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Comporta/Galé: Monocultura de tangerinas ameaça aquíferos e plantas protegidas

14.08.2026
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Foto: Sergio Chozas/Flora-On

A “luz verde” dada à nova reformulação do projeto de monocultura de regadio nas Herdades da Murta e Monte Novo, na zona da Comporta, coloca em risco os recursos hídricos locais e plantas únicas que aqui ocorrem, alertam a Zero e a Sociedade Portuguesa de Botânica.

Depois de três rejeições anteriores e iguais reformulações, o projeto de agricultura intensiva do grupo Aquaterra nas Herdades da Murta e Monte Novo, na zona da Comporta, concelho de Alcácer do Sal, recebeu “luz verde” a 3 de agosto, com a emissão de uma Declaração de Impacte Ambientsal favorável condicionada. A decisão da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDRA), no entanto, é fortemente criticada pela Zero e pela Sociedade Portuguesa de Botânica, que alertam para vários impactos fortemente negativos.

A primeira versão do projeto do grupo Aquaterra, que está associado a um fundo de investimentos norte-americano, previa uma plantação de agricultura intensiva de abacates que iria ocupar 722 hectares – uma área gigante, equivalente a três quartos do parque florestal lisboeta de Monsanto. Foi chumbada pela CCDRA em janeiro de 2024.

Mais de dois anos depois, a quarta versão, agora aprovada, abandonou os abacates e substituiu-os por uma cultura intensiva de tangerinas. Diminuiu também a área abarcada por esta monocultura de regadio, para 295 hectares, e reduziu o número de furos de captação de água (12) e o consumo anual previsto (1,74 milhões de metros cúbicos).

No entanto, acusou esta semana a Zero, num comunicado que classifica a decisão da CCDRA de “erro grosseiro”, trata-se de “um projeto contrário ao interesse público, em termos de gestão responsável dos recursos hídricos e de preservação e restauro da biodiversidade”.

Desde logo, afirma, porque a monocultura ficará situada na Zona Especial de Conservação (ZEC) da Comporta/Galé, em plena Rede Natura 2000, uma rede ecológica europeia de áreas protegidas destinada a salvaguardar habitats e espécies ameaçados.

Além disso, situa-se sobre um aquífero “em estado crítico”. A associação ambientalista alerta desde logo para o parecer desfavorável que foi dado pelo Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia (LNEG) também a esta nova versão do projeto, que indica que “os recursos hídricos disponíveis não chegam para o consumo” e que existem já “evidências bastante alarmantes de sobreexploração da água subterrânea”.

Impacte negativo, permanente e direto

Por outro lado, a Zero critica chama também a atenção para incoerências entre o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e o plano de gestão desta área da Rede Natura 2000. Publicado em março passado, o documento aponta como prioridade o aumento da área de habitat predominante nesta ZEC, constituído por dunas cobertas de vegetação esclerófila, ou seja, adaptada a climas quentes e secos.

Em causa estão plantas endémicas de Portugal continental como a arméria-do-sado (Armeria rouyana), o marcetão-das-areias (Santolina impressa) e uma espécie de tomilho, Thymus capitellatus, todas elas com uma presença grande na zona da Comporta. Segundo o parecer emitido pelo ICNF, as populações locais destas espécies vão sofrer um impacte ” “negativo, permanente, direto, certo (…) de magnitude elevada e de elevada significância”, cita a associação. A Zero discorda de que a manutenção do estado de conservação favorável dessas espécies esteja assegurado por medidas sugeridas pelo promotor do projeto, ao contrário do que concluiu o instituto.

“Uma perda certa e permanente de indivíduos é, por definição, incompatível com uma meta de manutenção do seu número. A posição do ICNF é de que a manutenção do estado de conservação favorável “está assegurada”, no entanto não faz referência à clara contradição com o Plano de Gestão da ZEC Comporta/Galé”, sublinha.

Plantas sensíveis e dependentes de água pura

Estas e outras espécies que vão ser afetadas por mais este projeto de cultura intensiva, no concelho de Alcácer do Sal e na área de influência do rio Sado, têm sido estudadas por Sergio Chozas, que é investigador na Universidade de Lisboa e faz parte da direção da SPBotânica.

Além da pressão acrescida sobre a água disponível nos aquíferos e o impacto sobre espécies dunares que são únicas, o responsável da SPBotânica alerta que a multiplicação de projetos como este ameaçam também as zonas húmidas de turfeiras e de brejos na região, tal como a flora que delas depende.

“Estamos a falar de plantas que são muito sensíveis e que necessitam de água pura para sobreviver”, afirmou Sergio Chozas à Wilder, explicando que “as culturas de regadio, além de afetarem os recursos hídricos subterrâneos, contaminam também as águas à superfície com os poluentes produzidos pela atividade agrícola”.

Em causa ficam as populações locais de várias plantas atualmente ameaçadas de extinção, que são destacadas no plano de gestão desta ZEC. É o caso da alcaravia-dos-charcos (Caropsis verticillato-inundata), da tanchagem-dos-charcos (Litorella uniflora) e da Myosotis retusifolia, esta última endémica e rara, existindo apenas no litoral sudoeste português.

Não é a primeira vez que a SPBotânica chama a atenção para o impacto das culturas intensivas na zona da Comporta. Já em 2020, na apresentação dos resultados da Lista Vermelha da Flora Vascular, o então presidente, Miguel Porto, alertou para os perigos que assombravam esta área do concelho de Alenquer do Sal.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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