Mariana Ramos é doutoranda na unidade de investigação CE3C e na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esta entrevista faz parte de uma série em parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, que nos dá a conhecer diferentes ecólogos.
O trabalho de investigação de Mariana Ramos, 32 anos, lembra o de uma detetive que procura compreender acontecimentos distantes, através do estudo de pistas que poucas pessoas conseguem decifrar.
“Desde pequena que sempre tive muita curiosidade em perceber alguns padrões na natureza”, recorda esta ecóloga que parece ter uma curiosidade insaciável, para quem uma das melhores partes do trabalho é a “sensação constante de estar sempre a aprender e de poder juntar campo, teoria, análise de dados e interpretação de resultados, o que muitas vezes leva a outras perguntas”.
Fique a saber o que Mariana afinal investiga e quais são as questões a que procura responder.
O que faz como ecóloga?
Estou a fazer o doutoramento no CE3C – Centre for Ecology, Evolution and Environmental Changes e na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
Neste momento estou a trabalhar em ambientes de montanha e de glaciares alpinos, onde estudo como as comunidades criptogâmicas (líquenes e musgos) se estabelecem, organizam e evoluem ao longo do tempo em áreas expostas pelo recuo glaciar.
Interesso-me particularmente por encontrar padrões de diversidade e perceber que regras levam à formação das comunidades, e pela forma como podemos utilizar os líquenes não só como indicadores ecológicos, mas também como ferramentas de datação da exposição da rocha. Ou seja, será que conseguimos estudar as diferentes fases de sucessão e criar um modelo que nos permita reconstruir momentos de desglaciações passadas, com base no estado de desenvolvimento daquelas comunidades?

Tirada em 2023, em trabalho de campo em Pirinéus/Valle Esera. Foto: Mariana Ramos
Como começou na ecologia?
Desde pequena que sempre tive muita curiosidade em perceber alguns padrões na natureza. Porque é que certas espécies aparecem em alguns sítios e não noutros? Como é que determinadas espécies conseguem sobreviver em ambientes tão hostis? Que relações têm as espécies desta comunidade? Estão a competir? Facilitam-se? Porque é que estas plantas têm folhas longas e outras finas? Porque é que as aves têm bicos diferentes?
Com o tempo, essa curiosidade tornou-se mais específica, comecei a interessar-me por organismos muitas vezes ignorados, os líquenes. Isto porque percebi que nos podem ajudar a compreender e a reconstruir o passado, pois contam-nos uma história sobre timings/momentos de eventos climáticos e geológicos que terão ocorrido.
Gosto muito desta ideia multidisciplinar de usar a ecologia para “ler” o tempo e os eventos inscritos na paisagem.

Qual é a melhor parte do seu trabalho?
É esta sensação constante de estar sempre a aprender e de poder juntar campo, teoria, análise de dados e interpretação de resultados, o que muitas vezes leva a outras perguntas.
Tenho muita sorte pois acho que há algo muito especial em estar num terreno de alta montanha, numa zona moldada por gelo durante milhares de anos, a observar as comunidades de líquenes que estão a ser capazes de colonizar aquelas rochas num ambiente tão extremo como este.
Para além disso, nestas zonas de desglaciação tenho a oportunidade de estar num verdadeiro laboratório natural e acompanhar simultaneamente os processos geológicos e os momentos de colonizaçao pelos líquenes. Posso estar na presença de indivíduos e comunidades muito recentes, com dezenas de anos, ou comunidades bastante mais antigas com centenas ou até mesmo milhares de anos! E depois voltar ao laboratório/computador e transformar essas observações em padrões, modelos e hipóteses sobre como as comunidades se estruturam. Essa parte de “ligar ideias” entusiasma-me bastante.

Porque é a ecologia importante?
Porque é uma ciência multidisciplinar de interações e ajuda-nos a compreender a complexidade dos sistemas naturais.
Ajuda-nos a compreender como os sistemas e os organismos respondem a estímulos e alterações. Sem ecologia diria que temos apenas dados isolados, mas com ecologia, conseguimos interpretar processos e perceber o porquê das coisas.
Para além disso, num contexto de mudança, como mudanças climáticas ou introdução de novas espécies, perceber como é que as comunidades se organizaram no tempo e no espaço não é apenas interessante, é essencial para prever cenários futuros e para nos preparamos melhor para eles.
O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Neste momento, gostava de conseguir separar o efeito das variáveis ambientais das variáveis do tempo de colonização, para poder desenvolver um modelo verdadeiramente robusto que permitisse estimar a idade de exposição de superfícies rochosas nestas zonas glaciares.
E mais tarde, gostaria de conseguir financiamento e um verdadeiro contrato de trabalho para continuarmos – eu, as minhas orientadores e outros colegas de investigação – o atual trabalho e também para poder passar mais tempo em campo, e em diferentes ambientes extremos e até mais remotos, a recolher dados e a aplicar os nossos modelos.
A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO). Serão vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que vão estar aqui a explicar o que fazem e o que é a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante, Afonso Ferreira, Sara Mendes, Diana Sousa Guedes e Martina Panisi.