Professora universitária e investigadora, ligada à Universidade do Porto e ao CIBIO/InBIO, Cláudia Fernandes alia os conhecimentos de diferentes áreas, desde a arquitetura paisagista às ciências do ambiente, para transformar o espaço urbano num local mais acolhedor para a biodiversidade. Mas também para as pessoas.
Fique a conhecer a autora da mais recente crónica da série “Guardiões das Flores”, uma parceria entre a Wilder e o projeto PolizAÇÃO.
O que fazes?
Faço muitas coisas, e às vezes parece que tenho várias vidas em simultâneo! Sou professora na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), na área de Arquitetura Paisagista, e acredito que ensinar é muito mais do que transmitir conteúdos. Para mim, a missão de um professor universitário é despertar curiosidade e inspirar. Num tempo em que a informação está a um clique de distância, acredito que o grande desafio do professor universitário é orientar: ajudar os estudantes a saber onde procurar, como filtrar e, sobretudo, como pensar de forma crítica sobre o que descobrem.


Além de preparar aulas, lecionar e orientar estudantes, sou investigadora no CIBIO/InBIO, onde lidero o grupo de investigação em Planeamento, Desenho e Gestão da Paisagem. Aqui, cruzo ciência e prática, e tenho a sorte de coordenar e colaborar em projetos muito diferentes entre si, que vão desde a investigação sobre novos ecossistemas urbanos até ao desenvolvimento de soluções de base natural para melhorar a vida nas cidades.
Mas há uma área que me fascina de forma especial: a gestão e manutenção de espaços verdes urbanos, em particular parques e jardins. É aí que os polinizadores entram no meu dia a dia profissional. Vejo um enorme potencial para transformar as cidades em lugares mais sustentáveis, criando habitats para a biodiversidade e refúgios para polinizadores, sem esquecer a dimensão estética e a importância de proporcionar experiências de qualidade, e porque não também aprendizagens, às pessoas que frequentam estes espaços, nomeadamente sobre a diversidade e importância dos polinizadores.

Que idade tens? E onde e quando começaste?
Tenho 52 anos. Comecei a minha carreira como docente e investigadora em 1997, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), onde exerci durante 10 anos. Nessa fase estava ligada ao Herbário e ao Jardim Botânico onde colaborava em vários projetos ligados à flora e vegetação de todo o país, mas em particular do Norte e da região do Douro, onde estão as minhas raízes. Pertenço a uma família de lavradores e nos primeiros anos da minha vida vivi em Riobom, uma pequena aldeia onde éramos livres para explorar os riachos, as vinhas, os pomares e os matos. Este contacto direto com a natureza, com o cultivo e com os ciclos da terra ditaram todo o meu percurso académico: primeiro em Engenharia Agrícola, depois num mestrado em Gestão de Recursos Naturais e num doutoramento em Ciências do Ambiente.
Mas depois deste ciclo de formações ainda não me sentia completa. Talvez por ter crescido na paisagem verdadeiramente avassaladora do Douro, fui compelida a procurar uma profissão que contemplasse a dimensão estética e onde a minha atividade pudesse contribuir para lugares mais belos e retemperadores. Por isso, já depois do doutoramento concluído, regressei em 2009 à universidade para me formar também em Arquitetura Paisagista pela Universidade do Porto, onde fiquei depois a lecionar e onde permaneço desde 2010.


Como aprendeste a fazer o teu trabalho?
Aprendi de muitas formas, em muitos lugares diferentes e ainda não parei de aprender. A primeira grande escola foi a minha própria família, no Douro. Cresci a observar a forma como cuidavam da terra, plantavam árvores e cultivavam hortas, pomares e jardins sempre com o maior zelo. Na década de 90 do século passado, ainda pouco se falava em biodiversidade funcional, e já o meu pai em vez de aplicar herbicidas, revestia os taludes das vinhas com vegetação nativa: pilriteiro, medronheiro, roseiras-bravas, trovisco, lentisco, rosmaninho e tantas outras espécies criavam abrigo para coelhos, lebres, perdizes e também para insetos auxiliares. Hoje percebo como essa vivência foi marcante e como essas práticas fazem tanto sentido nas estratégias de gestão sustentável que defendemos atualmente.
Mais tarde na UTAD, a formação académica diversificada deu-me bases sólidas sobre o funcionamento das plantas, o seu cultivo e sobre a sua importância para a nossa vida e bem-estar. Nesta área tive mestres gigantes como o Professor Torres de Castro e o Professor José Alves Ribeiro, mas tive a sorte de ter professores excelentes em várias outras disciplinas. Além disso, os anos no Herbário e no Jardim Botânico, na altura liderado pelo António Crespí, foram verdadeiras escolas hands-on, onde tive contacto com coleções, inventários e expedições de campo que me revelaram a diversidade incrível da flora portuguesa. Mas foi ao estudar Arquitetura Paisagista que ganhei novas ferramentas para olhar a paisagem não só como um ecossistema, mas também como uma experiência humana. Também aqui tive o privilégio de ter uma formação muito prática e aprender com professores inspiradores, como o Paulo Farinha-Marques, capazes de transmitir uma enorme paixão e entusiasmo pela profissão.
Já no CIBIO/InBIO, trabalhar em equipa com investigadores de áreas muito distintas ensinou-me a integrar saberes e a transformar conhecimento em soluções práticas. E continuo a aprender todos os dias, com os estudantes, com os colegas e com os próprios lugares que estudo, que têm sempre algo a ensinar a quem sabe observar, escutar e sentir.

Quando começaste, o que pensavas que querias fazer?
Nunca tive um plano, mas sempre abracei as oportunidades que a vida me foi apresentando. O meu percurso não foi linear: passei por diferentes áreas disciplinares, sempre em busca de um lugar onde me sentisse verdadeiramente realizada. Apenas sabia que não queria um trabalho que me prendesse a uma secretária. E, felizmente, encontrei uma profissão onde os dias raramente se repetem. Ora estou em reuniões, ora no campo, a lecionar numa sala, num jardim ou em visitas de estudo; ora mergulhada em investigação, ora a conhecer outras realidades e a criar redes internacionais em conferências. É um trabalho intenso, por vezes extenuante, mas profundamente recompensador.
No início, imaginava-me sobretudo ligada ao estudo da vegetação e à conservação da natureza. A investigação de campo fascinava-me, e talvez por isso o Herbário e o Jardim Botânico da UTAD tenham sido a minha “casa” durante tantos anos. Com o tempo, percebi que queria ir além da observação e da análise científica. Sentia a necessidade de intervir diretamente na forma como os espaços são planeados, desenhados e cuidados. A Arquitetura Paisagista abriu-me essa porta e permitiu-me unir o rigor científico com a criatividade do desenho e a dimensão social de pensar espaços para as pessoas. Hoje, é esse equilíbrio entre ciência, estética e função que dá sentido ao meu trabalho.
O que ainda te falta descobrir?
Acho sempre que me falta descobrir tudo! E talvez seja isso que mais me motiva. Tenho uma curiosidade insaciável e sou facilmente seduzida pela novidade e por novas aprendizagens. Acredito que é fundamental sair da zona de conforto e desafiar-nos a percorrer novos caminhos. Por isso, procuro sempre que possível trabalhar com colegas de outras áreas disciplinares pelo enorme valor que isso acrescenta ao meu percurso, como tem acontecido em projetos ligados aos polinizadores.
Neste campo tenho tido a sorte de aprender com especialistas de diferentes áreas e, ao mesmo tempo, contribuir com a perspetiva da Arquitetura Paisagista para uma temática tão relevante. Foi imensamente gratificante receber o prémio de melhor artigo na 6ª edição da Conferência Euro-Mediterrânea para Integração Ambiental, em resultado do trabalho desenvolvido no Parque Oriental da cidade do Porto, e que foi pioneiro no estudo da relação entre as práticas de manutenção dos parques e jardins e a promoção de polinizadores.
Gostaria, por isso, de continuar a explorar formas de gerir e desenhar espaços verdes urbanos que conciliem as necessidades humanas com as da biodiversidade, especialmente neste contexto de crise climática. Em particular gostaria muito de poder continuar a disseminar a importância dos Planos de Gestão e Manutenção de Parques e Jardins e ajudar a conquistar mais “bandeiras verdes”, uma certificação internacional designada Green Flag Award, que atesta a qualidade destes processos, e cuja introdução em Portugal liderei, em 2019.

E, claro, num mundo em constante mudança surgem sempre novos desafios que exigem novas abordagens. A curiosidade nunca se esgota: cada projeto abre portas para perguntas que ainda não tinha colocado e às quais, certamente, procurarei responder.
Além de Cláudia Fernandes, fique a conhecer outros investigadores envolvidos na série “Guardiões das Flores”, publicada todos os meses na Wilder: Anabela Nave, Catarina Siopa, Hugo Gaspar, Olga Ameixa, Elisabete Figueiredo, Andreia Miraldo, Sónia Ferreira, Carla Rego e Helena Ceia.