Pedro Sarmento está no coração da história de conservação do lince-ibérico e foi um dos maiores responsáveis por travar a extinção deste felino. Faleceu esta sexta-feira aos 59 anos, subitamente. Deixa um legado difícil de igualar.
A notícia da morte de Pedro Sarmento foi dada esta tarde numa nota de pesar do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
O Instituto “manifesta o seu mais profundo pesar pelo desaparecimento prematuro do nosso colega Pedro Sarmento, esta sexta-feira”.
“Biólogo de formação, Pedro Sarmento coordenava no ICNF o programa de reintrodução do lince-ibérico em Portugal e foi uma figura essencial no sucesso do trabalho desenvolvido.”
Para Carlos Albuquerque, até há pouco tempo diretor do Departamento de Conservação da Natureza e Biodiversidade neste instituto e actual director regional do ICNF para Lisboa e Vale do Tejo, Pedro Sarmento é um nome incontornável na conservação do lince-ibérico, não só em Portugal mas a nível ibérico. “Todos o conheciam, todos o estimavam e reconheciam a sua dedicação e rigor científico”, comentou neste sábado à Wilder o responsável.
“Nunca deixou de acreditar na recuperação do lince-ibérico e marcou tremendamente o regresso desta espécie” à Península Ibérica. “Nunca parou, nunca deu a espécie como perdida. Deixou um caminho, o caminho do Pedro, para continuarmos este trabalho”, acrescentou Carlos Albuquerque.
A dedicação, o exemplo e a força “do Pedro alimentava-nos a todos; foi ele quem trouxe para esta missão os maiores agentes da conservação da espécie que estão hoje a trabalhar. O Pedro ‘é’ o lince-ibérico”.
Na verdade, Pedro Sarmento esteve ao lado deste felino desde o início deste esforço conservacionista.
Em 2002, quando a espécie estava “virtualmente extinta” em Portugal, Pedro Sarmento coordenou o programa nacional de recenseamento do lince pelo então Instituto de Conservação da Natureza (ICN). Nessa altura, era o coordenador nacional da conservação do lince e director da Reserva Natural da Serra da Malcata.
Coordenou o primeiro Plano de Acção para a Conservação do Lince-ibérico (2004-2008), entregue à presidência do então ICN em Setembro de 2003, e esteve sempre no campo a preparar o regresso desta espécie ícone da conservação da natureza em Portugal e na Europa.
A 8 de Março de 2005 esteve presente na primeira reunião do Grupo de Reintrodução do Lince-Ibérico, que reuniu técnicos portugueses e espanhóis, criado na sequência de uma recomendação do II Seminário Internacional sobre Lince-Ibérico (Dezembro de 2004, Córdova).
Pedro Sarmento ajudou a abrir o caminho para Portugal participar no esforço de reprodução em cativeiro desta espécie e, posteriormente, de reintrodução na natureza.
Para isso, a partir do início de 2012 começou a fazer a avaliação das potenciais áreas de reintrodução deste felino em Portugal, nomeadamente a serra da Malcata, que tão bem conhecia, e a zona de Moura/Barrancos e Guadiana.
Há vários anos era o coordenador e responsável técnico do programa in situ para a espécie e a sua “paixão, vontade e dedicação inabaláveis foram fundamentais para o sucesso deste programa”, escreve o ICNF.
Em 2015, o lince-ibérico passou de Criticamente em Perigo para Em Perigo; nove anos mais tarde, em 2024, registou uma nova melhoria, passando a Vulnerável. Em Portugal e Espanha viviam, na natureza, 2401 linces, segundo os dados do Censo de Lince-Ibérico 2024, revelados em maio de 2025.
“O Pedro amava os linces, que eram a sua razão de viver. Quando em 16 de dezembro de 2014 se libertou o primeiro casal de linces-ibéricos – a Jacarandá e o Katmandú – no cercado de solta branda, na Herdade das Romeiras, em Mértola – o Pedro permaneceu durante várias noites no exterior do cercado, velando para que nada de anormal acontecesse aos linces recém-chegados, ela proveniente do CNRLI (Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico), em Silves, e ele originário de Zarza de Granadilla, na Estremadura espanhola.”
“Foram muitas as noites mal dormidas e incontáveis os dias em que o Pedro percorreu quilómetros atrás de quilómetros, a pé e em viatura, dando tudo o que tinha, muitas vezes excedendo-se, para que o regresso do lince-ibérico a Portugal não falhasse e viesse a revelar-se, aos dias de hoje, o projeto de conservação da natureza de maior sucesso em Portugal e na Península Ibérica.”
O ICNF envia à família, amigos e colegas, “as mais sentidas condolências”.
“O Pedro viveu num outro universo, mais acelerado e mais brilhante do que aquele em que a maioria de nós vivemos e, aos 59 anos, deixa-nos uma marca incomensurável e um vazio difícil de preencher. Nunca esqueceremos o ser humano extraordinário, a mente brilhante e o amigo insubstituível. Uma perda irreparável. O Pedro dormia com os linces, e agora descansa em paz.”
Leia aqui a entrevista que Pedro Sarmento deu à Wilder em Abril de 2024.