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Lince-ibérico: Quercus e Almargem pedem ao ICNF transparência e continuidade técnica no CNRLI

22.05.2026
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Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ do Lince-Ibérico

O processo de mudança da equipa que gere o Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), anunciado pelo ICNF e com efeitos já a 1 de junho, deve reger-se pela transparência, continuidade técnica e qualidade científica, pedem a Quercus e a Almargem. 

Em comunicado, a Quercus afirma ter recebido “com surpresa e reserva” a decisão do ICNF. “Causa estranheza o eventual e repentino afastamento do atual coordenador e de toda a equipa de técnicos especializados que, há 16 anos, contribuem para o sucesso do CNRLI, cuja capacidade técnica, científica e operacional tem contribuído de forma irrepreensível para a recuperação da população de lince-ibérico em Portugal”.

A associação pede “mais clareza nos esclarecimentos prestados pela tutela” e quer conhecer qual o plano de transição. Este deve ser um processo “transparente e tecnicamente fundamentado” e, idealmente, deverá incluir a “integração dos atuais profissionais na estrutura do ICNF, para que possam dar continuidade às suas funções”.

Assim, a Quercus apela ao ICNF para divulgar o “enquadramento técnico, administrativo e orçamental que conduziu à decisão de internalizar a gestão do CNRLI no ICNF”. 

Além disso, quer que sejam ouvidos os parceiros do Programa Ibérico de Conservação Ex-Situ do lince-ibérico relativamente a este processo de transição.

Em declarações à Wilder, o Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico de Espanha (MITECO) afirmou não ter recebido qualquer comunicação formal do ICNF sobre a anunciada alteração no CNRLI. “Não existe uma posição do Governo espanhol neste momento, dado que não se dispõe de informação sobre essas possíveis mudanças”, refere Madrid. “Estamos à espera de as conhecer para as avaliar e comentar detalhadamente com as autoridades portuguesas.”

O ministério espanhol confirmou igualmente que enviou, a 15 de Abril, uma carta ao ICNF propondo a realização de uma reunião da Comissão Bilateral Portugal-Espanha no âmbito do acordo de cooperação entre o Reino de Espanha e a República Portuguesa relativo ao programa de reprodução em cativeiro do lince-ibérico.

No entanto, até ao momento, “não foi recebida resposta por parte do ICNF”.

CNRLI, um “elemento estratégico para a biodiversidade” de Portugal

Também a associação Almargem veio defender a necessidade de garantir continuidade técnica no centro de Silves para “preservar o sucesso na conservação da espécie”. 

A associação algarvia destaca os “resultados excecionais” alcançados pelo CNRLI desde 2009, salientando que o trabalho desenvolvido contribuiu para que o lince-ibérico passasse, em 2024, da categoria Em Perigo para Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.

“Face à decisão do ICNF de assumir a gestão direta do centro a partir de 1 de junho, afastando a equipa técnica atual, a Almargem defende que qualquer transição dê prioridade à continuidade técnica, à transparência e à qualidade científica”, escreveu a Almargem num comunicado enviado hoje à Wilder.

A associação refere ainda os alertas deixados pelo coordenador técnico cessante, Rodrigo Serra, que terá falado num possível “risco de colapso” caso se verifique a perda da experiência acumulada pela atual equipa. 

Para a Almargem, é necessário “salvaguardar o conhecimento que sustentou os resultados positivos alcançados até agora, nomeadamente as altas taxas de sobrevivência de crias e a coordenação do programa ibérico”.

“O CNRLI é um elemento estratégico para a biodiversidade do Algarve e de Portugal”, sublinha a associação, defendendo que a mudança apenas deve avançar com garantias claras de continuidade dos processos e da qualidade científica do programa.

As duas organizações afirmam que continuarão a acompanhar a situação e aguardam esclarecimentos adicionais por parte das entidades competentes.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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