Resultados peliminares do programa Madeira Ocean demonstraram que as AMP permitem a recuperação e valorização da natureza, quando devidamente regulamentadas e implementadas, anunciaram os promotores.
O Programa Madeira Ocean concluiu esta quarta-feira, dia 28, a sua primeira grande iniciativa: a maior expedição científica alguma vez realizada na Região Autónoma prolongou-se por cinco semanas e teve lugar na Madeira, no Porto Santo, nas Ilhas Desertas e no monte submarino Seine.
Com o objetivo de aumentar o conhecimento científico sobre os ecossistemas marinhos no arquipélago madeirense, esta iniciativa reuniu mais de 200 participantes, incluindo 116 cientistas nacionais e internacionais, 25 instituições científicas e 40 parceiros, e mobilizou 15 embarcações, descreve uma nota de imprensa divulgada pelos promotores.


Os resultados científicos preliminares foram também apresentados quarta-feira no Funchal, num evento que reuniu membros do Governo Regional da Madeira e representantes das instituições promotoras, parceiros institucionais e equipas científicas.
A expedição ajudou a avaliar o estado de saúde das Áreas Marinhas Protegidas (AMP) que existem na região, apoiar a sua monitorização e explorar novas áreas ainda pouco estudadas. As equipas envolvidas recolheram dados científicos em diferentes habitats e profundidades, tanto em terra como no mar, e dentro e fora das AMP. Toda esta informação permite aos cientistas estudarem a biodiversidade ali presente, a distribuição das espécies e que características têm os habitats, de forma a compreenderem melhor os resultados das medidas de proteção que já existem e identificar quais são as mais urgentes para o futuro.

“Os primeiros resultados indicam que a proteção funciona: encontrámos agregações de meros (Epinephelus marginatus) juvenis dentro e fora das Áreas Marinhas Protegidas, um sinal encorajador das medidas implementadas, e confirmámos a presença de Ecossistemas Marinhos Vulneráveis em águas mais profundas”, afirmou João Canning-Clode, coordenador científico da expedição, citado na nota de imprensa. “Mas o que mais me marcou foram as pessoas: senti, de forma muito clara, que todos os participantes acreditam neste projeto”, disse também.
De acordo com os promotores, a expedição demonstrou que as AMP que estão devidamente regulamentadas e implementadas funcionam, permitindo a recuperação da natureza e a sua valorização.

Meros e badejos, jardins de corais, florestas de algas castanhas e raias ameaçadas
Entre os resultados das atividades de mergulho científico, a equipa destacou “a observação de peixes maiores dentro das AMP, por exemplo meros, espécies protegida e emblemática da região, e agregações de meros e badejos (Myctaroperca fusca) juvenis”, concluindo que esses resultados mostram que “a proteção destas áreas contribuiu positivamente para o seu crescimento e reprodução”.
Outra descoberta colocada em destaque: a existência de ecossistemas mesofóticos, que são ecossistemas marinhos localizados na chamada zona de penumbra, entre os 30 e 150 metros de profundidade.
Ao largo da ilha de Porto Santo, por exemplo, o Jardim de Ariel e a Rocha de Sebastião surpreenderam os cientistas devido à “presença de jardins densos de corais, incluindo espécies vulneráveis e com interesse para a conservação, bem como elevada densidade de peixes”.
A equipa da expedição Madeira Ocean sublinhou também a presença de florestas de algas castanhas a profundidades de cerca de 80 a 100 metros, consideradas como “ambientes muito importantes para as espécies costeiras”.
Mas não só: também as zonas de fundo arenoso foram surpreendentes, com a presença de mais de cinco espécies de raias, classificadas como vulneráveis, ameaçadas ou em perigo de extinção. Além disso, a expedição permitiu a investigação do mar profundo, até aos 1000 metros, em zonas do norte da Madeira até agora inexploradas, onde se observou a presença de espécies indicadoras de Ecossistemas Marinhos Vulneráveis (ecossistemas de grande valor ecológico, muito sensíveis à ação humana), contribuindo para a recolha de dados que permitirão identificar novas áreas de interesse para a conservação.
Baleia vai ser seguida por satélite
Entre os muitos trabalhos científicos realizados ao longo das cinco semanas, que incluíram trabalhos de investigação em ecossistemas pelágicos (na coluna de água) e no mar aberto, destacou-se também a colocação pela primeira vez no Atlântico Nordeste de um dispositivo de seguimento por satélite, numa baleia-de-bico-de-Blainville (Mesoplodon densirostris). Esta ação, realizada por investigadores do MARE-Madeira/ARDITI, tem como objetivo acompanhar a rota desta espécie de pequenas baleias e conhecer melhor as suas zonas preferenciais.
Os resultados agora recolhidos vão ser publicados num relatório científico no início de 2027, seguindo-se uma nova expedição noutras AMP, no próximo ano, bem como a integração de todo o conhecimento disponível para informar processos de avaliação e gestão das AMP.
“Marco para a conservação da natureza na Madeira”
Para Paulo Oliveira, coordenador do Programa Madeira Ocean e vice-presidente do Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN), “este momento representa um marco para a conservação da natureza na Madeira”. “O conhecimento que esta expedição nos está a trazer será seguramente o garante de uma proteção do nosso meio marinho, alicerçada numa gestão mais informada, logo mais eficaz e consequente”, afirmou, citado na nota de imprensa.



A Madeira tem uma história de mais de cinco décadas de liderança nacional na conservação marinha, iniciada em 1971, com a criação da Reserva Natural das Ilhas Selvagens. Desde então, a Região tem desenvolvido um percurso de criação e consolidação de áreas destinadas à proteção dos seus ecossistemas marinhos.
Iniciado em maio de 2026, o Programa Madeira Ocean é uma iniciativa liderada pelo Governo Regional da Madeira, em parceria com a Fundação Oceano Azul, a ARDITI e a National Geographic Pristine Seas. O programa visa avaliar, reforçar e expandir a rede regional de Áreas Marinhas Protegidas, integrando ciência, participação dos diferentes intervenientes e valorização da economia azul.
Esta campanha científica contribuirá ainda para estabelecer bases para um programa integrado de conservação e valorização do mar da Madeira, apoiando o objetivo da Região de alcançar 30% de proteção efetiva do seu mar até 2030, afirmaram também os promotores.
A expedição foi promovida pelo Programa Madeira Ocean e coordenada pelo Governo Regional da Madeira, através do IFCN, em parceria com a ARDITI, a Fundação Oceano Azul, o Oceanário de Lisboa e a National Geographic Pristine Seas, contando com a colaboração de diversas entidades institucionais e parceiros científicos.