Paulo Catry e outros investigadores que com ele trabalham encontraram por estes dias numerosas tartarugas marinhas junto à Selvagem Grande, no arquipélago da Madeira. De onde vieram estes animais viajantes e o que levou ao seu aumento?
Selvagem Grande, julho 2026*
Vejo a tartaruga poisada no fundo e sou visto logo a seguir. Ficamos o mais quietos que podemos. Ela não resiste a esticar o pescoço, levanta a cabeça. Por momentos, só nós existimos, dois focos entrelaçados, gotas de água que se julgam o centro do oceano. Oiço a minha respiração excitada, que ouvirá ela?

A tartaruga resolve afastar-se lentamente, voando rente ao fundo; sigo-a com o menor espalhafato possível. Vai com braçadas regulares, lentas, mas avança rápido. Vira à direita, depois à esquerda. Está a verificar se sou um voyeur que a persegue ou um simples transeunte marinho. Leva quatro minutos até estar segura das minhas intenções e perde a paciência. Subitamente acelera; por mais que eu quisesse, nunca poderia acompanhá-la.
Venho à Selvagem Grande desde 2004. O objetivo inicial foi estudar cagarras, mas aos pouco fomos estendendo as pesquisas a outras aves marinhas. As tartarugas (com que trabalho em África desde há décadas) foram sempre uma nota de rodapé no relato destas viagens. Volta e meia víamos algumas entre as Selvagens e a Madeira, à tona do oceano profundo, a meio da travessia. Durante a estadia de duas ou três semanas nas Selvagens, entretidos com aves, peixes, estrelas, ocasionais baleias, as tartarugas nunca vinham à conversa, mantinham-se ao largo.
Este ano as tartarugas entraram-nos na cabeça e nem enxotadas saem. Atravessam-se à nossa frente quando fazemos uma pausa na subida ao planalto e olhamos o mar. Atravessam-se quando passeamos na orla das arribas. Atravessam-se durante um breve mergulho de máscara. Atravessam-se à noite, em sonhos.
Todas as tartarugas marinhas nascem no fundo de um poço escavado na areia húmida de uma praia sossegada. Todas, incluindo estas, certamente. Mas na Selvagem Grande não há praias de areia. Há mais longe, na Selvagem Pequena, nas Canárias, no Porto Santo. Só que essas praias não incubam ovos de tartaruga.

Estas tartarugas-comuns Caretta caretta vêm de longe. Análises genéticas de amostras colhidas de indivíduos capturados no mar da Madeira indicam uma dupla origem: muitos vêm da costa leste dos Estados Unidos: da Florida, da Geórgia, da Carolina do Sul – um litoral que dista 6000 km do mar da Madeira. A perto de 2000 km de distância, fica outro núcleo de origem: o arquipélago de Cabo Verde. Mas estas medições pouco dizem, as viagens das tartarugas não se fazem por linhas retas apressadas, são longas deambulações.
Movimentos extensos no espaço e no tempo. Tratamos aqui de tartarugas jovens, que levam duas ou três décadas a fazerem-se adultas. As tartarugas-comuns do mar português são imaturas. Uma vez feitas adultas, mantêm-se apartadas das nossas águas, habitam mais perto das praias de desova.
Só nos anos mais recentes começámos a ver tartarugas junto à costa nas Selvagens e agora são, subitamente, numerosas. Estimo que há pelo menos duas dezenas, diariamente, a alimentarem-se junto à Selvagem Grande neste princípio de julho de 2026. Este aumento recente de tartarugas em águas costeiras pouco profundas também tem sido notado nas Canárias e na ilha da Madeira. Não há explicação conhecida para isto. É bem verdade que as tartarugas-comuns têm protagonizado um aumento populacional ao longo das últimas décadas no Atlântico Norte, mas esta transição para os habitats costeiros parece demasiado abrupta para resultar só disso.
Em redor da Selvagem Grande, as tartarugas preferem claramente zonas pouco profundas (4-15 metros) e abrigadas da ondulação predominante do quadrante norte. Alimentam-se sobre lajes, blocos e fendas rochosas, muito ricas em anémonas Anemonia, que poderão formar parte importante da sua dieta no litoral. Ao largo, estas tartarugas-comuns juvenis alimentam-se em grande medida de outros cnidários, como alforrecas ou medusas.

Nestes vinte e tal anos de Selvagem as aves marinhas aumentaram de número, mas lentamente. A pesca foi proibida e, quiçá por isso mesmo, veem-se agora mais meros e grandes lírios (por cá conhecidos por charuteiros) junto à costa. Atuns, gaiados e cagarras pescam juntos, frente à casa da Reserva. Mas no mar, o que mudou mais visivelmente foram as tartarugas. Num dia de calmaria, do alto do Pico do Inferno, contei 15 a virem respirar noutros tantos minutos de observação.
As Selvagens estão no centro de uma das maiores Áreas Marinhas Protegidas do Atlântico Norte, com pesca proibida até 12 milhas ao redor das ilhas. Uma proteção total que se estende por 2.677 km2 desde o ano de 2021. São como que uma pausa para respirar num oceano de aflições.
As tartarugas que vieram instalar-se no centro desta reserva integral são, gosto de acreditar, uma dádiva de Poseidon. Um reconhecimento do esforço de proteção. Mas as tartarugas não nos pertencem, nem a parte nenhuma. São seres deste mar todo e do vasto tempo que as trouxe até aqui. Tartarugas modestas, quando vistas do Pico da Atalaia, enormes no seu abraço transatlântico; vieram à costa, selvagens, em breve arribam de novo. Haja espaço e outras virão.

* 7 de julho 2026 – morreu hoje o João Abreu, pai de família, adorado pelos amigos, uma pessoa enorme, tão discreta, e necessária, que parte demasiado cedo. Entre tantas outras coisas, foi criador e impulsionador do Museu da Paisagem, projeto nascido do amor aos livros, às ilhas, às lezírias, à montanha e a todas as coisas portuguesas. Fica-lhe dedicado este texto, na expetativa de voltarmos a passear por um campo florido qualquer.
Leia aqui outros textos já publicados por Paulo Catry, professor e investigador do Mare – Marine and Environmental Sciences Centre, Ispa – Instituto Universitário, na série Crónicas Naturais.