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Portugal aprova plano nacional para travar declínio dos polinizadores

31.03.2026
leitura de 4 minutos
Foto: Joana Bourgard

Governo define 116 medidas para proteger abelhas, borboletas e outros insetos essenciais à biodiversidade e à agricultura nos próximos 10 anos. A Estratégia, publicada a 31 de março em Diário da República, prevê ações já para os próximos dois anos.

Portugal aprovou o Polinizadores em Ação – Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores, um instrumento estratégico que pretende dar uma resposta coordenada para travar o declínio de espécies como abelhas, borboletas e outros insetos essenciais à reprodução de plantas e à produção agrícola. Estima-se que os polinizadores contribuem com cerca de 2 mil milhões de euros por ano para a agricultura nacional.

Neste momento estão descritas para Portugal 746 espécies de abelhas, 148 de borboletas diurnas, mais de 2600 de borboletas noturnas e 221 de sirfídeos (também conhecidos como moscas-das-flores), entre outros grupos de polinizadores.

Acontece que estas espécies enfrentam, à escala global, um “declínio preocupante”, segundo o texto do Despacho publicado a 31 de março. O nosso país não escapa a este cenário e “enfrenta desafios sérios na conservação de polinizadores”.

Segundo a avaliação mais recente da Agência Europeia do Ambiente, cerca de um terço das espécies de abelhas e borboletas estão em declínio populacional, e uma em cada dez encontra-se ameaçada de extinção.

Os polinizadores estão ameaçados pelas alterações no uso e na ocupação do solo, perda e fragmentação de habitats, intensificação agrícola e florestal, uso inadequado de pesticidas e fertilizantes, alterações climáticas, espécies exóticas invasoras – como a vespa-asiática (Vespa velutina) – e poluição.

“Estas pressões reduzem a disponibilidade e continuidade temporal de recursos florais, comprometem locais de nidificação e abrigo, aumentam a exposição a tóxicos e agravam a vulnerabilidade das populações a doenças e a eventos extremos.”

Para dar uma resposta, é lançado agora o Polinizadores em Ação – Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores em Portugal, documento elaborado pela equipa de coordenação do projeto PolinizAÇÃO em articulação com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), e em parceria com a Rede polli.NET. No total participaram mais de 130 especialistas.

A operacionalização do Polinizadores em Ação será coordenada pelo ICNF que irá promover a devida articulação com as entidades identificadas no plano.

Para já, o Plano, a 10 anos, tem um financiamento de um milhão de euros para 2026 e outro tanto para o ano de 2027, assegurado pelo Fundo Ambiental.

Uma estratégia nacional com quatro eixos

No total, estão previstas 30 ações e 116 medidas que envolvem entidades públicas, centros de investigação, organizações não-governamentais e o setor produtivo.

O plano estrutura-se em torno de quatro grandes áreas de intervenção: conhecimento e monitorização (oito ações e 31 medidas), com reforço da investigação científica; conservação e gestão de habitats (oito ações e 27 medidas); sensibilização e capacitação, dirigida a cidadãos e setores económicos (sete ações e 28 medidas); e governança e articulação institucional, para garantir uma implementação eficaz (sete ações e 30 medidas).

No eixo do Conhecimento estão identificadas com prioridade crítica o reforço da capacitação e do conhecimento taxonómico e o estabelecimento de um sistema de monitorização e avaliação das populações de polinizadores em Portugal.

No eixo da conservação e gestão de habitats – cujo objetivo é criar ambientes mais favoráveis aos polinizadores em todas as paisagens (naturais, agrícolas, florestais e urbanas) -, o Plano considera de prioridade crítica o restauro ecológico de habitats para polinizadores e a implementação de boas práticas de gestão no setor produtivo.

Quanto ao eixo que promove o conhecimento e envolvimento da sociedade civil, a prioridade vai para a promoção do ensino formal sobre os polinizadores, a fim de “formar gerações mais conscientes”.

O quarto eixo quer garantir que “a conservação dos polinizadores seja integrada como uma prioridade nas agendas nacionais, regionais e locais”.

Ações de curto prazo: o que vai mudar já

Uma das componentes mais relevantes do plano é a definição de medidas a implementar no muito curto prazo (até cerca de dois anos, portanto até 2027), consideradas essenciais para começar a inverter a tendência de declínio.

Entre as medidas previstas para muito curto prazo está a implementação do Programa de Monitorização de Polinizadores de Portugal (PT-PoMS), o reforço dos programas de monitorização de ciência cidadã “Censos de Borboletas de Portugal” e “Rede de Estações de Borboletas Noturnas”, o desenvolvimento de uma estratégia nacional de financiamento para a investigação sobre os polinizadores e a polinização e a integração das medidas deste Plano de Ação no Plano Nacional de Restauro da Natureza.

Além disso, até 2027 terá de ser criado um Grupo de Acompanhamento para a coordenação, monitorização e divulgação do Plano de Ação.

Esse Grupo de Acompanhamento será coordenado pelo Ministério do Ambiente e Energia, através do ICNF. Nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, este papel caberá às entidades com competências equivalentes às designadas para Portugal continental.

A monitorização do progresso estará suportada por indicadores e metas e por uma plataforma digital de acesso aberto.

O Plano de Ação terá vigência por 10 anos, estando prevista uma avaliação intercalar após cinco anos.

Quem são os polinizadores?

Em Portugal, a polinização é feita maioritariamente por insetos. Estão atualmente descritas 746 espécies de abelhas, 148 borboletas diurnas, mais de 2600 borboletas noturnas e 221 espécies de sirfídeos, também conhecidos como moscas-das-flores.

Mas além destes grupos, sabe-se que vespas, formigas, escaravelhos e outras moscas também participam no processo de polinização, embora o número exato de espécies envolvidas ainda não seja conhecido.

Mais recentemente, foi também reportada a polinização por aves, embora esta interação careça ainda de investigação aprofundada.

Nos arquipélagos dos Açores e da Madeira há 24 espécies de polinizadores exclusivas destes territórios. Além disso, registam-se interações únicas, como a polinização por répteis.


Saiba mais.

Conheça aqui os maiores polinizadores de Portugal.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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