Jorge Rosete, professor do ensino secundário, foi o responsável pela descoberta de uma espécie de micro-borboleta que ainda não era conhecida para a Ciência. Este lepidopterólogo amador encontrou a Monochroa monellii na berma de uma estrada no concelho de Pombal.
Há 13 anos que Jorge Rosete ajuda, de forma regular, a investigação e inventariação das borboletas portuguesas. Este lepidopterólogo amador concilia este interesse pela ecologia e conservação dos invertebrados com a sua carreira de professor do ensino secundário.
A 29 de Julho de 2020, Jorge Rosete fez uma sessão de monitorização de borboletas noturnas com armadilhagem luminosa noturna junto à Lagoa de São José, na localidade de Carriço, concelho de Pombal. Mais propriamente na margem de um estradão florestal que atravessa a Mata Nacional do Urso. Esta área foi severamente afetada pelo incêndio que consumiu o Pinhal de Leiria em 15 de outubro de 2017. Ainda assim restaram alguns hectares densamente florestados que continuam a albergar um conjunto interessante de fauna e flora.
Esta sessão fazia parte do “esforço de inventariação das espécies de Lepidoptera presentes em Portugal continental, visando especificamente as espécies de hábitos noturnos”, explicou à Wilder. Há uma “necessidade de obter dados em zonas até aqui pouco exploradas e amostradas como é o caso de inúmeras áreas do litoral”.

Entre as micro-borboletas que foram atraídas pela luz instalada por Jorge Rosete estavam algumas que este não conseguiu identificar à partida. Outras sessões noturnas no mesmo local a 13 de Agosto e a 3 de Setembro de 2020 produziram mais espécimes.
Após cinco anos de trabalho, a combinação de análise morfológica – nomeadamente a análise da genitália de machos e de fêmeas de alguns dos espécimes coletados – com técnicas de determinação genética baseada em códigos de barras de ADN validou definitivamente o carácter biológico único desta espécie, demarcando-a de outras similares.
A descrição foi publicada a 20 de novembro na revista científica Nota Lepidopterologica, num artigo assinado por Jorge Rosete, Sónia Ferreira (investigadora do CIBIO, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos) e por Martin Corley, entomólogo britânico e uma das pessoas que mais contribuíram para o conhecimento das borboletas noturnas em Portugal.
Segundo José Manuel Grosso-Silva – o curador das coleções entomológicas do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, onde está guardado o holotipo desta espécie -, esta “é uma descoberta de grande importância para o conhecimento da fauna portuguesa. E ainda acontecem essas descobertas todos os anos, estamos numa fase muito dinâmica, mesmo que não aconteça todos os dias, claro”.
“Os exemplares que servem de base para a descrição das espécies (exemplares-tipo) são dos mais importantes nas coleções biológicas, por serem o critério de aplicação dos nomes científicos, mas a importância das coleções pode medir-se em várias dimensões: investigação, divulgação, formação em taxonomia e apoio a trabalho e ecologia, por exemplo”, acrescentou.
A pequena Monochroa monellii é, nas palavras de Jorge Rosete – que detetou, recolheu e preparou os exemplares que estiveram na base da descrição da nova espécie – , “uma microborboleta de coloração escura e pouco vistosa e de hábitos discretos”. Esta borboleta acastanhada tem uma envergadura de asa entre os oito e os dez milímetros.
“Por ser uma espécie de hábitos noturnos durante o dia, tenderá a abrigar-se de forma dissimulada sob a vegetação rasteira e quando perturbada valer-se-á do seu tamanho para se voltar a ocultar”, escrevem os responsáveis pela descrição da espécie.

Estes acreditam que o morrião-das-areias (Anagallis monelli), uma primulácea, é a planta hospedeira desta micro-borboleta. As suas larvas minam as folhas ou consomem os estames desta pequena planta de flores azuis que coloniza as zonas arenosas do litoral.
O nome desta nova espécie surge por referência à sua planta hospedeira.
“Embora não tenham sido detetados nas folhas desta planta sinais de larvas, em diversos exemplares recolhidos foi possível observar a presença de pequenos túneis de seda adjacentes à zona do caule, junto à raiz. Verificou-se que esses pequenos túneis albergavam pupas cujos ocupantes revelaram ser exemplares da nova espécie de borboleta”, segundo os autores do estudo.
Segundo Jorge Rosete, “a pupação ocorre no subsolo arenoso, num pequeno túnel de seda adjacente à zona que medeia o caule e a raiz daquela planta. Atendendo à janela temporal de ocorrência (entre meados de julho e início de setembro) terá provavelmente uma única geração anual”.
Agora, o género Monochroa – que tem 60 espécies descritas no mundo, metade das quais ocorrem na Europa – passa a ter sete espécies registadas em Portugal Continental. O holotipo está guardado no Museu de História Natural da Faculdade de Ciências do Porto.
Haverá mais borboletas em outros locais?
Apesar de esta borboleta passar despercebida, os autores consideram ser impressionante o facto de apenas ter sido detectada numa única localização, especialmente porque parece ser abundante e ser atraída facilmente à luz. Uma explicação possível é que o habitat da berma das estradas não é o mais monitorizado para borboletas noturnas.
Os autores defendem que esta espécie, com estatuto de não ameaçada, poderá ter uma distribuição bem maior, até porque a a sua planta hospedeira está espalhada pelo sudoeste da Europa.

“A amostragem efetuada permite aferir que a espécie é, até agora, localmente regular e frequente, ainda que se encontre cada vez mais ameaçada pelo recente modelo de gestão aplicado às faixas que confinam com zonas florestadas”, comentou Jorge Rosete. “Só é conhecida de um único local, as imediações da lagoa de S. José, situada na localidade de Carriço, concelho de Pombal, distrito de Leiria. Atendendo à distribuição da planta hospedeira é expectável que ocorra em outros locais do litoral.”
“Sabe-se, no entanto, que é crescente a pressão que tem vindo a ser exercida sobre o litoral, nomeadamente aquela que decorre de projetos urbanísticos, pelo que no futuro importa cartografar com maior precisão qual é, afinal, a sua distribuição no território e em que estado se encontram as suas populações”, alertam os autores.
Estes acrescentam a isto “um outro fenómeno mais recente e preocupante”. “Após uma série de grandes incêndios que, ao longo dos últimos anos, foram predando a floresta nacional produziu-se legislação que em muito tem apostado no forte controlo de potenciais fontes de ignição. Falamos em particular do Decreto-Lei n.º82/2021 de 13 de outubro e do correlato Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR). Em consonância com estes referenciais, uma das medidas mais impactantes e facilmente detetável por quem por estes dias percorre muitos locais florestados é o tratamento dado às chamadas “faixas de gestão de combustível”. Num afã de reduzir ao máximo a massa arbustiva adjacente aos núcleos florestados por se considerar que ela constitui, por si só, uma fonte facilmente propagadora do fogo, são atualmente conduzidas verdadeiras operações de raspagem do solo que ameaçam a integridade destes microhabitats. Fica assim comprometida a capacidade de regeneração do coberto herbáceo e arbustivo e, por arrasto, a viabilidade das espécies de fauna que aí se alojam como é o caso da Monochroa monellii.”
Os autores esperam que esta descoberta possa “promover uma reflexão crítica acerca do modo como, neste momento, estão a ser encaradas as áreas ditas ‘incultas’ tantas vezes confinantes com outras de maior estatuto em virtude do seu valor económico”.
Para Jorge Rosete, “a solução está porventura no investimento em formação a ministrar aos agentes de limpeza dos espaços florestais”.
“Não podemos ter uma limpeza ‘cega’. É razoável uma limpeza que suprima as espécies infestantes ou aglomerados arbustivos que tenham um potencial de combustão relevante. Já não é razoável uma limpeza que indiscriminadamente varre toda a vegetação, inclusive o coberto herbáceo, fragilizando o solo e a biodiversidade que aí habita. É, portanto, necessário que os agentes de limpeza ao descer ao terreno disponham de critérios claros e cientificamente informados acerca do que podem e do que não podem eliminar, de modo a reduzir ao máximo o impacto nocivo dos desbastes. Neste quadro, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) teria um papel fundamental enquanto entidade formadora, reguladora e supervisora.”
Haverá mais por descobrir
A espécie agora descoberta mostra, segundo os autores, que “o conhecimento da biodiversidade portuguesa permanece por esgotar e que mesmo em habitats com forte intervenção humana é possível descobrir espécies nunca antes documentadas e resultados faunísticos cientificamente relevantes”.
Jorge Rosete sublinhou a necessidade de reforçar a monitorização da biodiversidade nativa, em particular de insetos.

Ainda assim, este entomólogo disse à Wilder que nos encontramos “num bom momento no que diz respeito à ampliação do conhecimento em torno deste grupo faunístico”.
“Até ao início desde século tivemos trabalhos esparsos levados a cabo por um número muito diminuto de investigadores nacionais ou resultantes de breves incursões de investigadores estrangeiros no nosso território. Com a chegada do investigador inglês Martin Corley e em particular a partir de 1994 temos finalmente um esforço sistemático, consistente e agregador no sentido de reavaliar e organizar o conhecimento existente”, acrescentou.
Jorge Rosete lembrou que “são revisitadas as coleções de referência” e que se “inicia uma já longa série de artigos anuais (aguarda-se a publicação do décimo nono) que vão dando a conhecer a distribuição de espécies já conhecidas e a adição de novas espécies para a fauna nacional e ibérica”.
“Este processo tem como marco incontornável a publicação, em 2014, da obra Lepidoptera of Continental Portugal: A fully revised list, uma lista atualizada dos lepidópteros portugueses continentais.”
“Em 2021 surge a Rede de Estações de Borboletas Noturnas, um projeto de Ciência Cidadã que, graças a uma comunidade muito empenhada, tem permitido um salto extraordinário no volume de dados recolhidos e tratados.”
Na sua opinião, “a imagem que temos hoje das borboletas noturnas nacionais é bem mais nítida e completa”. A Monochroa monellii é, assim, mais uma peça do puzzle da diversidade biológica.
Neste momento, a micro-borboleta Monochroa monellii aguarda a entrada nas coleções entomológicas do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto. Ali estão guardados, pelo menos, 30.000 exemplares informatizados de borboletas noturnas, numa altura em que está a decorrer a reorganização e informatização das coleções. “O exemplar vai dar entrada daqui a uns dias”, disse José Manuel Grosso-Silva que explicou o processo. “O autor, antes da publicação, manifestou o interesse em depositar o exemplar. Eu atribui provisoriamente um número de catálogo para ser referido na publicação. Assim que o autor consegue, traz o exemplar para o Museu. Isto pode acontecer antes ou depois do trabalho ser publicado. Neste caso vai ser pouco tempo depois. Nessa altura, o número de catálogo passa a definitivo e, à entrada, o exemplar recebe uma etiqueta com esse número de catálogo”, explicou José Manuel Grosso-Silva.
Tanto nas coleções dos museus como no campo, ainda há muito trabalho a fazer. Jorge Rosete lembrou que “continuamos a ter zonas sub-amostradas, consideradas ‘desertos de informação’, e que podem reservar boas surpresas.”