O único centro de reprodução de lince-ibérico em Portugal, o CNRLI, em Silves, já conseguiu este ano oito crias desta espécie ameaçada. Portugal e Espanha estão à procura de financiamento europeu para a conservação deste felino, algo que só está garantido por mais três meses.
A época dos nascimentos no Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) é o culminar de um ano de trabalho para a equipa que garante o funcionamento do centro e para os voluntários.
O grande objectivo é conseguir crias saudáveis, treiná-las para a liberdade e, meses depois, soltá-las na natureza, para que novas populações de linces voltem aos territórios de onde se extinguiram há décadas.

Nesta temporada reprodutora foram formados seis casais para reprodução natural, disse à Wilder Rodrigo Serra, director do Centro e coordenador do Programa ibérico de Conservação Ex-Situ para a espécie.
Até 14 de abril nasceram oito crias no Centro de Silves. Sílaba e Galeno tiveram uma cria a 6 de março; René e Truco conseguiram três crias sobrevivas a 24 de março; Tanzânia e Hermes tiveram duas crias a 3 de abril e Queratina e I-de-minas tiveram duas crias nascidas a 8 de abril. A fêmea Retama não ficou gestante este ano.
Das 10 crias que nasceram no CNRLI no ano passado, oito estão a ser reintroduzidas na natureza em Espanha desde 17 de fevereiro; dois machos ficam em cativeiro como reprodutores – Wookie, filho da Queratina e do Galeno, e Wally, filho da René e do Truco.
De acordo com Rodrigo Serra, sete dos oito linces de Silves já foram reintroduzidos na natureza. Um macho foi libertado em Doñana (Andaluzia), um macho e uma fêmea foram libertados em Sierra Arana (também na Andaluzia), duas fêmeas em Múrcia, uma fêmea na Sierra Norte de Sevilla (Andaluzia) e uma fêmea em Aragão que estreou o projeto de reintrodução nesta Comunidade Autónoma de Espanha. Falta soltar a Wafer, filha da René, em Palência (Castela e Leão).

O CNRLI, começado a construir em Junho de 2008 e terminado em Maio de 2009, resulta de uma medida de compensação pela construção da barragem de Odelouca, imposta pela União Europeia, e é financiado pela empresa Águas do Algarve, S.A. Esta é a proprietária da Herdade das Santinhas, onde está localizado o centro, e dos diversos componentes que constituem o CNRLI, com exceção do Complexo de Treino e Recuperação de Lince Ibérico (CTRLI), já construído pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e em operação desde dezembro de 2019.
Originalmente, o CNRLI tinha funcionamento assegurado até 2025. Mas a 14 de março do ano passado foi assinado em Faro um memorando de entendimento entre o ICNF e a Águas do Algarve, S.A. que prevê a formalização da sua prorrogação até 2037.
Questionado pela Wilder sobre essa prorrogação, João Alves, coordenador do programa de reintrodução da espécie em Portugal e responsável do ICNF, respondeu que “o protocolo de colaboração e o contrato de comodato encontram-se em fase de renovação”.

Rede ibérica de centros quer ter entre 30 e 40 linces preparados para reintrodução
Para este ano, o responsável pela rede de centros de reprodução da espécie em cativeiro – quatro centros exclusivos e um não-exclusivo – tem objetivos claros. “Queremos ter entre 30 e 40 animais disponíveis para treinar para projetos de reintrodução na Península, em particular para as novas zonas de reintrodução de Castela e Leão, Aragão, Múrcia, Castela-La Mancha e Andaluzia”.
Além disso, outra meta importante é “criar o número adequado de animais geneticamente valiosos para substituir animais geriátricos a entrar em período pós-reprodução este ano, para manter a genética e a demografia saudáveis em cativeiro (cerca de 10)”.
Rodrigo Serra lembra que o Programa Ex-Situ “tem como prioridade principal equilibrar a sua pirâmide demográfica e garantir a segurança da diversidade genética que tem à sua guarda”. “Com o acumular, natural, de linces pós-reprodutores, o Programa deve gerir o seu espaço com muita atenção, e ao mesmo tempo acautelar esse mesmo espaço para os futuros reprodutores nos centros de cria em Portugal e Espanha para garantir a sua continuidade e a conservação da diversidade genética existente.”
Para 2026, os maiores desafios para o Programa ibérico Ex Situ “prendem-se, sobretudo, com a pressão sobre a capacidade instalada nos últimos três a quatro anos”. “Face a este cenário, estão a ser desenvolvidas soluções para otimizar a gestão da população, assegurando o bem-estar dos animais e a continuidade dos objetivos do programa”, garantiu. Paralelamente, prossegue o trabalho de “manutenção da diversidade genética e reforço das ações de reintrodução e conservação da espécie no meio natural”.

Na verdade, reforçar a diversidade genética desta espécie é o principal papel de um centro de reprodução em cativeiro. Para isso, a rede ibérica tem vindo a aperfeiçoar a “arte” de “gerir demograficamente a população cativa, de forma a garantir os cruzamentos menos relacionados possível dentro da genética e parentescos existentes, dos animais que temos em idade reprodutora”.
“A definição dos casais faz-se exatamente tendo em conta o grau de parentesco entre cada um dos elementos do casal, para garantir a maior variabilidade genética possível das ninhadas resultantes.”
Outra medida importante é “continuar a tentar recolher gâmetas masculinos e femininos de lince-ibérico para desenvolver técnicas de reprodução assistida, e desenvolver técnicas de inseminação artificial – projetos em que o Centro Nacional de Reprodução de Lince-Ibérico lidera a nível do Programa e a nível europeu no que diz respeito a felinos selvagens”.
Apoio europeu à conservação do lince-ibérico garantido só até final de julho
Desde junho de 2024 que o lince-ibérico está classificado como Vulnerável, depois de quase 10 anos na categoria Em Perigo e antes disso de vários anos na categoria mais elevada atribuída pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Criticamente em Perigo.
O mais recente censo à espécie revelou que viviam na Península Ibérica, pelo menos, 2401 linces-ibéricos, 354 dos quais em Portugal.
Mas ainda há muito trabalho a fazer para que o lince consiga atingir o estatuto de conservação favorável. Para que isso aconteça é preciso chegar às 700 fêmeas reprodutoras e a um total de 3500 linces na Península Ibérica até 2035.

Há vários anos que uma série de projetos LIFE têm dado apoio financeiro europeu à conservação deste felino. O projeto em curso, o LIFE LynxConnect, que começou em setembro de 2020 e terminaria a 30 de setembro de 2025, foi prolongado até 31 de julho deste ano, explicou à Wilder João Alves.
No entanto, ainda não está garantido um novo projeto que o substitua.
“A nova candidatura ao LIFE – apresentada pela Junta de Andaluzia, e na qual o ICNF e a CIMBAL eram parceiros, o LIFE Resilince – não mereceu atribuição de financiamento, apesar de ter atingido uma avaliação positiva”, adiantou o responsável.
João Alves adiantou que “o ICNF encontra-se, em conjunto com os seus parceiros espanhóis, a efetuar diligências para ultrapassar esta decisão, propondo uma nova iniciativa para financiamento”.
Este responsável disse também que o Plano de Ação para a Conservação do Lince-Ibérico (PACLIP) – cuja versão em vigor é a de 2015-2020 – já foi atualizado e que “será apresentado em breve”.
Entretanto, a conservação in situ do lince-ibérico ainda não tem responsável nomeado, depois da morte de Pedro Sarmento em janeiro deste ano. “A nomeação do novo responsável pela conservação in situ ainda está em processo de análise interna”, revelou João Alves.
Saiba como nasce um lince-ibérico aqui.