Bióloga de conservação e educadora ambiental, Martina Panisi é investigadora no BIOPOLIS CIBIO e na NOVA FCSH. Esta entrevista faz parte de uma série que nos dá a conhecer diferentes ecólogos, numa parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia.
Para Martina Panisi, o melhor do seu trabalho é “quando alguém reconhece uma espécie, lhe dá um nome e passa a integrá-la no seu dia a dia”, pois esse é o primeiro passo para a conservação deixar de ser um conceito abstrato e trazer resultados mais duradouros, afirma.
Aos 32 anos tem trabalhado em diferentes locais do planeta, desde a Arábia Saudita a São Tomé e Príncipe, com espécies consideradas em geral pouco relevantes e com grupos de pessoas sub-representadas na conservação da natureza, reforçando a ligação entre esses dois mundos. Foi num desses projetos que em 2024 ganhou o primeiro lugar do Prémio de Doutoramento em Ecologia 2024 – Fundação Amadeu, organizado pela Sociedade Portuguesa de Ecologia.
Para ficar a conhecer melhor esta ecóloga, assista ao vídeo e leia a entrevista, mais abaixo.
O que faz como ecóloga?
Procuro compreender de que forma espécies e comunidades humanas coexistem e como essa relação pode ser fortalecida para promover a conservação da biodiversidade. Este trabalho está fortemente ligado ao terreno e inclui, sobretudo, investigação em socioecologia e o potenciamento das capacidades de equipas locais em investigação e nas ações de conservação, co-criando recomendações para a gestão sustentável dos recursos naturais.
Sou bióloga da conservação, com doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução pela Universidade de Lisboa (CE3C). Atualmente trabalho como investigadora na Associação BIOPOLIS – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (grupo BIODESERTS) e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (CICS.NOVA), na interface entre a ecologia e as ciências sociais.

Como começou na ecologia?
O interesse pela ecologia começou muito antes de eu conhecer o significado da palavra. Em criança, passava horas a explorar o jardim, a virar pedras e a descobrir pequenos mundos escondidos. Lembro-me de segurar um caracol na mão e de perceber que, em comparação, eu era um gigante, e que isso implicava responsabilidade. Mais tarde compreendi que essas espécies não faziam parte apenas do meu mundo, mas também da vida de pessoas noutras partes do planeta, o que despertou uma pergunta que ainda hoje orienta o meu trabalho: como é que diferentes pessoas se relacionam com a natureza?
Isto levou-me a trabalhar ao longo dos últimos oito anos em florestas tropicais, desertos e ilhas na Europa, em África e na Península Arábica, e a focar-me sobretudo em espécies às quais se atribui frequentemente pouca relevância, desde caracóis gigantes endémicos das florestas de São Tomé e Príncipe até às aranhas nos desertos da Arábia Saudita.

Paralelamente, o meu trabalho foca-se, sobretudo, em potenciar capacidades locais por meio de ‘trainings’, workshops e cursos, entre outros, identificando e colaborando com grupos de pessoas que, às vezes, estão sub-representados na conservação da natureza.
Qual é a melhor parte do seu trabalho?
Produzir dados científicos e desenvolver recomendações para a conservação de espécies ou habitats é gratificante. No entanto, para mim, o momento mais marcante é quando alguém reconhece uma espécie, lhe dá um nome e passa a integrá-la no seu dia a dia. Nesse instante, a conservação deixa de ser um conceito abstrato e transforma-se numa relação. Essa ligação entre pessoas e natureza é muitas vezes o que ajuda a garantir resultados duradouros.
É por isso que o trabalho em educação ambiental tem um significado tão especial para mim. Atualmente, estamos a concluir um programa de educação ambiental que envolve seis escolas secundárias em Umluj, na Arábia Saudita. Ver os trabalhos finais de professores e estudantes, e perceber a ligação que está a ser criada ou reforçada com o território e com a biodiversidade local, é uma das maiores fontes de satisfação no meu trabalho.

Cada lugar deixa marcas e ligações que permanecem no tempo. O meu maior desejo é que nenhuma destas colaborações, em diferentes partes do mundo, seja em vão, e que o impacto do trabalho continue a crescer muito para além do que aprendemos juntos.
Porque é a ecologia importante?
A ecologia ajuda a compreender como tudo está interligado e o que sustenta a vida neste planeta. Permite-nos perceber a relação entre os seres humanos e os outros seres vivos, e compreender o que nos arriscamos a perder se deixarmos de nos importar com o que nos rodeia.
Perceber o que nos rodeia é o primeiro passo para protegermos algo, quando se torna necessário. Num mundo cada vez mais polarizado, acredito que promover a curiosidade no sentido de conhecer melhor o que é diferente, na natureza e entre as pessoas, é fundamental para encontrarmos soluções coletivas. Trabalhar em ecologia vai, portanto, para além de produzir dados científicos, ligando ciência, educação e a participação de todos na conservação.
O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Ao longo dos anos, percebi que não é possível proteger a natureza sem criarmos espaços seguros e inclusivos para as pessoas que a conservam. Tal como muitas espécies essenciais permanecem invisíveis, também vários grupos sociais continuam à margem da conservação, como por exemplo as mulheres em contextos rurais.

Em breve vai ter início um projeto financiado pela National Geographic Society e desenvolvido pelo Centro de Biodiversidade do Golfo da Guiné, em São Tomé e Príncipe, com o objetivo de formar um grupo exclusivamente composto por mulheres para a conservação da biodiversidade do país. O projeto integra ciência, educação e storytelling, criando espaço para enfrentar as desigualdades de género no dia a dia.
Com este projeto, gostava que dessemos um pequeno passo em direção a uma conservação mais justa, em que ciência e representação caminham juntas, reconhecendo que proteger a biodiversidade e promover a justiça social fazem parte da mesma história.
A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO). Serão vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que vão estar aqui a explicar o que fazem e o que é a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante, Afonso Ferreira, Sara Mendes e Diana Sousa Guedes.