Desde tubarões a raias elétricas ou corais com milhares de anos, Catarina Abril, investigadora ligada à associação Sciaena, dá alguns exemplos da imensa biodiversidade que tem sido encontrada naquela que vai ser a maior área marinha protegida em águas portuguesas.
Esta semana, seis organizações portuguesas ligadas à conservação e ao estudo científico do oceano juntaram-se para apresentar um documento de posicionamento conjunto em que defendem o reforço das regras e da fiscalização na futura Reserva Marinha Dom Carlos, uma vasta área que ocupa 173.000 quilómetros quadrados de extensão entre o arquipélago da Madeira e Portugal continental.
Fique a conhecer algumas das espécies marinhas mais emblemáticas que já foram encontradas no oceano onde ficará situada a futura área protegida, muitas delas extremamente sensíveis a danos no fundo do mar, enumeradas por Catarina Abril, da Sciaena.
1. Lixa, barroso e outros tubarões de profundidade
Os métodos de pesca que atingem o fundo do mar, como acontece por exemplo com a pesca de arrasto dirigida aos camarões e outros crustáceos, vitimam muitas vezes tubarões que vivem a mais de 200 metros de profundidade, capturados por acaso.
Catarina Abril nomeia três tubarões que estão presentes no Banco Josephine, um monte submarino a meia distância entre a Madeira e Portugal Continental, e noutros montes submarinos mais profundos também inseridos na futura reserva: o carocho (Centroscymnus coelolepis), classificado como Quase Ameaçado de extinção, o barroso (Centrophorus granulosus), com o estatuto Ameaçado, e ainda a lixa (Centrophorus squamosus), também com estatuto Ameaçado.
“São extremamente vulneráveis à captura”, descreve a investigadora, que nota que devido às suas caracteríaticas é proibido pescar e manter a bordo estas espécies no Atlântico Norte. Isso não impede, todavia, que continuem a ser vítimas de pescas acessórias.
2. Anequim e outros tubarões migradores

Tanto o anequim (Isurus oxyrinchus), também chamado de tubarão-mako, como o tubarão-raposo-olhudo (Alopias superciliosus), são tubarões de superfície que fazem grandes migrações no oceano. As duas espécies utilizam o Banco de Gorringe e outras áreas ricas em peixe dentro da futura reserva marinha como “estações de serviço”, onde capturam alimentos e ganham energias para prosseguir viagem. Mas muitas vezes, acabam capturados inadvertidamente por pescadores que querem capturar outras espécies, como por exemplo o anequim no caso da pesca ao espadarte.
Ambos os tubarões têm estatutos de conservação “preocupantes”, uma vez que foram classificados pela União Internacional para a Conservação da Natureza como espécies Ameaçadas, indica Catarina Abril.
Enquanto que o tubarão-raposo está protegido por diversas convenções internacionais, é neste momento proibido pescar anequim no Atlântico Norte, “mas o seu stock está a ser reavaliado este ano”, acrescenta a investigadora. O anequim é considerado o tubarão mais rápido do mundo e ao longo dos últimos anos tem sido alvo de alertas por cientistas e conservacionistas, preocupados com a sobrevivência da espécie.
3. Raia tremelga-marmoreada

A tremelga-marmoreada (Torpedo marmorata), também conhecida pelo sugestivo nome de tremedeira ou treme-mão, é uma raia elétrica de corpo arredondado. Pode atingir um metro de comprimento tem hábitos noturnos, ficando escondida sob a areia do fundo marinho durante o dia. Quando caça as suas presas, salta sobre elas, largando uma descarga eléctrica que pode atingir os 200 volts e frequências até 600 Hz.
Esta espécie está classificada um estatuto de conservação Pouco Preocupante pela UICN. No entanto, ressalva Catarina Abril, na última expedição que foi realizada ao Banco de Gorringe, dinamizada pela Fundação Oceano Azul em 2025, “foram descritas vastas agregações de fêmeas potencialmente grávidas neste monte submarino”. Por esse motivo, o Gorringe foi nesse ano classificado como uma Important Ray and Shark Area (ou ISRA), ou seja, uma área importante para raias e tubarões.
4. Corais negros milenares (e outros corais e esponjas de profundidade)

A gorgónia Victorgorgia josephinae, descrita para a ciência em 2002, é uma das várias espécies de corais e esponjas que só podem ser encontrados no Banco de Josephine, exemplifica a responsável da Sciaena. Nestes montes submarinos, habitam também os chamados corais negros de profundidade, que pertencem à ordem taxonómica Antipatharia.
“Aquilo que sabemos dos estudos é que estes corais podem chegar aos 4200 anos”, sublinha Catarina Abril, que avisa também que se forem destruídos por atividades de pesca ou outras atividades humanas, “não será certamente no nosso tempo de vida que os voltaremos a ver estes organismos que levaram milhares de anos a formar-se”.
5. Tartarugas migradoras

Tanto a tartaruga-comum (Caretta caretta) como a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), ambas classificadas com um estatuto Vulnerável pela UICN, são duas grandes migradoras presentes na área da Reserva Marinha Dom Carlos, indica a responsável da Sciaena.