Andreia Anjos, 39 anos, dedica-se ao estudo dos ecossistemas florestais, em busca de soluções que conciliem a produção florestal com a conservação da natureza. Fique a conhecer melhor esta investigadora do CE3C e o que a motiva.
O que faz como ecóloga?
Sou doutorada em Ecologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigadora do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais. Estudo a ecologia das plantas e a forma como respondem ao ambiente que as rodeia. Foi essa curiosidade que me levou a investigar a regeneração do eucalipto (Eucalyptus globulus) em Portugal e a estudar os fatores que influenciam o seu sucesso.
Como ecóloga, procuro compreender a dinâmica dos ecossistemas, em particular dos ecossistemas florestais, e perceber como podemos gerir paisagens onde coexistem áreas de produção e áreas de elevada biodiversidade. Interesso-me sobretudo por espécies exóticas e pela forma como o conhecimento ecológico pode contribuir para uma gestão que concilie a produção florestal com a conservação da natureza, mostrando que estes objetivos não têm de ser incompatíveis.
Atualmente, estudo a forma como o eucalipto e espécies nativas utilizam a água disponível no solo, recorrendo a trabalho de campo, medições ecofisiológicas e análises laboratoriais. Ao combinar estas diferentes abordagens, procuramos compreender melhor como estas espécies respondem às condições ambientais e às alterações do clima.

Como começou na ecologia?
O interesse pela ecologia surgiu durante a licenciatura, à medida que fui percebendo a complexidade das relações que existem entre os organismos e o ambiente. A oportunidade de realizar a minha tese de mestrado com investigadores do CE3C acabou por consolidar esse interesse e mostrar-me que queria seguir investigação.
Desde então, tenho procurado explicar melhor a resposta dos ecossistemas às alterações ambientais, em particular através das plantas. Num contexto de alterações climáticas e de crescente pressão sobre os ecossistemas, interessa-me perceber e prever como as espécies irão responder aos novos desafios e de que forma esse conhecimento pode apoiar uma gestão mais sustentável.
Qual é a melhor parte do seu trabalho?
A melhor parte do meu trabalho é, sem dúvida, o trabalho de campo. Apesar de serem dias muito cansativos, é aí que conseguimos testar as ideias que foram surgindo no gabinete e recolher os dados que podem responder às nossas perguntas. Claro que nem sempre encontramos o que esperávamos, mas isso também faz parte da investigação.
Muitas vezes acabamos por descobrir padrões que levantam novas questões e acabam por orientar as etapas seguintes da investigação. E, pelo caminho, há ainda a oportunidade de conhecer novos locais, novas espécies e novos ecossistemas. Essa combinação faz do trabalho de campo a parte de que mais gosto.
Um dia de campo pode incluir a recolha de amostras de solo e de folhas, medições ecofisiológicas diretamente nas plantas ou a identificação das espécies presentes num determinado local. Grande parte desse trabalho continua depois no laboratório, onde as amostras são analisadas e os resultados ajudam a completar a informação recolhida no terreno.

Porque é a ecologia importante?
A ecologia é importante porque permite compreender o funcionamento dos ecossistemas e as relações organismos-ambiente. No meu trabalho, isso significa perceber como as plantas respondem às condições que as rodeiam e como diferentes formas de gestão podem influenciar essas respostas. Esse conhecimento é fundamental para tomar decisões mais informadas.
Em vez de aplicar soluções gerais, a ecologia ajuda a desenvolver estratégias de gestão adaptadas às características de cada ecossistema, conciliando a produção, a conservação da biodiversidade e a capacidade de resposta às alterações ambientais.
Além disso, permite antecipar a forma como os ecossistemas poderão responder às alterações climáticas e a outras pressões futuras, apoiando uma gestão mais eficaz e baseada no conhecimento científico aplicado.

O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Gostava de acompanhar a evolução de um ecossistema durante várias décadas, ou seja, de desenvolver um estudo de longa duração. Grande parte da investigação decorre ao longo de poucos anos, mas muitos dos processos ecológicos acontecem numa escala temporal muito maior.
Acho fascinante pensar que algumas das perguntas que colocamos hoje só terão resposta daqui a muitos anos. Conhecer essa evolução seria um passo importante para aproximar a investigação da gestão, permitindo tomar decisões cada vez mais informadas e adaptadas à realidade dos ecossistemas.
A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO), iniciada em maio de 2024. São vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que têm estado aqui a explicar o que fazem e o que é para eles a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante, Afonso Ferreira, Sara Mendes, Diana Sousa Guedes, Martina Panisi, Mariana Ramos, Miguel Jorge e Mónica Maia-Mendes.