As folhas circulares da Victoria colombiana chegam a medir dois metros entre as duas extremidades. A descoberta envolveu uma corrida contra o tempo e uma expedição noturna pela floresta tropical colombiana.
Foi há cinco anos que Carlos Magdalena, botânico e especialista em nenúfares, observou por acaso no Instagram as imagens de um nenúfar gigante fotografado na região de Inírida, no leste da Colômbia, América do Sul. O autor, Jeremiah Harris, que gere um horto de plantas carnívoras nos Estados Unidos, identificava a espécie como Victoria amazonica.
No entanto, Carlos Magdalena, que é conhecido a nível mundial como perito em nenúfares e um dos responsáveis pela descoberta de um outro nenúfar gigante em 2022, percebeu que havia algo de estranho nas fotografias divulgadas. De facto, a área de distribuição da Victoria amazonica, conhecida pelo nome comum de vitória-régia, não chega até à região onde se encontra o rio Inírida.
Essa discrepância levou o investigador a questionar se se trataria de uma nova espécie do género Victoria, que engloba todos os nenúfares gigantes até hoje conhecidos, dentro do qual eram conhecidas até agora apenas três espécies diferentes.

A história da descoberta desta quarta espécie, descrita para a ciência num artigo publicado esta sexta-feira pela revista Phytotaxa, é contada numa nota de imprensa dos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, onde Carlos Magdalena trabalha.
Na tentativa de perceber que nenúfar era este, o investigador recorreu a imagens de satélite para visualizar o Inírida e os lagos que o rodeiam, rodeados por floresta tropical. Por fim, detetou várias folhas de uma única planta de nenúfar gigante visível nas imagens, confirmando que o género Victoria ocorre nessa região.
Mais tarde, depois de contactar peritos colombianos e habitantes de reservas indígenas na região, foi formada uma equipa para se deslocar até ao local. Um dos indígenas, Nilo Rodriguez, lembrava-se de observar nenúfares gigantes quando era criança, mas não muitos.

Pouca sorte e uma surpresa inesperada
Finalmente, quase dois anos depois, teve início uma expedição de cinco dias na região onde tinha sido detetado o nenúfar, mas quase até ao final da viagem, a equipa parecia estar com pouca sorte. Nos primeiros quatro dias encontraram apenas duas plantas de nenúfar, mas sem flor. Ora, essa lacuna impedia que se fizesse mais tarde a confirmação científica de que se trataria de uma nova espécie, através da comparação com exemplares das espécies já conhecidas do género Victoria, guardados em herbário.

Depois de muitos mais quilómetros percorrridos mas de mãos ainda vazias, ao quinto dia, foi só na véspera do voo de regresso a Bogotá, a capital colombiana, que a sorte finalmente lhes sorriu. Nesse dia à noite, Carlos Magdalena explicou a sua angústia a um barqueiro indígena que apoiava a expedição, Gustavo Melo, conhecido pelas suas habilidades como navegador.
“De forma surpreendente, Melo disse que conhecia exatamente onde havia mais espécimes deste nenúfar”, recorda a nota de imprensa. “Com apenas 10 horas disponíveis até ao voo de regresso, partiram pela 1h00 da manhã rodeados por uma escuridão de breu, na direção oposta à do aeroporto e entrando cada vez mais na floresta tropical inundada, confiando na habilidade e no instinto de Melo para os guiar neste ambiente complicado.”. Finalmente numa corrida contra o tempo, já quase ao nascer-do-sol, chegaram a um pequeno lago onde encontraram cinco plantas da nova espécie, incluindo uma que estava em flor. E o cúmulo da sorte: ainda conseguiram apanhar o voo para Bogotá, marcado para as 9h00.

Foi graças a esse exemplar em flor que se tornou possível a descrição científica deste nenúfar gigante e o registo de um total de sete plantas da nova espécie, identificadas em dois lagos diferentes.
“Esta é uma daquelas histórias extraordinárias em que o conhecimento hortícola e indígena se juntaram, com a ajuda das redes sociais e da tecnologia, para colocar a descoberto um achado botânico realmente extraordinário”, comentou Carlos Magdalena. “Esta é também uma lembrança de que a natureza está cheia de surpresas e maravilhas. Agora que sabemos que este nenúfar existe, é da nossa responsabilidade compreendê-lo melhor e protegê-lo.”
Maarten Christenhusz, taxonomista botânico que colaborou e supervisionou os trabalhos de descrição científica, sublinhou por sua vez que “novas espécies estão sempre a ser encontradas, mas poucas são tão grandes, espetaculares e emblemáticas como esta”. “Este novo nenúfar gigante até pode ser visto do espaço, o que é uma incrível chamada de atenção para o que ainda não sabemos sobre a vida no nosso planeta. Só podemos conservar o que sabemos que existe, e descobertas como esta mostram porque é que explorar e compreender o mundo natural é tão importante”, concluiu.

Para já, graças a novas pesquisas, estima-se que poderá existir uma terceira população, e que existem entre 30 a 50 plantas destas na natureza, pelo que se trata de uma espécie muito rara e ameaçada. Para já, a equipa está a trabalhar para que a Victoria colombiana seja classificada como Criticamente em Perigo, o patamar mais elevado de ameaça antes da extinção de uma espécie na natureza.
Uma das medidas de conservação em cima da mesa é o estabelecimento de uma população naturalizada destes nenúfares num outro lado mais acessível, em território indígena. “Um local como esse poderia suportar eco-turismo, fornecendo ao mesmo tempo uma população adicional de salvaguarda, fora do habitat natural remoto desta espécie”, explicam os Jardins Botânicos Reais de Kew.
Um dos próximos passos é a recolha de sementes em número suficiente para que esta planta aquática gigante colombiana seja cultivada em Bogotá, de forma a que os investigadores fiquem a saber mais sobre a espécie e sobre a sua reprodução.
Saiba mais.
Em Portugal, são conhecidas duas espécies nativas de nenúfar, o nenúfar-amarelo e o nenúfar-branco.