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Erva-das-pampas: É urgente intervir onde esta invasora ainda está pouco presente, alertam especialistas

15.09.2026
leitura de 4 minutos
Erva-das-pampas (Cortaderia selloana). Foto: Invasoras.pt

Setembro é dos meses mais importantes para o controlo desta planta presente em 208 municípios, em especial dando atenção aos locais onde chegou recentemente. Investigadora alerta para a necessidade de haver estratégia nacional e explica o que cada um de nós pode fazer.

No passado, esta planta originária da zona das Pampas, na Argentina e no Chile, era conhecida pelas plumas grandes e vistosas, usadas para decorar jardins ou colocadas em jarras dentro de casa. Foi assim que a erva-das-pampas (Cortaderia seloana) se foi espalhando de mansinho pelo país, ao longo de várias décadas.

Hoje em dia, apesar de fazer parte da Lista Nacional de Espécies Invasoras, publicada em 2019, e de se saber que tem “uma enorme capacidade de dispersão”, esta gramínea continua presente em muitos jardins privados, mas também de municípios, juntas de freguesia, escolas e outras entidades. De facto, segundo um estudo científico recente, há registos de erva-das-pampas em 208 dos 278 municípios portugueses, o que faz dela uma das dez plantas invasoras mais amplamente distribuídas no território português.

“Não estamos perante uma ameaça futura. A invasão já está instalada. E está a avançar rapidamente”, alerta Hélia Marchante, professora na Escola Superior Agrária da Universidade Politécnica de Coimbra, entidade parceira do projeto LIFE COOP Cortaderia (2023-2028), dedicado ao controlo e eliminação da espécie. “O problema não é a falta de conhecimento. É a falta de ação à escala necessária. Portugal sabe há anos que a cortadéria é uma espécie invasora.”

Uma das questões que mais preocupam os cientistas que estudam esta planta invasora é a capacidade que tem de ocupar ao mesmo tempo ambientes muito perturbados e habitats naturais com um elevado valor de conservação. “Pode começar numa berma de estrada, num terreno abandonado ou numa pedreira e, a partir daí, chegar a áreas naturais. Na realidade, há registos associados a dunas, estuários, margens fluviais, pastagens e outros habitats semi-naturais”, indicou Hélia Marchante à Wilder.

Quando a erva-das-pampas forma manchas densas, “reduz a disponibilidade de espaço, luz e recursos para numerosas espécies herbáceas e arbustivas nativas, alterando a composição e estrutura das comunidades vegetais”, descreveu a investigadora. Também são afetados os animais que dependem dessas outras plantas para alimentação, abrigo ou reprodução, alguns deixam mesmo de conseguir circular. E a saúde humana é também prejudicada, uma vez que esta planta é considerada um alergénio.

Atualmente, a erva-das-pampas está presente principalmente “no litoral e zonas periurbanas do Norte e Centro, embora seja também observada noutras regiões e tenha capacidade para se estabelecer em zonas do interior”. As zonas mais livres desta invasora estão precisamente no interior, de norte a sul do país – embora o facto de não haver registos da espécie não signifique que ela não esteja presente.

“Os locais onde há poucos registos, pouca presença, é precisamente onde é urgente intervir! Aí, com muito menos recursos podem eliminar-se poucas plantas mais facilmente, com mais sucesso, e, acima de tudo, impedir que no futuro venham a ser invadidas”, sublinhou esta investigadora. No entanto, é também nesses locais que o projeto tem “mais dificuldade em convencer as entidades a intervir, porque não sentem o problema.”

Plano de ação vital para resposta nacional coordenada

Por estes dias a erva-das-plantas está em floração, época em que cada planta feminina forma milhões de sementes, “transportadas pelo vento a distâncias consideráveis”, permitindo “que a invasão se expanda muito mais rapidamente do que a maioria das outras espécies”, descreveu Hélia Marchante, avisando que atrasar as ações de controlo tem consequências “ainda mais graves” nesta do que noutras plantas invasoras, porque é das espécies que “que mais rapidamente tem aumentado a área de invasão”.

Desde 2023 que está em cima da mesa uma proposta de “Plano de Ação Nacional para o controlo de Cortaderia selloana e espécies semelhantes”, entregue ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, cuja publicação é necessária para “transformar o conhecimento existente e as intervenções dispersas numa resposta nacional coordenada, continuada e dimensionada à escala do problema”. “É aí que esperamos que um Plano de Ação possa fazer toda a diferença”, sublinhou a mesma responsável.

Entretanto, tanto com o LIFE COOP Cortaderia como no projeto anterior (LIFE STOP Cortaderia), a equipa que em Portugal coordena o combate à erva-das-pampas tem trabalhado na divulgação de informação sobre como controlar a espécie, em ações de formação e de coordenação. Atualmente, mais de 100 entidades nacionais já aderiram à “Estratégia Transnacional de luta contra a Cortaderia”.

Três ações urgentes que todos podemos realizar

“Nesta fase, em plena floração, é urgente conter a dispersão de sementes nas populações existentes, sobretudo nas áreas onde a espécie ainda ocorre em baixa densidade”, apelou a investigadora do Instituto Politécnico de Coimbra, lembrando que é “é muito mais eficaz e muito menos dispendioso eliminar uma planta ou um pequeno núcleo antes de este produzir milhares de sementes, do que tentar controlar uma população já estabelecida”.

“O ideal é arrancar as plantas pela raiz”, recorrendo por exemplo à ajuda deste manual concebido pelo projeto LIFE STOP Cortaderia. “Não sendo possível no imediato, podem remover-se as plumas como ‘medida de emergência’ para impedir que as sementes se espalhem e originem novas plantas, mas estas voltarão a crescer!”, indicou Hélia Marchante, que acrescentou que por esse motivo “é essencial que se reúnam condições o mais rapidamente possível para arrancar as plantas”.

Ao mesmo tempo, “é fundamental mapear a espécie, identificando não apenas onde está presente, mas também a dimensão e densidade dos núcleos”. Neste caso, todos podemos contribuir, registando observações da espécie na app iNaturalist, uma vez que “esta cartografia permite aos gestores de território planear melhor a intervenção”.

Hélia Marchante acrescentou ainda outra medida “absolutamente fundamental”, que é “deixar de encarar a erva-das-pampas como um problema cuja resolução é da responsabilidade de ‘outros'”. “Todos nós podemos contribuir! Nem que seja pressionando o nosso município para remover as ervas-das-pampas, registando as ervas-das-pampas que observamos no iNaturalist ou informando o vizinho que pode pagar uma multa por ter uma erva-das-pampas no jardim!”, sublinhou esta responsável.


Saiba mais.

Recorde o que está a acontecer com a erva-das-pampas, por estes dias, e como consegue esta planta invasora dispersar-se tão rapidamente pelo território português.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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