Seria de esperar que insetos frágeis como estes se resguardassem das temperaturas baixas e da chuva, mas de facto muitas espécies voam em Portugal nos meses mais frios, nota João Nunes, da Rede de Estações de Borboletas Nocturnas.
Temperaturas muito baixas ou mesmo negativas, muita chuva, granizo, rajadas de vento e quedas de neve em vários locais do país. Quando o inverno se cumpre a rigor as condições tornam-se desagradáveis para muitos humanos, quanto mais para insetos pequenos e delicados como as borboletas noturnas, mas muitas resistem. “Em Portugal temos várias dezenas de espécies com atividade no inverno, talvez perto das 200”, indica João Nunes, coordenador da Rede de Estações de Borboletas Noturnas (REBN). De facto, acrescenta, uma pequena parte desse número é exclusiva desta estação.
Tanto assim é que na REBN, um projeto de ciência cidadã dedicado ao estudo e conservação das borboletas noturnas que realiza sessões de observação e registo um pouco por todo o país, muitas estações continuam a funcionar para identificar as espécies que voam por estes dias. “Este mês já recebemos dados do Norte ao Algarve”, afirma João Nunes.

As borboletas noturnas, também conhecidas como traças ou mariposas, fazem parte da ordem dos lepidópteros. Em Portugal totalizam mais de 2700 espécies – muitas mais do que as borboletas diurnas, que se ficam por cerca de 130 espécies. Em comum, as noturnas têm várias características que as distinguem do outro grupo, desde logo o formato bastante mais variado das antenas, que ao contrário do que acontece nas diurnas são desprovidas de uma bolinha no final. Costumam ter também cores mais pardacentas e a posição das asas, quando em repouso, é quase sempre mais horizontal. Mas apesar do nome, há várias espécies deste grupo que voam de dia, como por exemplo a borboleta-esfinge-colibri (Macroglossum stellatarum).
Mas qual será a razão para a atividade destas borboletas numa altura de chuva e vento, que parece não ter qualquer sentido? Trata-se, na verdade, de uma estratégia de sobrevivência. “Muitas destas espécies terão ‘optado’ por voar nesta estação como estratégia para reduzirem o risco de predação”, nota o coordenador da REBN, que dá exemplos de várias borboletas noturnas que podemos observar nesta época em Portugal.
Entre os predadores de borboletas que estão agora mais calmos contam-se os morcegos, que nas noites mais quentes se alimentam diariamente de milhares de insetos, mas no inverno ficam mais inativos – incluindo espécies que entram em hibernação devido ao frio.

Reproduzir-se ou não, eis a principal questão
Em contrapartida, as quantidades disponíveis de néctar e pólen diminuem de forma acentuada, uma vez que a maioria das plantas não está agora em flor. Possivelmente para não perderem tempo valioso em busca de comida, várias borboletas noturnas passam toda a vida adulta sem se alimentarem – nem sequer dispõem de uma espirotromba bem desenvolvida ou de outro órgão bucal que lhes sirva para matarem a fome. Única prioridade? Reproduzirem-se e assegurarem a passagem dos seus genes a uma nova geração.

É este o caso da espécie Poecilocampa populi, conhecida em inglês como traça-de dezembro (‘December moth’, no original), que ocorre tanto no Reino Unido como em Portugal. Além de dispensar alimentos, o corpo volumoso e peludo que ajuda-a a enfrentar o frio, como nota um artigo da Butterfly Conservation, uma organização não governamental (ONG) britânica que se dedica ao estudo e conservação das borboletas.
Já a borboleta Operophtera brumata, presente também nos dois países e batizada em inglês com o sugestivo nome “traça-de-inverno” (‘Winter moth’ no original), adota uma tática bastante diferente para sobreviver. “Ao contrário de outras traças que precisam de aquecer os seus corpos acima dos 30 graus Celsius para voar, a traça-de-inverno parece conseguir usar como uma vantagem o seu peso invulgarmente baixo quando comparado com o tamanho das suas asas, voando mesmo quando a temperatura corporal está próxima da temperatura exterior”, explica também a Butterfly Conservation.

Os estudos científicos sobre a Operophtera brumata sugerem que umas asas maiores e um corpo mais leve lhe permitem manter-se no ar agitando as asas mais lentamente do que outras borboletas noturnas, pelo que os músculos não necessitam de aquecer tanto para desempenharem a sua função. Aliás, estas borboletas “conseguem voar mesmo quando as temperaturas estão próximas do zero”, detalha a ONG britânica.
Sem asas
Mas na verdade, só os machos tiram proveito dessa vantagem, uma vez que nesta espécie “as fêmeas ‘abstiveram-se’ de voar”, lembra João Nunes. O facto de as fêmeas serem ápteras (não terem asas ) é aliás uma “adaptação comum” entre as borboletas noturnas que enfrentam o tempo mais frio, incluindo outras espécies presentes em Portugal como a Erannis defoliaria. Para atraírem os parceiros até si, as fêmeas que não conseguem voar emitem feromonas, uma espécie de farol olfactivo que assinala onde estão aos machos da espécie, para que a reprodução aconteça.

Apesar das vantagens de voarem no inverno, é possível que a estratégia deixe de compensar devido às alterações climáticas, nota por sua vez a Butterfly Conservation. Isto porque os morcegos, por exemplo, estão já a sentir os efeitos de temperaturas mais altas e imprevisíveis nos seus ciclos de hibernação.
Saiba mais.
Conheça o projeto “Dar nome à traça”, parceria entre a REBN e a Wilder que resultou no batismo de 285 espécies de borboletas noturnas com nomes comuns sugeridos por cidadãos, aqui.