PUB

Cientistas: Helena Ceia trabalha para mostrar como podemos conviver com os polinizadores

27.08.2025
leitura de 5 minutos
Helena Ceia. Foto: D.R.

Helena Ceia, 63 anos, trabalha no Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e quer aumentar o conhecimento sobre os polinizadores e promover a compatibilização de usos do solo e a conservação destas espécies. Fique a conhecer a principal autora da mais recente crónica da série “Guardiões das Flores”.

O que estás a fazer atualmente, como investigadora?

Trabalho no Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas quase desde o início da minha carreira (primeiro no SNPRCN, depois no ICN e no ICNB), sempre ligada à área de conservação da natureza. 

Helena Ceia numa formação sobre borboletas. Foto: Eva Monteiro

Como é que começaste?

Aquando da candidatura ao ensino superior, a minha primeira escolha foi Geologia mas não entrei por uma décima e acabei por ingressar no Instituto Superior de Agronomia (ISA). Ainda avaliei a hipótese de mudar mas a Silvicultura atraiu-me e acabei por enveredar pelo ramo de Gestão de Recursos Naturais. 

Fiz estágio na Câmara Municipal de Castelo de Vide, onde ganhei prática depois de toda a teoria que aprendi ao longo do curso. Depois, em 1988, passei para o SNPRCN, onde comecei a trabalhar com coelho-bravo na Reserva Natural da Serra da Malcata. Passei muito tempo a contar caganitas de coelho!☺ Posteriormente estive ligada a projetos de conservação de lince-ibérico. Fiz também trabalho de campo sobre geneta em São Mamede. Mas o leque de tarefas foi-se alargando a outros temas, sempre relacionados com a conservação da natureza. Quando se trabalha na Administração Pública dificilmente se está relacionado somente com um assunto, é preciso dar resposta a muitos diferentes temas e tarefas. A minha formação universitária deu-me uma perspetiva diversificada, o que se repercutiu no tipo de trabalho que tenho desenvolvido ao longo dos anos. Dei muitos pareceres técnicos no âmbito da conservação de espécies ameaçadas e dos seus habitats em Rede Natura, principalmente sobre florestações, o que muito me ajudou a perceber as diferenças entre a teoria e a prática. O contacto direto com os gestores do território é fundamental para definir da melhor forma a compatibilização das atividades produtivas com a conservação dos valores naturais (fauna, flora e habitats) e apresentar propostas compatíveis com a realidade que nos rodeia.

Helena Ceia. Foto: Fernando Oliveira

Quando começámos a trabalhar no Plano Setorial da Rede Natura 2000 e a dar resposta a obrigações internacionais no âmbito do relatório art. 17º da Diretiva Habitats, não havia ninguém ligado aos invertebrados. Sendo um tema que me era querido, acabei por ficar responsável por este grupo. 

Um dos projetos mais recentes em que me envolvi, de corpo e alma, foi o projeto “Elaboração da Lista Vermelha de grupos de Invertebrados Terrestres e de Água Doce de Portugal Continental” (POSEUR-03-2215-FC-000094), que teve como principal objetivo a avaliação do risco de extinção de 863 espécies pertencentes a vários grupos de invertebrados. Daqui resultou o Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental (publicado em 2023), um documento orientador indispensável para a definição de prioridades de conservação em Portugal, constituindo uma referência no apoio à tomada de decisão e ao delineamento das ações de conservação dos grupos avaliados. Foi um trabalho árduo, só possível com a colaboração de muitas pessoas e entidades. 

O meu envolvimento com o tema dos polinizadores em específico veio de um primeiro contacto com a Universidade de Coimbra e posteriormente da colaboração no projeto polinizAÇÃO, que tem como principal objetivo a elaboração do Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores e também do Programa Nacional de Monitorização dos Polinizadores em Portugal. Tenho gostado muito de trabalhar com esta equipa nestes últimos anos!

Mas o “bichinho” dos insetos já vem desde pequena, em que gostava de guardar insetos que encontrava mortos. Embora tenha quase sempre vivido na cidade, gostava de explorar o quintal e os jardins em volta (um dos meus irmãos era meu treinador, até tive um diploma de “Tarzan pequenino”!). Tinha uma paixão particularmente por coleópteros, sempre achei um grupo fascinante. Gosto muito de fazer fotografia e mais recentemente passei a dar mais atenção às plantas e aos insetos associados. Quando somos alertados para um determinado tema, passamos a olhar o que nos rodeia de outra forma.

Como aprendeste a fazer o teu trabalho?

A aprendizagem vai-se fazendo ao longo da vida (um cliché, eu sei, mas é a pura verdade). Aprendi bastante na faculdade mas a parte prática é essencial. O contacto direto com os gestores do território abre-nos a mente e alarga-nos os horizontes. E também devo muito aos meus colegas e chefes mais diretos; a discussão dos diferentes assuntos com outros colegas é essencial na nossa formação e na nossa capacidade de resposta. 

E cada vez sinto mais vontade de transmitir o meu entusiasmo pelo tema dos polinizadores, quer aos meus colegas, vigilantes da natureza e técnicos do ICNF, que estão mais diretamente relacionados com os invertebrados e em particular com os polinizadores, quer ao público em geral, sejam crianças, jovens ou adultos. Sempre gostei de fazer caminhadas e de apreciar tudo o que me envolve e cada vez dou mais importância aos pequenos (grandes) pormenores. E gosto de transmitir isso aos outros.

Helena Ceia. Foto: Fernando Oliveira

Quando começaste, o que pensavas que querias fazer?

Pode parecer muito ingénuo, mas queria contribuir para que todos pudessem ter uma vida mais saudável e mais ligada à natureza. Desde sempre pensei na área florestal do nosso país como uma área diversificada, em mosaico com outros tipos de ocupação. Preocupa-me a transformação a que assistimos ao longo das últimas décadas, em que a paisagem diversificada deu lugar a extensas áreas de monoculturas intensivas, quer de espécies florestais quer agrícolas. No âmbito do meu trabalho tenho tentado contribuir com documentos de boas práticas que permitam compatibilizar as atividades de gestão florestal com a conservação dos valores naturais.

O que ainda te falta descobrir?

Falta-me ainda tanto! Tenho 63 anos, não muito longe de me reformar. Espero nessa altura ter tempo para coisas que não consigo fazer agora, por ter tantos assuntos em mãos em simultâneo. Queria aprender mais sobre taxonomia dos principais grupos de insetos polinizadores, conseguir identificar as espécies, e espero ainda ter oportunidade de o fazer e, assim, poder contribuir um bocadinho para o conhecimento dos polinizadores de Portugal. Mas entretanto gostava de explorar mais sobre como gerir melhor áreas de produção agrícolas ou florestais tendo em vista também a conservação dos valores naturais aí existentes. Ou como os municípios podem ajudar na conservação dos polinizadores. 


Além de Helena Ceia, fique a conhecer outros investigadores envolvidos na série “Guardiões das Flores”, publicada todos os meses na Wilder: Anabela Nave, Catarina Siopa, Hugo Gaspar, Olga Ameixa, Elisabete Figueiredo, Andreia Miraldo, Sónia Ferreira e Carla Rego.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca