Como é que aves, mamíferos, insetos e outros animais reagem a um fenómeno como o desta quarta-feira? A Wilder falou com Joana Santana, da coordenação da equipa portuguesa que participa no projeto EcoEclipse, sobre o que está a ser feito em busca de respostas.
Já há algum tempo que Joana Santana, da BIOPOLIS Cibio, falava com outros colegas sobre a hipótese de avançarem com um trabalho de investigação sobre os efeitos do eclipse desta quarta-feira, dia 12, sobre a vida selvagem. E por esse motivo, contou esta investigadora à Wilder, veio mesmo a calhar quando soube que em Espanha, um grupo de cientistas coordenados pelo Museo Nacional de Ciencias Naturales e pela Universidade de Sevilha se preparava para avançar com um projeto semelhante, batizado de EcoEclipse.
Os contactos entre os dois lados da fronteira, iniciados há cerca de dois meses, desembocaram na participação de vários investigadores portugueses no EcoEclipse. Coordenada a nível nacional pelo centro de investigação BIOPOLIS Cibio, ligado à Universidade do Porto, a equipa inclui também o Instituto Politécnico de Bragança e o CE3C, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
O objetivo é registar e analisar as reações da vida selvagem aos efeitos deste fenómeno, que aconteceu entre as 18h30 e as 20h30 desta quarta-feira, através do uso de AudioMoths. Estes aparelhos são muito utilizados para a gravação de paisagens sonoras e de sons da natureza, registando frequências audíveis e também ultra-sónicas – estas últimas são emitidas por morcegos e por alguns insetos, mas não são captadas pelo ouvido humano.
“Esta é a primeira vez que se faz na Europa um estudo destes”, sublinha a cientista portuguesa, que lembra que investigações anteriores se baseavam em observação direta. Já nos Estados Unidos, realizou-se um estudo semelhante em abril de 2024, quando ali aconteceu um eclipse solar total, mas a cobertura de território foi menor e também o planeamento foi diferente, explica.

Desde junho, foi necessário concertar protocolos, angariar aparelhos de registo sonoro e pessoas que os instalassem em diferentes locais. Com essa parte do trabalho concluída, desde dia 10 que entre Espanha e Portugal começaram a funcionar quase meio milhar de gravadores em locais no meio da natureza, que só serão desligados a partir de sexta-feira, dia 14. Quanto às áreas cobertas, foi dada prioridade àquelas onde o eclipse levou à cobertura de 98% do sol pela lua, uma vez que “estudos prévios mostram que é a partir desse nível que podem acontecer maiores mudanças no comportamento animal”, acrescenta a investigadora.
Por isso mesmo, os 39 AudioMoths que foram instalados em Portugal ficaram espalhados apenas pelo norte do país, onde o eclipse será total ou quase total, distribuídos por várias regiões: Parque Natural de Montesinho, Portelinha/Peneda, Serra de Fiães e zona de Castro Laboreiro (Parque Nacional da Peneda-Gerês), Parque das Serras do Porto, Reserva Ornitológica do Mindelo e outras partes do concelho de Vila do Conde, e ainda o Parque Natural do Litoral Norte, na zona de Esposende.

O trabalho de colocar os aparelhos coube a várias pessoas da equipa. No concelho de Castro Laboreiro, por exemplo, Joana e o filho de 16 anos, Miguel Reino, afadigaram-se a instalar 11 AudioMoths em diferentes locais, sempre afastados de áreas residenciais para evitar o barulho de pessoas, mas também possíveis roubos. Já na área de Esposende, quem selecionou os diferentes pontos de audição foi o fotógrafo Carlos Rio, enquanto que no Parque Natural de Montesinho – único local do país com o eclipse total – foi tudo instalado por Paulo Cortez, do IPB.
Para contrariar os efeitos do calor do verão, a equipa deu preferência à colocação dos AudioMoths em locais mais resguardados, como por exemplo junto a linhas de água, para conseguirem captar animais mais ativos.
Depois desta sexta-feira, espera-se que sejam rapidamente recolhidos todos os registos, até para evitar que os aparelhos sejam destruídos por incêndios de verão. Os dados serão depois analisados com recurso a algoritmos de identificação automática, que vão permitir a rápida identificação das espécies de morcegos e aves que tiverem ficado registadas nas gravações, entre outros animais, diz também a investigadora. Ainda assim, essa parte de análise dos dados, que será liderada pela equipa espanhola, está dependente da existência de financiamento para poder avançar mais depressa.
De que animais vamos estar à escuta?
Uma vez que o eclipse aconteceu perto do final do dia, a equipa espera ter conseguido registos do comportamento tanto de animais diurnos como daqueles que ficam ativos apenas ao final da tarde ou quando tudo escurece. “A nossa hipótese é que as aves diurnas vão cessar as suas vocalizações mais cedo, enquanto que as espécies crepusculares e noturnas irão iniciar também a sua atividade mais cedo do que é costume”, esclarece a cientista da BIOPOLIS Cibio.
Além das aves diurnas, deverão ter sido também captados sons de grilos e gafanhotos, de aves noturnas e de morcegos, e ainda de lobos. E com alguma sorte, embora não tenha chegado ainda a época de reprodução dos cervídeos, quando estes mais se fazem ouvir, talvez tenham ficado registados também veados e corços.

Joana Santana lamenta aliás que o eclipse não tenha acontecido algum tempo antes, porque por exemplo em relação às aves, a maioria já concluíram por estes dias a fase de nidificação e estão bem mais silenciosas do que há alguns meses.
Ainda assim, as gravações nos dias anteriores e posteriores ao eclipse vão ajudar a que se percebam os comportamentos fora do normal durante este fenómeno, mesmo durante esta época mais calma.
Segundo uma notícia da agência espanhola EFE Verde, os parques zoológicos também participam no estudo: cerca de uma dezena de centros zoológicos em Espanha e Portugal, coordenados pela Associação Ibérica de Zoos e Aquários, gravaram em tempo real a reação ao eclipse de animais como os leões, aves, gorilas e chimpanzés, entre outros, comparando esses comportamentos com aqueles que são os comuns de cada espécie em dias normais.
No meio marinho, o projeto procura também analisar se devido ao ecplipse irão acontecer fenómenos que só costumam suceder quando anoitece, como é o caso da subida do plâncton para as águas, e os comportamentos das muitas espécies que se alimentam desses animais minúsculos.
No total, o EcoEclipse conta com mais de uma centena de investigadores. Do lado português, além de Joana Santana e de Paulo Cortez, participam Luís Pascoal Silva (Estação Biológica de Mértola – Cibio), Patrícia Gil (BIOPOLIS Cibio), Ricardo Lopes (CE3C), e ainda Filipe Rocha, Francisco Álvares e Diogo Ferreira, os três do BIOPOLIS Cibio.
Notícia alterada às 12h27 de 13/03, com o acrescento do nome de um investigador à equipa portuguesa que participa no projeto EcoEclipse.