Abelhão-do-campo (Bombus pascuorum). Foto: João Loureiro

Guardiões das Flores: Por um futuro com asas para voar 

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Há um som discreto que embala os nossos bosques, campos e jardins, mas que raramente ouvimos com atenção: o zumbido dos polinizadores. Pequenos seres alados que, de flor em flor, asseguram algo muito maior do que a sua própria sobrevivência… garantem o funcionamento dos ecossistemas terrestres, a produção das culturas agrícolas e o alimento que chega às nossas mesas. 

Durante 11 meses, através das crónicas da Wilder, descobrimos um pouco mais sobre o fascinante mundo dos polinizadores, os desafios que enfrentam, e o quão importante é conservá-los. É, agora, a hora de passar à AÇÃO!

Uma alcachofra-brava (Cynara humilis) a ser polinizada, frequente em pousios e pastagens da Serra do Sicó, observada nas amostragens de monitorização de polinizadores. Foto: Sílvia Castro

À descoberta dos polinizadores… 

Com a série “Guardiões das Flores”, da Wilder, é possível descobrir quem são os polinizadores, quantas espécies existem em Portugal, e perceber que ainda há muitas por descrever! O leitor é convidado a maravilhar-se com a enorme diversidade das abelhas selvagens, das moscas-das-flores e das borboletas e a conhecer outros polinizadores improváveis como formigas, vespas, aves ou até répteis. 

A série explora os benefícios ecológicos e a importância dos polinizadores para a agricultura, mas também o seu valor cultural e o impacto positivo na saúde humana e na sociedade. Deixa entrever o valor do seu trabalho, quantificável para as culturas agrícolas, mas incalculável para o património natural. Dá também a conhecer as coleções científicas de polinizadores que permitem identificá-los e estudá-los. E revela como novas técnicas moleculares e o estudo do ADN têm permitido alcançar importantes avanços científicos para compreender melhor estes organismos. 

Abelha selvagem do género Andrena coberta de pólen de cerejeira a polinizar as flores desta cultura agrícola na região do Fundão. Foto: Catarina Siopa

O declínio silencioso

Mas o mundo está em transformação profunda pela ação do ser humano… Nos últimos anos, inúmeros estudos científicos confirmaram aquilo que os agricultores e naturalistas há muito pressentiam: os insetos polinizadores estão em declínio, tanto em número de espécies como em abundância. 

As causas são múltiplas e estão profundamente interligadas: desde a perda e fragmentação de habitats devido, em grande medida, à expansão de grandes áreas de monoculturas florestais e agrícolas – ao uso indevido de pesticidas, às alterações climáticas e ao aparecimento de novas pragas e doenças. É um declínio silencioso, quase impercetível, que se propaga lentamente pelos prados, campos e bosques, estação após estação. Aos poucos, perdemos biodiversidade e, com ela, a produtividade e o equilíbrio dos ecossistemas.

Exemplo de extensão e práticas de gestão de pomares em Portugal. Foto: Sílvia Castro

O despertar de uma consciência global

Quando, em 1992, é assinada a Convenção sobre a Diversidade Biológica, o mundo dá um passo histórico: reconhece que o futuro da humanidade depende da preservação da vida em todas as suas formas. Ainda assim, só mais tarde, em 2016, os polinizadores ganham verdadeiro protagonismo, quando a IPBES – Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas reúne o conhecimento científico sobre polinizadores e alerta para o impacto económico e ecológico da sua perda (consultar aqui). Este documento marca o momento em que os polinizadores entram explicitamente nas agendas políticas internacionais.

Em 2018, a Comissão Europeia lança a Iniciativa Europeia para os Polinizadores, reforçada em 2023 com o Novo Pacto para os Polinizadores, definindo três grandes prioridades: aprofundar o conhecimento sobre o declínio destas espécies e respetivas causas e consequências; mitigar as pressões que estão na origem desse declínio; e sensibilizar e mobilizar a sociedade, promovendo a colaboração entre todas as partes interessadas.

Mais recentemente, o Regulamento do Restauro da Natureza, aprovado em 2024, deu um passo decisivo ao incluir os polinizadores entre os grupos-alvo das ações de restauro. Para garantir resultados concretos, colocou em marcha o Esquema Europeu de Monitorização de Polinizadores, que permitirá recolher dados fiáveis sobre a evolução das populações em todo o continente, com a primeira avaliação das tendências das suas populações a ser produzida em 2030. A proteção dos polinizadores tornou-se, assim, uma obrigação legal e um imperativo ético para todos os Estados-Membros da UE.

Workshop participativo com os Grupos Nuclear e Consultivo do Projeto PolinizAÇÃO para construção do Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores em Portugal. Foto: Equipa TERRA

Importância de um plano de ação para os polinizadores

Um plano de ação é mais do que um documento que elenca um conjunto de ações e medidas a implementar num determinado território. É um compromisso coletivo para alcançar um objetivo comum. Mediante metas concretas, permite definir responsabilidades entre os múltiplos intervenientes do território e mobilizar de forma eficiente a sociedade e os recursos necessários, garantindo que as medidas tomadas são coerentes, eficazes e duradouras.

O Novo Pacto para os Polinizadores da UE reforça a importância de desenvolver planos de ação nacionais. Em resposta, vários Estados-Membros têm trabalhado em estratégias adequadas aos seus contextos territoriais. Países como a Irlanda lideram este esforço, com planos implementados desde 2015. Mais recentemente, França e Espanha seguiram-lhe os passos. Em Portugal, até recentemente, faltava uma estratégia estruturada, mas isso está prestes a mudar!

Abelhão (abelha selvagem do género Bombus) a polinizar as flores de rosmaninho (Lavandula pedunculata), observado durante os levantamentos de polinizadores selvagens na região da Beira Baixa. Foto: Sílvia Castro

Portugal em ação pelos polinizadores

Do continente às ilhas, Portugal é um território de extraordinária riqueza em polinizadores selvagens e plantas que deles dependem. Esta diversidade torna o país um verdadeiro refúgio natural, com um papel essencial na conservação da biodiversidade a nível europeu e global.

A consciência da sua importância tem crescido entre os múltiplos intervenientes do território. Em resultado, multiplicam-se iniciativas focadas nos polinizadores promovidas quer por ONGs e instituições académicas, quer pelas autarquias, organizações locais e cidadãos. Têm surgido também programas de monitorização com base em ciência cidadã, que permitem recolher dados preciosos e aproximar a sociedade do conhecimento científico.

Este impulso está também refletido nas políticas públicas, da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030 à Resolução da Assembleia da República n.º 336/2021, que recomenda ao Governo a implementação de medidas para a preservação e conservação dos polinizadores e dos seus habitats em território nacional, culminando no novo Regulamento Europeu do Restauro da Natureza (2024/1991).  

Atividade de divulgação sobre a importância dos polinizadores, organizada pelo Município de Torres Novas. Foto: João Loureiro

A resposta: um plano para proteger os polinizadores

É neste contexto que Portugal decidiu agir, dando origem ao projeto PolinizAÇÃO, financiado pelo Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e Energia, e coordenado pelo Centre For Functional Ecology. O projeto abraçou a missão de desenvolver o Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores de Portugal. 

A visão do Plano de Ação é clara: um território nacional onde os polinizadores e os seus serviços dos ecossistemas são preservados e promovidos em todo o território, garantindo a sustentabilidade ecológica, económica e social para as gerações atuais e futuras. O Plano de Ação propõe 30 ações, detalhadas em 116 medidas, identificadas num processo colaborativo e aberto à participação da comunidade. Estrutura-se em três grandes eixos, nomeadamente: conhecimento e conservação, sustentabilidade das práticas e educação e sensibilização. Estes três eixos estão alicerçados num eixo transversal de governança e políticas públicas. Encontra-se agora em fase de consulta pública, até 21 de novembro.

Em paralelo, o PolinizAÇÃO deu outro passo decisivo ao propor um Programa de  Monitorização de Polinizadores, entregue ao ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P. Este programa define as metodologias necessárias para se avaliar o estado das populações de insetos polinizadores e o sucesso das medidas de restauro implementadas, em conformidade com as orientações da UE, garantindo uma base científica sólida para proteger os polinizadores.

O projeto constitui também uma iniciativa estruturante na mobilização da sociedade para a conservação e sustentabilidade dos polinizadores, alcançando resultados expressivos na sensibilização, educação e participação públicas. Mediante múltiplas ações, conseguiu aproximar investigadores, decisores e cidadãos em torno de um objetivo comum, formar especialistas, envolver comunidades, e criar recursos duradouros para o ensino, a investigação e a sensibilização ambiental. Um dos resultados mais marcantes deste trabalho é o Guia de Polinizadores de Portugal, uma obra pioneira e inédita no país lançada a 18 de outubro de 2025, o culminar de um esforço verdadeiramente coletivo.

O PolinizAÇÃO contribuiu, assim, de forma decisiva, para colocar os polinizadores na agenda pública em Portugal.

Abelhão-do-campo (Bombus pascuorum) a polinizar as flores de soagem (Echium plantagineum) nos jardins do Município de Coimbra. Foto: João Loureiro

O papel de cada um de nós

Um Plano de Ação pode orientar o caminho, mas cabe a cada um de nós dar-lhe vida – a mudança só acontece se aceitarmos desempenhar um papel ativo. 

Cada cidadão pode contribuir com ações simples: plantar espécies amigas dos polinizadores em varandas, jardins ou hortas, evitar o uso de pesticidas, privilegiar produtos locais e de agricultura sustentável, exigir cidades e vilas mais sustentáveis e com espaços verdes biodiversos, e apoiar projetos de ciência cidadã que monitorizem e promovam os polinizadores. São gestos simples que, multiplicados, transformam o nosso território em paisagens mais ricas e resilientes.

O zumbido pode ser discreto, mas o impacto é ensurdecedor. Está nas nossas mãos transformar este Plano em AÇÃO.


Sílvia Castro e João Loureiro são investigadores no CFE – Centro de Ecologia Funcional e professores na Universidade de Coimbra. Ambos lideram o FLOWer Lab – Laboratório de Ecologia e Evolução das Plantas e de Serviços de Polinização, no âmbito do CFE, e também o projeto PolinizAÇÃO – Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores. Nesta crónica colaboraram ainda, como autores, Eva Monteiro, Andreia Miraldo, Carolina Caetano, Cândida Ramos e Helena Ceia.


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