Afonso Ferreira, Sara Mendes e Diana Sousa-Guedes foram os três vencedores da edição deste ano do prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias, organizada pela Sociedade Portuguesa de Ecologia.

Afonso Ferreira, investigador no MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; Sara Mendes, actualmente investigadora no Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), em Espanha, mas antes doutoranda no CFE – Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra; e Diana Sousa-Guedes, investigadora do CICGE – Centro de Investigação em Ciências Geo-Espaciais da Universidade do Porto, foram os premiados deste ano pelo júri do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias. Os nomes dos vencedores foram divulgados pela SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, que organiza este concurso.
Compreender o impacto das alterações climáticas na produtividade primária da Antártida foi o objectivo do primeiro classificado, Afonso Ferreira, descreve a SPECO em comunicado. Este investigador recorreu a diferentes técnicas e metodologias, combinando observações no terreno com dados de satélite e experiências laboratoriais com culturas de fitoplâncton.
“O seu grande desafio foi compreender as dinâmicas sazonais e espaciais do fitoplâncton na Antártida Ocidental, essenciais à compreensão do funcionamento dos produtores primários, assim como as eventuais implicações que estes impactos podem vir a ter para a dinâmica dos predadores do ecossistema”, descreve a associação.
Esta tese demonstrou que as alterações climáticas estão associadas a um aumento da biomassa de fitoplâncton, e que as diferentes espécies estão bem adaptadas ao ambiente de luz altamente variável da região. No entanto, umas conseguem tolerar melhor o stresse luminoso, o que pode justificar a sua predominância nas camadas associadas à água do degelo glaciar.
“Esta tese constitui um exemplo da importância das colaborações multinacionais, já que beneficiou de dados e de suporte logístico e financeiro de três programas científicos a decorrer na Antártida”, sublinha a SPECO, acrescentando que devido à importância mundial da investigação na Antártida, é fundamental a colaboração sustentada entre múltiplos programas para obter os dados de longo prazo essenciais à compreensão dos impactos das alterações climáticas neste ecossistema.
Alterações climáticas, sementes e cidades

Por sua vez, Sara Mendes, que recebeu o 2º prémio, realizou um trabalho sobre o impacto das alterações climáticas, a perda de biodiversidade e a urbanização na capacidade de dispersão de sementes. Esta fase do ciclo de vida representa a única oportunidade de movimento das plantas, fundamental para a dinâmica das populações e para a sua resiliência às alterações climáticas.
“O trabalho em causa utilizou a abordagem das redes ecológicas e permitiu a construção da primeira rede de dispersão de sementes a nível europeu, a mais completa para um continente”, indica a associação de ecologia. Com base nesta rede, Sara Mendes avaliou o estatuto de conservação do serviço de dispersão de sementes na Europa e lançou uma ferramenta aplicável a outros tipos de interacções, funcionando como um indicador precoce da degradação das comunidades.
Este estudo “forneceu também a primeira evidência empírica de sementes dispersas por animais para além do seu limite actual de distribuição, mostrando a necessidade da conservação de animais dispersores para as plantas acompanharem as alterações climáticas”, acrescenta a SPECO. Ao estudar o papel da urbanização através desta ferramenta das redes ecológicas, a investigadora verificou ainda que os dispersores generalistas facilitam a dispersão de plantas exóticas das cidades para os ecossistemas naturais. Alerta assim para a importância de conservar a vegetação natural nos espaços urbanos e de controlar a introdução de espécies exóticas nos parques e ruas das cidades.
Tartarugas-comuns em Cabo Verde

Já o trabalho de Diana Sousa-Guedes, que recebeu o 3º prémio, desenvolveu-se a partir da resposta à pergunta central de como a poluição por plástico e as alterações climáticas afetam os habitats de nidificação de tartarugas marinhas, em Cabo Verde. “Este estudo teve um forte impacto prático e social ao produzir mapas de risco com aplicação directa na formulação de políticas públicas e ordenamento costeiro”, realça a associação portuguesa.
Neste trabalho, Diana Sousa-Guedes debruçou-se sobre a tartaruga comum do arquipélago cabo-verdiano, um dos maiores hotspots de nidificação da espécie a nível mundial. “Para o desenvolvimento do trabalho, usou uma abordagem multi-escala ecológica, onde cruzou dados de campo, deteção remota e modelação ecológica”, descreve a SPECO.
À escala do ninho, a investigadora demonstrou que a presença de fragmentos de plástico reduz significativamente o sucesso de eclosão e interfere na sincronização da emergência dos neonatos, aumentando a vulnerabilidade à predação.
À escala das ilhas, mapeou os padrões espaciais de acumulação de lixo marinho em praias remotas e turísticas, tendo constatado que a sua dispersão está ligada à actividade pesqueira e às correntes oceânicas. À escala do arquipélago, integrou variáveis ambientais e antropogénicas (como lixo marinho, temperatura, inundação, luz artificial e turismo) para avaliar a vulnerabilidade de mais de 300 praias de nidificação e verificou que as áreas com mais ninhos coincidem com zonas críticas de acumulação de lixo, constituindo um paradoxo de conservação.
Por fim, à escala global, este trabalho revelou tendências preocupantes associadas ao aquecimento das praias, com aumentos recentes no número de ninhos, mas os dados alertam para um futuro declínio, à medida que se ultrapassam limites térmicos críticos para o desenvolvimento embrionário. Foi também com este trabalho que Diana Sousa-Guedes identificou os produtos químicos que geram toxicidade para os neonatos.
Os três primeiros classificados vão apresentar o seu trabalho e receber o prémio no 24º Encontro Nacional de Ecologia que, este ano, decorre de 20 a 22 de Novembro na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Os prémios, no valor de 3000, 2000 e 1000 euros, são atribuídos, respetivamente, ao primeiro, segundo e terceiro classificados. Os três candidatos terão ainda um bónus de um ano com quotas pagas.
O prémio da edição deste ano recebeu 14 candidaturas elegíveis, de doutorados com teses defendidas nas Universidades de Aveiro, Algarve, Coimbra, Lisboa, e Porto.