Mónica Maia-Mendes, 58 anos, é professora do Segundo Ciclo mas trabalha sobretudo na educação ambiental em meios aquáticos, ligando ciência, escolas, municípios e comunidades. Esta entrevista faz parte de uma série em parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, que nos dá a conhecer diferentes ecólogos.
Desde muito pequena que ficou seduzida pela Ecologia. “Entre rios, campos, animais, mar e costa, havia sempre um ‘mundo inteiro’ para descobrir, o que despertou em mim uma enorme curiosidade pela natureza e pela forma como tudo se relaciona”, recorda. O “clique” mais a sério deu-se aos 14 anos, quando Mónica recebeu de presente – e leu atentamente – um clássico sobre esta área de conhecimento.
Assista ao vídeo e leia a entrevista, mais abaixo, e fique a conhecê-la melhor.
O que faz como ecóloga?
Sou bióloga aquática e ecóloga, com um percurso muito ligado à educação ambiental em ambientes aquáticos, quer marinhos, quer fluviais, mas sobretudo ligado à conservação da natureza. Sou professora do Segundo Ciclo, mas trabalho sobretudo na ligação entre ciência, escolas, municípios e comunidades, desenvolvendo projetos de monitorização ambiental, literacia de natureza e sustentabilidade. Ao longo dos anos tenho participado em vários projetos nacionais e internacionais relacionados com rios e oceanos, espécies invasoras, cidadania ambiental e educação para a sustentabilidade.

Como começou na ecologia?
Comecei muito cedo, através da curiosidade pela natureza e especialmente pela água e pelos seus habitantes. Cresci entre dois mundos muito diferentes: a cidade durante a semana e o campo aos fins de semana e nas férias. Entre rios, campos, animais, mar e costa, havia sempre um “mundo inteiro” para descobrir, o que despertou em mim uma enorme curiosidade pela natureza e pela forma como tudo se relaciona. O fascínio não era apenas pelos rios, mas também pelo mar e pelos ecossistemas aquáticos em geral.
Mas o verdadeiro “clique” aconteceu por volta dos 14 anos, quando tive a disciplina de Ecologia na escola. De repente, percebi que aquela forma de olhar o mundo fazia todo o sentido para mim. Nessa altura, a minha tia ofereceu-me, no Natal, o “Odum”, como é conhecida esta referência clássica da ecologia. [Em português, este livro chama-se “Fundamentos de Ecologia” e foi escrito por Eugene P. Odum, publicado originalmente em 1953.] E isso tornou tudo ainda mais claro: era exatamente aquilo que queria compreender e seguir.
Mais tarde escolhi estudar Ciências do Meio Aquático na Universidade do Porto e, posteriormente, fiz o Mestrado em Ciências do Mar e Recursos Marinhos, na vertente de Ecologia Marinha, transformando essa paixão numa área de trabalho e de vida.

Qual é a melhor parte do seu trabalho?
A melhor parte é perceber que conseguimos mudar a forma como as pessoas olham para a natureza. Gosto muito de trabalhar com pessoas de todas as idades e ver nascer o entusiasmo, a curiosidade e o sentido de responsabilidade ambiental. Também é muito gratificante unir pessoas e instituições diferentes em torno de objetivos comuns, como acontece em vários projetos de recuperação e valorização dos rios.
Mas uma das maiores mais-valias do que faço é poder trabalhar diretamente em ambientes naturais. Estar no terreno, junto dos rios, do mar e dos ecossistemas, observar as espécies, acompanhar as mudanças e aprender continuamente com a própria natureza é algo que continua a entusiasmar-me todos os dias. É um trabalho que combina ciência, descoberta e contacto direto com o mundo natural, e isso torna-o muito especial para mim.
Porque é a ecologia importante?
Porque tudo está ligado! Muitas vezes pensamos na natureza como algo separado da nossa vida, mas na realidade dependemos dela para tudo: a qualidade da água que bebemos, o ar que respiramos, os alimentos que produzimos e até a nossa saúde dependem do equilíbrio dos ecossistemas.
A ecologia ajuda-nos a compreender essas relações e a encontrar soluções mais sustentáveis para os desafios atuais, como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade ou a poluição. Sem conhecimento ecológico é muito difícil construir um futuro equilibrado. Mais do que estudar a natureza, a ecologia ajuda-nos a perceber que fazemos parte dela e que proteger os ecossistemas é também proteger o nosso próprio futuro.

O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Gostava de desenvolver um grande projeto internacional que ligasse educação, arte, ciência e meio aquático, envolvendo comunidades de diferentes países. Também gostava de passar mais tempo em trabalho de campo e exploração científica em ambientes naturais menos intervencionados, porque ainda há muito para descobrir e aprender diretamente com a natureza.
A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO), iniciada em maio de 2024. São vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que têm estado aqui a explicar o que fazem e o que é para eles a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante, Afonso Ferreira, Sara Mendes, Diana Sousa Guedes, Martina Panisi, Mariana Ramos e Miguel Jorge.