Começou a trabalhar como “pastora de lagartas” num borboletário de Lisboa. Hoje, aos 47 anos, Eva Monteiro continua dedicada aos insetos, agora com outras tarefas, mas a paixão e a vontade de ligar as pessoas ao mundo natural mantêm-se em força. Fique a conhecer a autora principal da mais recente crónica da série “Guardiões das Flores”, desta vez dedicada à ciência cidadã.
O que fazes?
Faço muita coisa! Para começar sou bióloga e entomóloga, trabalho com borboletas e outros insetos há quase 20 anos. Neste momento tenho três chapéus: integro a equipa da Universidade de Coimbra responsável pelo projeto PolinizAÇÃO – Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores. Sou também Presidente do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal e coordenadora do projeto de ciência cidadã Censos de Borboletas de Portugal.
Com qualquer um destes chapéus faço trabalho de campo e estudos de inventariação e monitorização de insetos, contribuindo para aumentar o conhecimento deste grupo tão importante para o funcionamento dos ecossistemas. Paralelamente desenvolvo inúmeras atividades de divulgação: saídas de campo, conteúdos didáticos, guias de identificação, procurando envolver diferentes atores na conservação dos insetos.
Focando-me no projeto PolinizAÇÃO, que termina agora no final de outubro e ao qual tenho estado mais dedicada nos últimos dois anos, participei na definição do primeiro Plano de Ação dedicado à conservação de um grupo de insetos – os insetos polinizadores – elaborado em Portugal. Foi especialmente recompensador poder participar na dinamização de workshops participativos e no envolvimento de diferentes setores da sociedade na elaboração do Plano.

Também fiz parte da equipa que gizou o Plano de Monitorização dos Polinizadores de Portugal, o PT-PoMS, incluindo a realização de um estudo piloto onde se testaram diferentes metodologias de monitorização no terreno. Como o projeto PolinizAÇÃO fez uma aposta na ciência cidadã como forma de envolver a sociedade civil na conservação e no aumento do conhecimento dos polinizadores, pude ainda continuar a consolidar o projeto Censos de Borboletas de Portugal.
Onde e quando começaste?
Comecei a trabalhar com insetos há quase 20 anos, em 2007, no Lagartagis – o antigo borboletário do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa. Para quem não se lembra, o Lagartagis era um jardim mediterrânico, aberto ao público, onde se podia observar espécies de borboletas nativas de Portugal em todas as fases do seu ciclo de vida e as plantas que lhes davam alimento.
Na altura costumava dizer que era pastora de lagartas, porque a maior parte do ciclo de vida de uma borboleta é passada na fase de lagarta, por isso eu e os meus colegas passávamos grande parte do nosso tempo a pensar como iriamos alimentar tanta lagarta. O Lagartagis era um pequeno jardim zoológico onde seguíamos o ciclo de vida, limpávamos “jaulas” e fazíamos atividades educativas. Também tínhamos de cuidar das plantas e do jardim para garantir que o habitat das nossas borboletas estava num “estado de conservação favorável”.
Como saberá qualquer pessoa que trabalhe com animais vivos, foi uma altura de muito trabalho, onde tínhamos de conciliar as tarefas de “tratadores” e jardineiros; investigadores, pois estudávamos os ciclos de vida e condições de criação em cativeiro; e educadores ambientais, com várias dezenas de crianças a visitarem-nos todos os dias.
Mas foi também uma época excitante, de aprender coisas novas e bonitas todos os dias. Foi nessa altura que vi pela primeira vez a maior parte das espécies de borboletas que há em Portugal, apercebendo-me que, se estivermos atentos, muitas delas podem ser vistas quase em qualquer lado. Também pude assistir, à vista desarmada, a fenómenos curiosos como a transformação – como quem muda de vestido – de uma pré-crisálida em crisálida, ou uma borboleta a esticar as asas depois de sair da crisálida.
As borboletas foram a minha porta de entrada para o mundo dos insetos. Quando se está em trabalho de campo a observar as borboletas a alimentarem-se nas flores, ou à procura de lagartas nas plantas, é impossível não ver outros insetos; daí a querer saber-se mais sobre eles é um passo. O passo seguinte é mostrar a toda a gente o quão maravilhosos e indispensáveis são.
Como aprendeste a fazer o teu trabalho?
Aprendi, fazendo! Acho que costuma ser sempre assim Mas principalmente aprendi a fazer com outras pessoas! A minha formação como bióloga foi importante para construir o meu pensamento científico e definir a área em que queria trabalhar: a conservação da natureza. Tive alguma formação em entomologia, ensinaram-me a identificar insetos até Ordem, lembro-me de achar os nomes complicadíssimos, de pensar que tornam aquilo que estávamos a ver menos acessível… Também criei joaninhas para a cadeira de luta biológica…
Mas quem mais me ensinou foram os meus colegas, orientadores e mentores. Ouvi-os a fazerem ateliers, recomendaram-me livros e contaram-me histórias, fizemos, em conjunto, tentativas e erros. Acho que foi sempre assim que continuei o meu percurso profissional, aprendi a observar os outros e a pôr as mãos na massa: quer fosse no trabalho de campo, quer no trabalho mais administrativo e de gestão associado ao funcionamento de uma associação. Claro que também a aprendi muito a observar borboletas e outros insetos, a ler sobre eles, mesmo quando não estava a trabalhar.

Quando começaste, o que pensavas que querias fazer?
Acabei o curso a saber que queria trabalhar em conservação da natureza, tinha muita vontade de agir. Embora não tivesse uma ideia clara de como fazê-lo, penso que o associativismo era já um caminho possível. Também queria já nessa altura construir pontes, fazer chegar a todos as maravilhas do mundo natural. Se todos descobrissem o seu fascínio seria mais fácil conservá-lo!
O trabalho no Tagis e, mais recentemente, no projeto PolinizAÇÃO permitiu-me conciliar todas estas vertentes – ação, conservação e comunidade. Em ambos os projetos pude trabalhar com diferentes pessoas e partes interessadas na conservação dos insetos, porque esta só é possível se todos estivermos dispostos a participar.
O que ainda te falta descobrir?
Preocupa-me a desconexão entre as pessoas e a natureza. Gostava que o meu trabalho contribuísse para alcançar uma verdadeira relação de reciprocidade entre humanos e os restantes organismos que habitam o nosso planeta. Sei que o caminho para a mudança transformativa que nos vai permitir viver dentro dos limites do planeta será coletivo, mas como fazê-lo? Certamente que não há uma única fórmula, mas penso que um dos caminhos é proporcionar uma ligação à natureza o mais ampla possível. Gostaria de investigar como projetos de ciência cidadã, como o dos Censos de Borboletas, nos podem ajudar a restabelecer essa ligação.
Além de Eva Monteiro, fique a conhecer outros investigadores envolvidos na série “Guardiões das Flores”, publicada todos os meses na Wilder: Anabela Nave, Catarina Siopa, Hugo Gaspar, Olga Ameixa, Elisabete Figueiredo, Andreia Miraldo, Sónia Ferreira, Carla Rego, Helena Ceia e Cláudia Fernandes.