Investigadora da Universidade do Porto foi um dos três vencedores do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias, em 2025. Esta entrevista faz parte de uma série que nos dá a conhecer diferentes ecólogos portugueses, numa parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia.
Foi com um projeto para tentar saber como a poluição por plástico e as alterações climáticas afectam os habitats de nidificação de tartarugas marinhas em Cabo Verde que Diana Sousa Guedes recebeu o Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias, como terceira classificada.
Graças a um avô que tinha uma estufa, uma coleção de catos e uma enorme curiosidade pelas coisas pequenas da natureza, começou desde pequena a ganhar interesse pela ecologia.
Hoje, aos 34 anos, faz a sua investigação com tartarugas-marinhas e a medir o impacto da atividade humana e de outros fatores sobre a biodiversidade. Gosta que o seu trabalho ajude na tomada de melhores decisões no que respeita à conservação, “como quando um resultado deixa de ser apenas um gráfico e passa a orientar ações no terreno”.
Para ficar a conhecer melhor esta ecóloga, assista ao vídeo e leia a entrevista, mais abaixo.
O que faz como ecóloga?
Sou investigadora na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Trabalho em biogeografia e conservação da biodiversidade, com foco em perceber como habitats e espécies respondem às alterações globais, particularmente em ecossistemas insulares, marinhos e costeiros. Utilizo as tartarugas marinhas como organismos modelo para compreender de que forma as alterações climáticas, o lixo marinho e a atividade humana estão a transformar habitats e padrões de biodiversidade.
Na prática, o meu trabalho começa por vezes à noite, numa praia remota, à espera de uma tartaruga; noutros dias começa com os pés na areia e o drone no ar, a mapear o lixo marinho; e noutros ainda (a maioria, convenhamos) começa em frente ao computador, entre mapas, códigos e modelos. O objetivo é sempre o de transformar dados ecológicos para uma melhor e mais informada tomada de decisão em conservação.

Como começou na ecologia?
O interesse começou cedo, ainda antes de saber o significado da palavra. Foi em casa, com o meu avô, que tinha uma estufa, uma coleção de catos e uma curiosidade enorme pelas pequenas coisas da natureza. Passávamos horas entre minhocas, joaninhas, plantas e pássaros. Mais tarde, na universidade, fui um bocado “salta-pocinhas”: experimentei trabalhar com vários grupos taxonómicos, desde invertebrados, carnívoros, anfíbios, répteis, morcegos, e percebi que o que me fascinava não era um grupo em particular, mas os padrões que ligam todos eles.
Esse fascínio intensificou-se com as ilhas: sistemas pequenos, isolados, frágeis, onde tudo está interligado e onde os impactos humanos se tornam rapidamente visíveis. Foi em Cabo Verde que essas perguntas ganharam urgência. Descobri que queria fazer ciência em lugares reais, com problemas reais, e em diálogo com quem lá vive. O meu doutoramento nasceu dessa vontade, com um projeto que concebi para perceber como a pressão humana afeta as praias de nidificação da tartaruga-comum num dos maiores hotspots da espécie a nível mundial. Foi desenvolvido com apoio da FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia e em colaboração com a ONG local BIOS.CV.

Qual é a melhor parte do seu trabalho?
Há momentos que ficam para sempre. Estar numa praia deserta, a ver emergir centenas de tartaruguinhas com um instinto de sobrevivência avassalador, debaixo do céu mais estrelado que já vi, é algo que não se esquece. Trabalhar em ilhas remotas é também sempre uma aventura: logística difícil, noites sem dormir, areia em todo o lado, equipamentos que falham…
Uma parte muito boa do trabalho é perceber que pode ajudar a tomar melhores decisões, como quando um resultado deixa de ser apenas um gráfico e passa a orientar ações no terreno. Gosto profundamente do processo científico em si: fazer perguntas, testar hipóteses, errar, ajustar e descobrir padrões que não são tão óbvios à primeira vista. E gosto também de pôr tudo de forma simples no papel, escrever, organizar o pensamento, os dados e os resultados. Saber que esse trabalho pode ter impacto real torna tudo ainda mais gratificante.

Porque é que a ecologia é importante?
Porque vivemos num tempo de mudanças rápidas e profundas, e a ecologia é a ciência que nos ajuda a compreendê-las. Permite-nos antecipar consequências, perceber limites e tomar decisões mais informadas, não apenas para proteger espécies e ecossistemas, mas também para garantir o bem-estar das comunidades humanas que deles dependem.
No meu caso, estudar tartarugas marinhas é também estudar clima, oceanos, lixo marinho, pesca, turismo e desigualdades sociais globais. A ecologia tem essa força – liga pontos que à primeira vista não têm ligação e mostra como tudo faz parte do mesmo sistema.

O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Gostava de aprofundar o estudo da interação entre diferentes ameaças ambientais, porque na natureza os problemas raramente atuam de forma isolada, e é nessa combinação que muitas vezes reside o maior risco.
Também gostaria de analisar estes efeitos a escalas mais amplas, regionais e globais, recorrendo a ferramentas tecnológicas cada vez mais potentes, como a deteção remota. Questões como a adaptação das populações às diferentes ameaças e em ecossistemas em constante mudança, o papel da diversidade genética na resiliência ou perceber os limiares que podem levar à desestabilização populacional.
Por fim, quero investir cada vez mais na comunicação de ciência, encontrar formas criativas de contar estas histórias, rigorosas, mas acessíveis, e fazer com que as pessoas sintam que a ciência não é algo distante ou reservado a especialistas, mas algo que também lhes pertence. Acredito que o conhecimento só cumpre realmente o seu papel quando é partilhado.


A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO). Serão vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que vão estar aqui a explicar o que fazem e o que é a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante, Afonso Ferreira e Sara Mendes.