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As estratégias das plantas: viver na estação mais fria

11.12.2025
leitura de 5 minutos
Foto: Helena Geraldes/Wilder

O inverno parece ser um período calmo na vida das plantas. Árvores despidas, campos adormecidos e o frio, mesmo que suave, abranda tudo. Mas a aparente calma esconde uma enorme diversidade de estratégias que permitem às plantas atravessar, com sucesso, a estação menos luminosa do ano.

O inverno é tempo de resistência, preparação e, para algumas plantas, até de oportunidade.

Dormência: o sono estratégico

Grande parte das plantas nativas enfrenta o inverno abranda­ndo quase por completo o crescimento. Entram em dormência, um estado que permite poupar energia, reduzir a perda de água e proteger os tecidos mais vulneráveis ao frio.

Carvalho-negral. Foto: Luis Fernández García/WikiCommons

O freixo (Fraxinus angustifolia), o salgueiro-preto (Salix atrocinerea), a aveleira (Corylus avellana), a zelha (Acer monspessulanum) e alguns carvalhos, como o carvalho-alvarinho (Quercus robur) e o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), perdem as folhas e parecem adormecer. Mas a vida permanece ativa nos ramos e nos gomos, pronta para despertar quando os dias começarem a crescer e a luz voltar a aquecer na primavera. 

Muitos arbustos, como o sanguinho-das-sebes (Rhamnus alaternus), a murta (Myrtus communis) ou o folhado (Viburnum tinus) seguem uma estratégia semelhante: abrandam o crescimento e conservam energia até que as condições se tornem mais favoráveis. Para estas espécies, o inverno é um período estratégico, em que cada momento de descanso prepara o próximo período de crescimento.

O verde que não se rende

Se algumas plantas se despem de folhas e abrandam o crescimento, outras escolhem permanecer verdes e ativas. Em Portugal, o inverno é mais suave do que em latitudes mais a norte da Europa, permitindo que certas espécies mantenham as folhas funcionais, ainda que com fotossíntese reduzida. Esta persistência não é teimosia, é uma aposta bem calculada.

O azevinho (Ilex aquifolium), com as suas folhas espessas e espinhosas, o loureiro (Laurus nobilis), de folhas rígidas e aromáticas, o sobreiro (Quercus suber) e o carrasco (Quercus coccifera), com folhas pequenas e resistentes, são exemplos de espécies que permanecem ativas nos meses mais frios.

Azevinho. Foto: jacinta lluch valero/Wiki Commons

Manter-se verde nesta altura do ano é uma vantagem num período em que muitas outras plantas suspendem a fotossíntese. 

As flores que acordam no inverno

Mesmo nos meses mais frios, há plantas que não esperam pela primavera para florir. Ao florescer no inverno, aproveitam a menor concorrência e a atenção dos insetos que ainda se mantêm ativos, transformando a aparente calma da estação num momento mais favorável para a reprodução.

Por estes dias, num passeio pela natureza, é fácil encontrar as flores brancas e delicadas do medronheiro (Arbutus unedo), muitas vezes lado a lado com frutos maduros do ano anterior. Entre as torgas (Calluna vulgaris), despontam as flores rosadas da urze-lusitana (Erica lusitanica), e junto ao solo as flores violeta do açafrão-bravo (Crocus serotinus) e os pequenos capuz-de-frade (Arisarum simorrhinum). Nas zonas costeiras, a flor-de-mel (Lobularia maritima subsp. maritima) acrescenta cor às dunas e falésias.

À medida que a estação avança, aparecem discretamente a violeta-brava (Viola riviniana), a pervinca (Vinca difformis), a cila (Scilla monophyllos), a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a bonina (Bellis perennis), ocupando pequenos espaços de luz e solo onde a competição é menor.  Estas espécies mostram que o inverno não é um período de inatividade. Cada flor aberta é uma oportunidade estratégica: captar luz, atrair os polinizadores resistentes e preparar o ciclo anual para a primavera.

Violeta-brava. Foto: Jörg Hempel/WikiCommons

Frutos que alimentam o inverno

Para algumas plantas, o inverno é também tempo de frutificar. Ao amadurecerem frutos nesta época, aproveitam a escassez de alimento para atrair aves e pequenos mamíferos que acabam por dispersar as sementes.

O azevinho (Ilex aquifolium), o medronheiro (Arbutus unedo), o pilriteiro (Crataegus monogyna), o folhado (Viburnum tinus), a murta (Myrtus communis) e o zambujeiro (Olea europaea subsp. europaea var. sylvestris) apresentam frutos atrativos e nutritivos durante os meses frios, verdadeiros pontos de cor na paisagem.

Tordos, melros, estorninhos ou pequenos mamíferos, alimentam-se deles e, sem o saberem, contribuem para a dispersão das sementes. Cada fruto maduro representa uma oportunidade valiosa para assegurar a sobrevivência e a continuidade da espécie.

Escudos contra o frio e o vento

No inverno, o frio e o vento representam desafios constantes. Muitas espécies desenvolveram adaptações que funcionam como verdadeiros escudos: folhas espessas ou rígidas, espinhos, cutículas resistentes e formas compactas que reduzem a perda de água e protegem os tecidos mais sensíveis.

O carrasco (Quercus coccifera) e o azevinho (Ilex aquifolium) exibem folhas espessas e espinhosas, enquanto a gilbardeira (Ruscus aculeatus) mantém cladódios rígidos durante os meses frios. Já o pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e o pinheiro-bravo (Pinus pinaster), com agulhas estreitas, rígidas e ricas em resina, reduzem a perda de água e protegem os tecidos internos.

Gilbardeira. Foto: Dominicus Johannes Bergsma/Wiki Commons

Estas adaptações permitem às plantas resistir às baixas temperaturas, manter funções vitais básicas e atravessar o inverno mesmo quando as condições são adversas.

Reservas escondidas no solo

Para muitas plantas, a melhor forma de enfrentar o inverno é garantir que a energia está guardada no subsolo.

Bolbos, rizomas e raízes funcionam como reservatórios estratégicos, onde se acumula energia para retomar o crescimento quando a luz e o calor regressam.

Espécies como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium), a cila (Scilla monophyllos), as peónias (Paeonia broteri) e os muscaris (Muscari neglectum) permanecem escondidas até ao fim da estação fria, aguardando o momento certo para emergir.

Quando o inverno dá tréguas, estas pequenas plantas despontam rapidamente. Assim, mesmo quando o ambiente é adverso, têm “combustível” suficiente para reiniciar o ciclo de vida.

Os especialistas do inverno

Para os musgos, o inverno não é um obstáculo, é antes a melhor época do ano. Com a chegada da chuva, da humidade constante e da redução da luz intensa do verão, estas plantas simples, e sem estruturas lenhosas, encontram as condições ideais para prosperar.

Foto: Helena Geraldes/Wilder

É nesta altura do ano que o musgo-trançado-comum (Hypnum cupressiforme), o musgo-capuz-vulgar (Orthotrichum tenellum), o musgo-sedoso-penado (Homalothecium sericeum), o musgo-parafuso-de-pêlo (Syntrichia laevipila) e o musgo-rabo-de-gato (Leucodon sciuroides) se tornam particularmente exuberantes, cobrindo troncos, muros, taludes e rochas com tons vivos que parecem contrariar a estação.

Ao contrário de muitas plantas vasculares, que reduzem funções ou protegem tecidos, os musgos crescem, fotossintetizam e expandem-se. No clima mediterrânico, o inverno é o seu verdadeiro pico de atividade.

No fim, o inverno mostra que a natureza nunca está verdadeiramente parada. Cada estratégia – seja dormir, persistir, florir, frutificar ou despertar – garante que a vida continua, mesmo nos dias mais curtos e frios.

Quando a primavera voltar, muito do que vemos nascer só acontece porque, antes disso, as plantas souberam usar o inverno a seu favor. 


Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no email [email protected]. E pode segui-la também no Instagram.

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