Investigadora e professora na Universidade de Coimbra, aos 46 anos Sílvia Castro tem-se dedicado à botânica desde sempre, um caminho que a conduziu “inevitavelmente” aos polinizadores. Fique a conhecer esta cientista de 46 anos, um dos autores principais da crónica final da série Guardiões das Flores, dedicada a um futuro com asas para voar.
O que fazes?
Sou bióloga e estudo os seres vivos, em particular as plantas e os seus polinizadores. O meu trabalho divide-se entre a investigação científica e o ensino. Sou investigadora no Centro de Ecologia Funcional, onde co-lidero, com o João Loureiro, o grupo FLOWer Lab — um laboratório dedicado a compreender como as plantas evoluem e se relacionam com o ambiente que as rodeia.
Dedico-me sobretudo ao estudo da reprodução das plantas que dependem de polinizadores, com o objetivo de compreender a incrível diversidade de formas que existem à nossa volta e de contribuir para desenvolver programas de conservação da biodiversidade. Para além disso, sou professora no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, onde leciono em vários cursos de Licenciatura e Mestrado na área da Biologia e da Ecologia.
Recentemente contribuí para a criação da Rede Polli.NET, da qual sou coordenadora, que tem como objetivo promover um trabalho colaborativo entre todas as partes interessadas para promover a conservação e sustentabilidade dos polinizadores, e que culmina com a execução do projeto PolinizAÇÃO – Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores.

Que idade tens? E onde e quando começaste?
Esta é uma pergunta estranhamente difícil para mim, porque nasci há 46 anos, mas não me sinto com essa idade. Diria que me sinto, pelo menos, uma década mais nova! Também é difícil dizer exatamente quando tudo começa, porque a paixão pela natureza acompanha-me desde que me lembro.

Nas fotografias de infância, apareço quase sempre com um ramo de flores na mão ou um saco de fruta. Curiosamente, esses dois elementos resumem bem o que faço hoje: as flores estão diretamente ligadas à minha especialização atual e a fruta é resultados do trabalho dos polinizadores, atores principais na minha investigação.
Oficialmente, tudo começou em 1997, quando entrei na Licenciatura em Biologia, na Universidade de Aveiro. Na altura, não sabia muito bem o que queria fazer (para grande preocupação dos meus pais!), apenas sabia que queria trabalhar com plantas. Durante a licenciatura, participei em vários projetos de investigação e, depois de conhecer o Dr. Paiva, o Paulo Silveira e o Luis Navarro, investigadores e professores universitários, comecei uma viagem que me levou por terras hispânicas, numa espécie de “triangulo das bermudas” científico. Aveiro tornou-se a minha segunda casa; em Vigo, na Galiza, abria horizontes sobre o mundo das flores; e na belíssima La Garrotxa, na Catalunha, experimentava e testemunhava a natureza a acontecer.
Depois de um período no estrangeiro, em Praga, na República Checa, tive a oportunidade de regressar a Portugal em 2010, à Universidade de Coimbra, onde juntamente com o João Loureiro criámos o FLOWer Lab e demos início aos nossos primeiros projetos de investigação.

Como aprendeste a fazer o teu trabalho?
Aprendo todos os dias com três ingredientes essenciais. O primeiro é aprender com pessoas inspiradoras, desde os meus orientadores (formais e não formais), ao meu companheiro de vida e a todos com quem trabalho no dia-a-dia. Todos contribuem, de uma forma ou de outra, para o nosso crescimento, com novas descobertas, discussões e apoio incondicional. O segundo ingrediente é ler, e ler muito. Na vida académica, a leitura é uma ferramenta essencial e indispensável. É através dela que conhecemos os alicerces do que sabemos hoje e acompanhamos as novas descobertas que surgem a cada dia. E, por último, e talvez mais importante, observar. Parar, observar, questionar e experimentar são passos fundamentais no processo de aprendizagem e de descoberta. A curiosidade e a observação atenta são as melhores ferramentas de qualquer cientista.


Quando começaste, o que pensavas que querias fazer?
Não sabia. Verdadeiramente não sabia. Por isso, decidi experimentar e explorar diversos temas até encontrar o meu caminho. Sabia apenas que queria trabalhar com plantas. As primeiras oportunidades surgiram na área da etnobotânica, estudando as plantas com utilidade para as pessoas. Depois passei para a biotecnologia vegetal, onde trabalhei com espécies de interesse económico, como o sobreiro, e cheguei até a criar “sementes artificiais”. Apesar da relevância destes estudos, sentia que ainda não tinha encontrado a missão que queria assumir.
Mais tarde, descobri a taxonomia botânica, uma área que me continua a fascinar e que, de certa forma, permanece ligada ao que faço hoje. Foi então que comecei a trabalhar com plantas ameaçadas e plantas invasoras, e aqui surgiu um ponto em comum: as flores. Percebi que compreender como as plantas se reproduzem era essencial para apoiar a conservação. Ao aprofundar o estudo da reprodução das plantas, encontrei aquilo que verdadeiramente me apaixona: entender como funcionam as flores e como surge a incrível diversidade de formas florais que observamos na natureza.

Inevitavelmente, esse caminho levou-me até aos polinizadores, que, na nossa região, são sobretudo insetos. Como seres essenciais à manutenção das populações de plantas e, por consequência, de todos os ecossistemas terrestres, os polinizadores são também motores da diversidade das plantas. E é por isso que sinto uma responsabilidade especial em contribuir para a sua proteção e conservação, algo a que tenho dedicado grande parte do meu trabalho nos últimos anos.
O que ainda te falta descobrir?
Tanta coisa!
Ainda há muito por descobrir sobre a diversidade dos seres vivos, da sua biologia e ecologia. Quem são, afinal, os polinizadores das nossas plantas, tanto das espécies ameaçadas, que lutam pela sobrevivência, como das culturas agrícolas de que dependemos todos os dias.
Sabemos ainda pouco também sobre o funcionamento dos ecossistemas e, consequentemente, os serviços dos ecossistemas que prestam ao ser humano. De que forma os polinizadores influenciam as dinâmicas das populações das plantas e como estas relações estão a mudar com as alterações globais, desde as alterações no uso do solo às alterações climáticas.
E falta-nos também perceber como agir de forma eficiente e concertada para proteger e promover estes organismos. Como implementar um plano de ação que equilibre a conservação da biodiversidade e o uso humano? Como envolver ativamente mais pessoas neste esforço, desde os agricultores aos decisores do território, passando por cada cidadão que planta flores num jardim ou numa varanda e tem um papel ativo nas exigências que faz para o nosso país?
Estas são apenas as algumas das perguntas…
Além de Sílvia Castro, fique a conhecer outros investigadores envolvidos na série “Guardiões das Flores”, publicada todos os meses na Wilder: Anabela Nave, Catarina Siopa, Hugo Gaspar, Olga Ameixa, Elisabete Figueiredo, Andreia Miraldo, Sónia Ferreira, Carla Rego, Helena Ceia, Cláudia Fernandes e Eva Monteiro.