PUB

Cientistas: João Loureiro quer descobrir como passamos do conhecimento científico à ação

29.10.2025
leitura de 4 minutos
João Loureiro. Foto: DR

Antes da universidade, esteve indeciso entre biologia, jornalismo e psicologia, mas acabou por optar pela primeira e não se arrepende. O caminho que seguiu levou-o ao ensino e à investigação na Universidade de Coimbra, na área da botânica e da polinização, mas está sempre atento a outras áreas e saberes, como a comunicação de ciência. Fique a conhecer este cientista de 46 anos, um dos autores principais da crónica final da série Guardiões das Flores, dedicada a um futuro com asas para voar.

O que fazes?

Desde 2009 que sou professor associado no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra e investigador no Centre for Functional Ecology. Um ano depois de ter tido a sorte de ser contratado como professor, criei com a Sílvia Castro o FLOWer Lab – Laboratório de Ecologia e Evolução das Plantas e de Serviços de Polinização.

Desde então, temos trabalhado em estudos sobre biologia reprodutiva e interações planta-polinizador, tanto em plantas silvestres (desde espécies poliploides, com múltiplas cópias do genoma, até espécies de distribuição muito restrita) como em culturas agrícolas, como o girassol, kiwi, maçã, pera, cereja e amêndoa, entre outras.

Em trabalho de campo, a estudar a planta exótica invasora Oxalis pes-caprae. Foto: DR

Embora a minha formação de base seja em Biologia, mais concretamente em Botânica, as voltas da vida fizeram com que me aproximasse da entomologia, apesar de estar longe de ser um entomólogo (nem tenho essa ambição). Tivemos a sorte de estar na origem da polli.NET – Rede Colaborativa para a Avaliação, Conservação e Valorização dos Polinizadores e da Polinização – e, mais tarde, de cocoordenar com a Sílvia Castro o projeto PolinizAÇÃO – Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores.

Nos últimos oito anos, tenho-me interessado cada vez mais pela comunicação de ciência e pela ciência cidadã, duas áreas que considero fundamentais para aproximar a investigação das pessoas e do território.

Numa ação de comunicação de ciência, em gravações para o programa Biosfera. Foto: DR

Que idade tens? E onde e quando começaste?

Tenho 46 anos, sou natural da Figueira da Foz e fiz toda a minha formação superior na Universidade de Aveiro, onde me licenciei e doutorei em Biologia. O doutoramento foi na área da citogenética vegetal, aplicada a estudos de ecologia e evolução das plantas. Foi durante o pós-doutoramento, que realizei em Praga, na República Checa, em 2008, que eu e a Sílvia começámos a procurar áreas de investigação que cruzassem os interesses de cada um. Nessa altura, o FLOWer Lab — ainda sem o nome atual — começou a ser imaginado nas nossas cabeças. Quando nos estabelecemos em Coimbra, o laboratório começou a ganhar vida, primeiro com as primeiras alunas e depois com os primeiros projetos de investigação.

Como aprendeste a fazer o teu trabalho?

Acho que foi o resultado de muitos anos de experiência, a aprender com todos os orientadores que tive, com as pessoas que fui conhecendo nos vários projetos e, claro, com todos os estudantes que tive a sorte de acompanhar desde que sou professor. Mais do que um especialista em algo, vejo-me como alguém com interesses muito variados dentro da Biologia, e por isso em aprendizagem contínua.

Em trabalho de equipa, em Vila Nova de Foz Coa. Foto: DR

Quando começaste, o que pensavas que querias fazer?

A verdade é que já não me lembro exatamente porque escolhi Biologia (e, dentro da Biologia, como fui parar à Botânica). Estive indeciso entre Biologia, Psicologia e Jornalismo, e acabei por optar pela Biologia. Desde cedo percebi que tinha uma preferência pela investigação, mas também um grande gosto pelo ensino. Sonhava poder ser professor universitário e combinar as duas vertentes.

Quando tive a sorte de começar a exercer esta profissão na Universidade de Coimbra, percebi que ensinar e investigar traz muito mais do que a aplicação do método científico. Implica também lidar e gerir pessoas, aplicar (de forma muitas vezes empírica!) alguma psicologia das relações humanas, e desenvolver a capacidade de comunicar ciência, tentando sempre fazê-lo o melhor possível. Ou seja, não há dias iguais.

João Loureiro, entre caminhadas de registo de plantas. Foto: DR

O que ainda te falta descobrir?

Nesta fase da minha carreira, já não sou uma pessoa com grandes ambições científicas no sentido tradicional. Gostava muito que as sementes que temos vindo a lançar nos últimos tempos, sobretudo com o Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores — no qual propomos 30 ações e mais de 110 medidas em prol dos polinizadores — passassem realmente à prática. Gostava de ver Portugal mobilizar-se por esta causa, que é, no fundo, a causa da biodiversidade, e ver as mais diversas instituições a agir. Ou seja, gostava de descobrir como é que passamos do conhecimento científico para a ação.

Com Sílvia Castro, num momento de “slow science”, em prospeção no Parque Natural do Alvão. Foto: SC

Em termos mais pessoais, gostava de descobrir como fazer “slow science”, voltar com a Sílvia Castro ao trabalho de campo, ao nosso ritmo, a estudar a biologia reprodutiva das plantas que queremos, sem nunca esquecer as interações maravilhosas que elas mantêm com os seus polinizadores.


Além de João Loureiro, fique a conhecer outros investigadores envolvidos na série “Guardiões das Flores”, publicada todos os meses na Wilder: Anabela Nave, Catarina Siopa, Hugo Gaspar, Olga Ameixa, Elisabete Figueiredo, Andreia Miraldo, Sónia Ferreira, Carla Rego, Helena Ceia, Cláudia Fernandes, Eva Monteiro e Sílvia Castro.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

Não perca