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Já há 56 crias de abutre-preto a ser seguidas por GPS em Portugal

27.08.2026
leitura de 4 minutos
Abutre-preto. Foto: Francesco Veronesi / Wiki Commons

A época de marcação de 2026 terminou com 13 novas crias da maior ave de rapina da Europa integradas no programa de monitorização do LIFE Aegypius Return. No total são 56 os abutres-pretos a serem seguidos por GPS.

Conjugar esforços de conservação em vários pontos do país tem sido a receita para o sucesso desta história. Várias equipas têm posto mãos à obra para trazer de volta uma espécie que, durante 40 anos (dos anos 1970 a 2010), não nasceu em Portugal.

No ano passado foram registados entre 119 a 126 casais de abutre-preto (Aegypius monachus) no Tejo Internacional, no Baixo Alentejo (Herdade da Contenda, em Moura), na Reserva Natural da Malcata, na Vidigueira/Portel e no Douro Internacional. 

A marcação das crias com dispositivos GPS acontece no final da época de reprodução. Este ano, as equipas de campo em Portugal visitaram as colónias de reprodução no Douro Internacional, Tejo Internacional, Herdade da Contenda (em ambos os lados da fronteira, português e espanhol) e Vidigueira/Portel.

Foram marcadas com emissores GPS/GSM 13 crias que se somam às 43 crias marcadas entre 2023 e 2025, elevando o total para 56 crias monitorizadas no âmbito do projeto. Estiveram no terreno monitores de colónias, anilhadores e marcadores credenciados, médicos veterinários, biólogos e peritos em trabalhos verticais.

Além da colocação dos emissores, os peritos anilharam as crias com anilhas metálicas e anilhas coloridas de PVC nas patas. “Estas anilhas permitem identificar cada indivíduo ao longo de toda a sua vida, tornando possível acompanhar as suas deslocações. Sempre que uma ave anilhada é observada, seja por observadores de aves, através de fotoarmadilhagem ou em Campos de Alimentação para Aves Necrófagas, é possível rastrear a sua história, incluindo o local onde nasceu.”

Foram ainda recolhidas amostras biológicas que serão utilizadas para fins científicos.

Amostras como sangue, penas e zaragatoas são recolhidas e enviadas para centros de investigação especializados. As equipas científicas têm estudado a presença de contaminantes ambientais na população, a origem genética das aves portuguesas e definido os valores de referência para parâmetros sanguíneos e bioquímicos. Outras investigações centram-se ainda nas bactérias presentes na cavidade oral/cloacal dos abutres, bem como nos parasitas internos e externos que circulam nas colónias.

Um complexo trabalho de planeamento

Em comunicado, os responsáveis pelo projeto de conservação explicam todo o planeamento e coordenação que acontece nos bastidores antes do trabalho de campo.

“Nos meses que antecedem a época de marcação, as equipas locais dedicam inúmeras horas à localização de casais reprodutores, à identificação de ninhos ativos e ao acompanhamento do desenvolvimento das crias”, explicam os conservacionistas.

É este trabalho que permite estimar a idade de cada cria, planear as intervenções de campo e, mais tarde, avaliar o sucesso reprodutor.

“Idealmente, as crias de abutre-preto são marcadas quando têm entre 80 e 90 dias de idade, fase em que já estão suficientemente desenvolvidas para receber um emissor GPS/GSM em segurança.”

A informação recolhida através destas marcações anuais tem tido um papel fundamental no sucesso do LIFE Aegypius Return ao longo dos últimos anos. “Ao equipar as crias de abutre-preto com emissores GPS/GSM, a equipa do projeto consegue acompanhar os seus percursos durante os primeiros anos de vida.”

Esta monitorização permite compreender melhor para onde se deslocam, onde encontram alimento, onde descansam e pernoitam, sinalizar crias em perigo e conhecer muitos outros aspetos do seu comportamento.

“Cada movimento registado acrescenta uma nova peça ao puzzle, permitindo uma compreensão mais detalhada de como os jovens abutres exploram a paisagem, utilizam o território e interagem com outras colónias.”

Além disso, os dados recolhidos ajudam a desenvolver estratégias mais eficazes e a fundamentar decisões de gestão a nível nacional. Um dos exemplos mais recentes da forma como este trabalho de monitorização apoia a conservação é o seu contributo para a apreciação de projetos de energias renováveis em Portugal, um dos principais desafios do LIFE Aegypius Return em 2026.

“Através dos dados recolhidos por GPS, foi possível identificar as áreas mais utilizadas e relevantes para o abutre-preto. Esta informação tem servido de base à elaboração de pareceres técnicos sustentados em evidência científica, contribuindo para minimizar potenciais impactos sobre a espécie e promovendo uma articulação equilibrada entre a transição energética e a conservação da biodiversidade.”

LIFE Aegypius Return começou no final de 2022 com o objetivo de melhorar as condições ecológicas que permitissem consolidar o regresso do abutre-preto a Portugal, quatro décadas após a sua extinção enquanto espécie reprodutora. 

Em 2022 estimava-se que as quatro colónias então conhecidas – Douro Internacional, Serra da Malcata, Tejo Internacional e Herdade da Contenda – totalizassem apenas 44 casais reprodutores. O objetivo implementar era conseguir duplicar este número, alcançando pelo menos 80 casais distribuídos por cinco colónias até 2027.

Em 2024 foi descoberta uma quinta colónia, que atualmente abrange os concelhos de Vidigueira e Portel. É considerado um núcleo “com grande relevância para a conservação da espécie no Alentejo”.

Mas a história de conservação do abutre-preto, hoje classificado como espécie Em Perigo de extinção, está longe ser um sucesso garantido.

Há fatores que podem pôr em perigo todo o trabalho. Por exemplo, em 2025 houve vários problemas que condicionaram a reprodução do abutre-preto, como tempestades no inverno e ondas de calor no verão e o incêndio que queimou mais de 10.000 hectares do Parque Natural do Douro Internacional.

Segundo os conservacionistas, “as várias colónias estão também ameaçadas pela forte expansão de projetos de energia renovável, com a instalação de novos aerogeradores e linhas elétricas nas proximidades dos ninhos, aumentando o risco de mortalidade por colisão e eletrocussão. Por sua vez, os parques solares inutilizam vastas áreas de alimentação ou de potencial expansão da espécie. Todos estes empreendimentos implicam ainda elevados níveis de perturbação, tanto durante a construção como na fase de exploração, comprometendo a tranquilidade essencial ao sucesso reprodutor do abutre-preto.”

Além disso, o abutre-preto continua exposto a ameaças bem conhecidas, como o envenenamento, o tiro e a perturbação.


Saiba mais.

Carlos Pacheco e Milene Matos explicam como se marca um abutre-preto (e para que serve).

Aqui pode descobrir tudo o que precisa saber para observar abutres-pretoscom Eduardo Santos, da LPN, e Gonçalo Elias, do portal Aves de Portugal.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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