Investigadora portuguesa a trabalhar em Espanha, no Conselho Superior de Investigações Científicas, foi este ano um dos três vencedores do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias. Esta série, que nos dá a conhecer diferentes ecólogos portugueses, é uma parceria com a SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia.
Foi com uma investigação dedicada ao impacto das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e da urbanização na capacidade de dispersão de sementes que Sara Mendes, 31 anos, recebeu o segundo prémio do concurso organizado pela SPECO.
“Adoro o momento em que surge uma nova pergunta científica, aquela faísca de curiosidade que me leva a querer descobrir mais. Esta sensação de estar sempre a aprender e a explorar novas ideias é uma das melhores partes do meu trabalho”, nota esta investigadora, que tem como maior objetivo “alcançar a estabilidade profissional na ciência”. “Esse é o grande sonho que orienta tudo o que faço.”
Para ficar a conhecer melhor esta ecóloga, assista ao vídeo e leia a entrevista, mais abaixo.
Quem é e o que faz como ecóloga?
Sou investigadora pós-doc no Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), em Espanha. A minha investigação foca-se em compreender como os fatores de mudança global – como a defaunação, as alterações climáticas e a fragmentação do habitat – afetam as comunidades ecológicas, em particular as redes de interação de dispersão de sementes. Além disso, estou também interessada em perceber de que forma os animais dispersores de sementes podem ajudar as plantas a acompanhar as mudanças climáticas e a restaurar áreas degradadas. Atualmente, faço algum trabalho de campo nas Ilhas Canárias, mas passo grande parte do meu tempo a analisar dados, a rever literatura científica e a escrever artigos científicos.

Como começou na ecologia?
Desde criança que tenho um fascínio enorme pela natureza. Cresci numa aldeia e passava horas no campo com os meus avós ou a passear com o meu pai na floresta, e adorava simplesmente observar tudo o que me rodeava. Tinha um grande fascínio pelas formigas! Por isso, nunca tive dúvidas de que queria ser bióloga.
Durante a licenciatura, na Universidade de Coimbra, procurei sempre estar próxima de grupos de investigação para tentar perceber qual área queria seguir. Fiz vários voluntariados de verão, tanto em trabalho de campo como em laboratório. No último ano letivo, em 2015/2016, descobri a área das redes ecológicas e fiquei encantada com a liberdade que dava para estudar diferentes tipos de interações. Percebi que era isso que queria seguir.
Depois fiz o mestrado em Ecologia, também em Coimbra, onde estudei os impactos da perda de habitat nas redes de polinização. Seguiu-se um estágio de um ano nas ilhas Seychelles, em 2018, onde trabalhei com redes de polinização e de dispersão de sementes. Ao regressar, obtive uma bolsa de doutoramento da FCT para estudar redes de dispersão de sementes, que me levou a Tenerife para dois anos de trabalho de campo intensivo.

Qual é a melhor parte do seu trabalho?
Primeiro, nenhum dia é igual! Tanto posso estar no campo a recolher dados quanto no computador a analisar resultados, ou a viajar para congressos em várias partes do mundo. Sinto também um grande privilégio por poder trabalhar em ilhas muito bonitas!
Adoro o momento em que surge uma nova pergunta científica, aquela faísca de curiosidade que me leva a querer descobrir mais. Esta sensação de estar sempre a aprender e a explorar novas ideias é uma das melhores partes do meu trabalho. Além disso, poder contribuir (nem que seja com um grãozinho de areia) para compreender melhor o mundo que nos rodeia ou para a conservação da natureza também me dá uma sensação de grande realização.

Porque é a ecologia importante?
Tendo em conta o panorama atual do mundo – com a perda de biodiversidade, as alterações climáticas e a destruição de habitats – a ecologia tem hoje um papel fundamental na nossa sociedade. A ecologia é essencial para tomarmos decisões informadas sobre como proteger a biodiversidade, restaurar ecossistemas e garantir a integridade dos ecossistemas dos quais todos dependemos no nosso dia a dia.
O que gostaria de fazer mas ainda não fez?
Estou no início da carreira, por isso a lista é longa! Tenho muitas perguntas científicas que quero explorar. Gostaria de formar o meu próprio grupo de investigação e, no futuro, conciliar a investigação com o ensino universitário. Mas, neste momento, o meu maior objetivo (e para o qual trabalho diariamente) é alcançar estabilidade profissional na ciência. Esse é o grande sonho que orienta tudo o que faço.
Infelizmente, a estabilidade profissional depende de muitos fatores, alguns dos quais não conseguimos controlar. Mas, dentro do que podemos controlar, é importante desenvolver boas perguntas de investigação, publicar trabalho de qualidade em revistas com bom fator de impacto, estabelecer colaborações com investigadores de diferentes instituições e preparar candidaturas com projetos de investigação que nos permitam obter financiamento para concretizar as nossas ideias.

A série À Conversa com um Ecólogo é uma parceria entre a revista Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO). Serão vários os investigadores portugueses, de todas as idades, que vão estar aqui a explicar o que fazem e o que é a Ecologia. Para celebrar o Dia da Ecologia, que se comemora em Setembro.
Recorde os testemunhos de Filipa Coutinho Soares, Mário Santos, Susana C. Gonçalves, Zara Teixeira, Maria Amélia Martins-Loução, Carlos Vila-Viçosa, Hélia Marchante, Ruben Heleno, Ana Paula Portela, Pedro Anastácio, Ana Sofia Reboleira, Rúben Sousa de Oliveira, Joana Jesus, Elizabete Marchante e Afonso Ferreira.