqueleto rígido, Yujingia tinha um complexo sistema de alimentação baseado em tentáculos, sugerindo que estruturas sofisticadas para a alimentação evoluíram numa fase inicial, enquanto os esqueletos dos equinodermes e outras características especializadas surgiram mais tarde.
“Isto mostra-nos como a ecologia pode conduzir diferentes linhagens por caminhos evolutivos muito distintos e a desenvolver especializações morfológicas muito diferentes”, afirmou Mussini. “Os cordados tornaram-se dependentes do movimento para encontrar alimento, pelo que simplificaram os seus corpos e desenvolveram os seus cérebros, enquanto os membros da linhagem das estrelas-do-mar permaneceram relativamente ancorados ao fundo do mar e se especializaram neste modo de vida baseado na alimentação por partículas.”