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Portugal precisa de pessoas a tempo inteiro para monitorizar polinizadores, diz João Loureiro

02.04.2026
leitura de 4 minutos
Borboleta cauda-de-andorinha (Papilio machaon). Foto: Charles J. Sharp/WikiCommons

Abelhas, moscas-das-flores, borboletas diurnas e noturnas, num total de mais de 2000 espécies, vão passar a ser monitorizadas de forma consistente em Portugal. A equipa que desenhou o novo Plano de Ação para a Conservação dos Polinizadores defende que este trabalho deixe de ser voluntário.

Países como o Reino Unido, Alemanha e Países Baixos monitorizam os seus polinizadores há várias décadas. Por isso, conseguem saber se estes estão em declínio ou não.

Em Portugal, este trabalho começou a ser feito há cerca de cinco anos mas de forma voluntária e apenas para algumas espécies. Consequentemente, não sabemos o que se está a passar com os nossos polinizadores. Estarão em declínio, como o que acontece no resto da Europa?

“Temos muito poucos dados para responder a essa pergunta”, disse à Wilder João Loureiro, do FLOWer Lab – Laboratório de Ecologia e Evolução das Plantas e de Serviços de Polinização da Universidade de Coimbra.

João Loureiro, Sílvia Castro e a equipa do PolinizAÇÃO tiveram cerca de dois anos para ajudar a desenhar o novo Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores, publicado a 31 de março em Diário da República.

“Contrariamente a outros países da Europa, não temos a linha de base para saber se a tendência (dos polinizadores) é positiva, neutra ou negativa. Mas sabemos uma coisa: os dados preliminares – todos com base em Ciência Cidadã dos Censos de Borboletas de Portugal – mostram que algumas espécies mais carismáticas registam uma tendência de declínio. Para os outros grupos não temos dados”, acrescentou.

Ainda assim, lembrou o entomólogo, as ameaças descritas em outros países europeus, como o uso de agro-químicos e as alterações climáticas, também existem em Portugal. “Por isso, é expectável que cá também haja uma tendência de declínio.”

O desconhecimento sobre os polinizadores do nosso país é um entrave à sua conservação. Ora isso é algo que está prestes a mudar, isto porque o novo Plano de Ação vai pôr no terreno um Programa de Monitorização de Polinizadores para Portugal.

Seguindo a metodologia adoptada a nível europeu, Portugal vai monitorizar abelhas, moscas-das-flores, borboletas diurnas e noturnas. Estes são os quatro grupos-alvo do programa de monitorização nacional e à escala europeia.

João Loureiro explicou que entomólogos experientes irão fazer transectos fixos e padronizados de um quilómetro em cerca de 70 pontos à escala nacional, oito meses por ano. “A ideia é ver que polinizadores é que se encontram nesses pontos e com que planta é que estão a interagir.”

Serão também usados varrimentos com rede, armadilhagem noturna (para as borboletas noturnas) e análise de fotografias com recurso a inteligência artificial.

Uma tarefa que exige pessoas a tempo inteiro

A equipa de João Loureiro sugere a criação de uma equipa ou departamento específico dentro do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), incluindo a contratação e formação de novos recursos humanos, para se dedicar a fazer a monitorização dos polinizadores. “Ir a cada um dos 70 pontos no país, uma vez por mês durante oito meses é hiper-exigente e extremamente desafiante. Isto é um trabalho a tempo inteiro”, defendeu.

Além disso, conseguir identificar abelhas e moscas-das-flores até à espécie “é uma coisa extremamente desafiante”; já para as borboletas o trabalho de identificação é mais tangível.

João Loureiro acredita que se deve aproveitar o trabalho que já está a ser feito, nomeadamente pelo projeto de Ciência Cidadã “Censos de Borboletas de Portugal”, coordenado pelo Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal e a decorrer desde 2019 e pela Rede de Estações de Borboletas Noturnas, criada em 2021 por um grupo ativo de observadores de borboletas noturnas e que hoje conta com cerca de 70 pontos de amostragem activos no país.

“Estas iniciativas já conseguiram dados robustos e seria uma pena se o programa de monitorização não previsse um apoio explícito para que essas iniciativas de Ciência Cidadã continuassem a existir.”

Ao contrário do programa europeu, que não integra dados de Ciência Cidadã nos relatórios oficiais, o plano português prevê a sua inclusão como módulos opcionais, uma decisão que os especialistas consideram estratégica.

Ainda assim, João Loureiro sublinha que o voluntariado não pode substituir a estrutura necessária para tratar e analisar toda a informação recolhida. “Achamos que é fundamental que a equipa de coordenação não seja voluntária e tenha financiamento próprio para conseguir tratar a quantidade de dados”, afirmou.

Para já, as perspectivas para os polinizadores são boas, até porque há financiamento alocado directamente a ações prioritárias, como a capacitação a nível nacional de jovens entomólogos para que haja cada vez mais pessoas capazes de identificar os polinizadores.

Implementar o programa de monitorização “implica um conhecimento e uma identificação das espécies de polinizadores a um nível taxonómico muito fino para as quais, com toda a sinceridade, não temos muitas pessoas qualificadas em Portugal”, salientou João Loureiro. “Por isso, achamos fundamental o financiamento do programa de monitorização e a capacitação das pessoas que deverão estar responsáveis por esse programa.”

Monitorizar estes quatro grupos de polinizadores vai ser “uma tarefa bastante exigente e sem alocação de recursos humanos exclusivamente dedicados vai ser difícil de a colocar em prática”.

Um plano com financiamento e expectativas

Para João Loureiro, o facto de o plano ter sido aprovado juntamente com financiamento concreto distingue-o de muitas outras estratégias ambientais.

“O Ministério do Ambiente e da Energia não aprovou só o plano. Aprovou o plano e, no mesmo Despacho, comprometeu o Fundo Ambiental com verbas. Nem sempre isso acontece”, destacou.

Esse compromisso poderá fazer a diferença entre um documento que fica na gaveta e um instrumento com impacto real no terreno. “Pode ser um ponto de viragem”, admitiu.

“O Plano de Ação foi aprovado com o pacote financeiro associado para avançar com ações prioritárias.”

De acordo com João Loureiro, os polinizadores podem ser usados como uma “bandeira para aquilo que de positivo se pode fazer no nosso território em prol da biodiversidade”.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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