PUB

Borboletas noturnas e Jorge Rosete: “a motivação de base é a busca de ‘puro prazer'”

10.12.2025
leitura de 6 minutos
Jorge Rosete debruçado sobre o lençol numa sessão de armadilhagem luminosa integrada no 3.º Encontro Nacional da REBN (Serra da Estrela, 13 e 14 de setembro de 2025). Ao lado, de pé e da esquerda para a direita, José Fabião e Helder Cardoso (REBN). Foto: Câmara Municipal de Gouveia

Professor de filosofia no ensino secundário e interessado pelos insetos desde os oito anos, Jorge Rosete, 49 anos, tem-se tornado um valioso aliado no conhecimento das borboletas noturnas portuguesas. Em novembro, uma revista científica publicou a descrição de uma nova espécie, encontrada por este entomólogo autodidata, natural do concelho de Cantanhede, Coimbra. A Wilder falou com este “cidadão contribuidor” que está numa corrida contra o tempo.

WILDER: Quando começou a interessar-se pela natureza e pelos insetos?

Jorge Rosete: O meu interesse pela Natureza e pelos insetos remonta à infância, por volta dos oito anos. Cresci num ambiente rural, em Corticeiro de Cima, uma localidade do concelho de Cantanhede, numa época em que a rua e o campo eram os grandes espaços de liberdade e de aprendizagem. Daí que as minhas memórias mais vívidas me transportem às longas tardes em que percorria as áreas florestais que rodeavam a minha casa. Fosse um escaravelho, uma borboleta ou uma libélula tudo era fascinante e não raras vezes transportado para dentro de casa para desespero dos meus pais que temiam que o meu quarto se transformasse num pequeno museu de história natural.

Ainda conservo, completamente desconjuntado, aquele que para mim foi na altura um pequeno tesouro, um pequeno guia de campo, publicado pelo Círculo de Leitores e intitulado “Borboletas”, cuja edição data de 1984. Este livro, embora se reportasse sobretudo às espécies da Europa Central, continha também muitas fichas relativas a espécies que ocorriam em Portugal continental, o que me permitiu começar a reconhecer a diversidade de espécies com que me ia cruzando no terreno.

O meu interesse não se restringia às espécies diurnas. Recordo-me igualmente das manobras arriscadas e, confesso, bastante insensatas que fazia ao subir aos postes de iluminação pública de modo a capturar os espécimes que, tendo escapado ao apetite dos morcegos, aí ficavam a repousar. Como é óbvio, estes não eram comportamentos juvenis muito convencionais e, portanto, fui crescendo entre a condescendência e alguma incompreensão. 

Jorge Rosete com Martin Corley (Ansião, 08 de julho de 2023). Foto: Afonso Rosete

W: Quem o inspirou?

Jorge Rosete: Diria que as figuras inspiradoras chegaram mais tarde, depois de ter concluído a minha formação académica e iniciado a minha carreira profissional. Foi então que pude, finalmente, ter o desafogo suficiente para me dedicar, de forma séria, ao estudo dos lepidópteros.

De entre elas a mais decisiva é o investigador inglês Martin Corley a quem devo o desenvolvimento de um verdadeiro espírito de investigação. Sob a sua orientação colmatei ao longo dos anos muitas das minhas lacunas e incorporei conhecimentos e técnicas sem os quais não teria podido contribuir para o conhecimento da nossa fauna. Pelo seu percurso e exemplo, o Martin é hoje uma figura que suscita respeito e gratidão por parte de toda a comunidade que promove o conhecimento das borboletas portuguesas.

W: O que o motivou a transformar este seu interesse pessoal em algo mais activo e útil para a sociedade?

Jorge Rosete: Como Fredrik Sjoberg confessa na magistral “A arte de colecionar moscas” a motivação de base é a busca de “puro prazer”. É extramente difícil explicar a um não iniciado o deleite que é encontrar uma espécie pouco frequente ou uma raridade que já não é avistada há décadas, por vezes há mais de um século. É em cima desse fascínio que se vai construindo tudo o resto.

Penetrar no mundo dos insetos, como de resto acontece a quem o fizer com qualquer outro grupo faunístico, implica adquirir rapidamente a consciência da vulnerabilidade em que se encontram os ecossistemas atuais, fruto do impacto das mais diversas atividades humanas. Daí à necessidade de sensibilizar e de procurar defender a biodiversidade em geral, e as borboletas em particular, é um pequeno passo. Acredito que a cada nova fração de conhecimento que é adicionada acerca de uma dada espécie acumulamos razões para não nos furtarmos à responsabilidade de preservar o nosso património natural. Património esse que está em desagregação acelerada. Quem hoje está atento ao modo como se têm processado as modificações da paisagem nacional, muitas vezes em nome de interesses económicos questionáveis, tem a consciência aguda de que estamos numa corrida contra o tempo.

Sessão sobre coleções entomológicas integrada no 1.º Encontro Nacional da REBN (Reserva natural Local do Paul da Tornada, Caldas da Rainha, 16 e 17 de setembro de 2023). Foto: REBN

W: Foi difícil começar? Tinha alguém conhecido que o ajudou?

Jorge Rosete: Senti as dificuldades típicas de quem não tem a Biologia e, em particular, a Entomologia como formação de base. Por isso tive de empenhar-me para, de forma autodidata, ultrapassar os obstáculos que foram surgindo. A comunidade de entusiastas das borboletas portuguesas é, apesar de tudo, ainda pequena, pelo que as interações dentro dela vão sendo frequentes e permitem uma frutuosa troca de conhecimento científico e técnico.

Capital, como já referi, tem sido o apoio inexcedível de Martin Corley. Sem o suporte deste especialista não teríamos a massa crítica que hoje temos, nem o volume de conhecimento que tem sido gerado. Relevo também a persistente colaboração da investigadora Sónia Ferreira, associada ao CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos). Numa altura em que o trabalho em taxonomia não prescinde de um enquadramento genético baseado em códigos de barras de ADN, o seu contributo tem sido fundamental para sustentar as descobertas que têm vindo a ser feitas.

W: Neste momento, em que projetos está envolvido?

Jorge Rosete: Sou membro da Associação Rede de Estações de Borboletas Noturnas onde colaboro nos esforços de monitorização, mapeamento, divulgação e sensibilização para este grupo mais discreto de borboletas. 

W: Que conselhos pode dar a quem se interessa por insetos e quer fazer mais pelo seu conhecimento e conservação?

Jorge Rosete: Obviamente filiar-se em projetos ou organizações que zelem por esses objetivos como é o caso do TAGIS (Centro de Conservação das Borboletas de Portugal) e da REBN (Rede de Estações de Borboletas Noturnas).

W: Na sua opinião, qual poderá ser o papel dos Cientistas Cidadãos?

Jorge Rosete: Persiste uma certa hostilidade acerca da chamada “Ciência Cidadã” na medida em que muitos investigadores académicos vêem no contributo de cidadãos voluntaristas uma intrusão abusiva nos seus domínios de atividade. Tal é compreensível porque, de facto, o termo “Ciência Cidadã” é infeliz na sua formulação. Não porque pareça sobrevalorizar o estatuto ou a importância da atividade de cidadãos curiosos e empenhados em ter um papel ativo na produção de conhecimento científico, mas porque gera um equívoco misturando aquilo que em bom rigor são atividades distintas.

Nesse sentido, concordo com a posição do investigador espanhol José Luis Yela para quem a expressão “contribuição cidadã” para a Ciência seria porventura mais justa na medida em que não distorce o que é específico quer da Ciência quer da cidadania. Posto isto, diria que cabe ao “cidadão contribuidor”, em sentido estrito, o papel de coadjuvante na recolha e reporte de dados, os quais idealmente seriam posteriormente tratados no âmbito de metodologias, essas sim, científicas.

Uma grande parte do tempo de muitos investigadores profissionais da área da entomologia é hoje consumida em atividades de formação, tutoria e investigação dentro das respetivas instituições, pelo que sobrará pouco tempo para um trabalho de campo sistemático. É aí que o “cidadão contribuidor”, beneficiando de uma maior autonomia e de rotinas mais flexíveis, pode acrescentar valor reunindo e canalizando dados a partir do terreno de forma mais expedita.

Jorge Rosete debruçado sobre o lençol numa sessão de armadilhagem luminosa integrada no 3.º Encontro Nacional da REBN (Serra da Estrela, 13 e 14 de setembro de 2025). Ao lado, de pé e da esquerda para a direita, José Fabião e Helder Cardoso (REBN). Foto: Câmara Municipal de Gouveia

W: Que materiais aconselha as pessoas a levarem nas suas saídas de campo para observar e estudar insetos, em especial borboletas?

Jorge Rosete: Depende do perfil das espécies visadas. No que diz respeito às espécies diurnas basta uma rede entomológica e recipientes de coleta.

Quanto às espécies noturnas, podem ser feitas recolhas oportunistas sob fontes de iluminação pública ou pode ser montado um esquema de armadilharem luminosa conectado com um mecanismo gerador de energia. As modalidades acima descritas implicam, à partida, a recolha e o manuseamento de espécimes.

Se o objetivo não for o da retenção para posterior análise, o uso de máquina fotográfica ou qualquer outra tecnologia de captação de imagem será suficiente.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca