Os parceiros do projeto LIFE Aegypius Return e as três organizações portuguesas do setor da caça lançaram esta quarta-feira um alerta e nota de repúdio contra a perseguição a este que é o maior abutre europeu. Fique a conhecer três casos dos últimos meses.
O abutre-preto (Aegypius monachus), o maior abutre da Europa cujos números têm vindo a recuperar nos últimos anos em território português, é uma espécie protegida por lei. No entanto, têm sido conhecidos vários casos de perseguição a tiro contra aves desta espécie, incluindo contra a única cria da mais recente colónia portuguesa de abutres-pretos, na Herdade do Monte da Ribeira (Vidigueira, Alentejo), alertaram esta quarta-feira os parceiros do LIFE Aegypius Return e as três associações portuguesas do setor da caça de primeiro nível (ANPC, FENCAÇA e CNCP).
“Em Portugal, o abate ou perturbação desta ave é um crime punível com pena de prisão até 5 anos. No entanto, infelizmente, a perseguição a esta espécie mantém-se um grave fator de ameaça e mortalidade”, avisam em comunicado conjunto, acrescentamdo que “nos últimos meses, pelo menos três abutres-pretos nascidos em Portugal foram vítimas de tiro”.
Além de chamarem a atenção para a perseguição a esta espécie que está em risco de extinção em Portugal, estas entidades apelam também ao tratamento em tribunal de casos como estes: “Crimes contra espécies protegidas, independentemente das motivações, são condenáveis e devem ser os seus autores responsabilizados, para além de ser fundamental continuar a desenvolver esforços para prevenir e erradicar situações análogas”, sublinham.
O aumento de casos conhecidos foi ajudado pela marcação de abutres-pretos no âmbito do LIFE Aegypius Return, que “tem permitido obter informações mais concretas sobre o tipo de ameaças que estas aves enfrentam na Península Ibérica, bem como conhecer a hora e local exatos de acidentes e eventos criminais”.
Além dessas ações de marcação, também têm sido importantes as informações dadas às autoridades e fornecidas pelos centros de recuperação de fauna selvagem, acrescentam os autores do comunicado, que incluem oito parceiros do projeto coordenado pela Vulture Conservation Foundation e as três associações de caça.
Fique a conhecer os três casos de abutres-pretos alvejados a tiro conhecidos mais recentemente em Portugal, descritos pelos autores do comunicado:
Mirante
Este abutre-preto, batizado de Mirante numa votação pública online, nasceu em 2023 na Herdade da Contenda, concelho de Moura. A 13 de julho desse ano foi marcado no ninho, com anilhas e um emissor GPS/GSM. Deixou o ninho passado cerca de um mês.
Ao longo de 2024, Mirante realizou alguns voos de dispersão pelo Alentejo, ao longo da fronteira com Espanha até ao Douro Internacional, e em território espanhol, alcançando a região de Toledo. Em setembro foi detetada uma situação anómala nos dados do emissor, que motivou o alerta aos guardas da Junta de Andaluzia e buscas no terreno, que contaram também com a Liga para a Protecção da Natureza.
Encontrado, o cadáver de Mirante foi recolhido pelas autoridades e entregue para investigação no CAD (Centro de Análisis y Diagnóstico de la Fauna Silvestre), o laboratório de referência para estudar casos de mortalidade de fauna, do governo regional andaluz. A necrópsia confirmou o que os dados de monitorização remota já davam a entender: Mirante foi alvejado com tiro de espingarda enquanto voava na região de Huelva, a cerca de 15 quilómetros da fronteira com Portugal.
Bobadela
Em novembro passado, um abutre-preto juvenil foi vítima de tiro na Bobadela, em Loures. Não sendo este um território habitual para a espécie, por vezes os juvenis (ou aves desorientadas, vítimas de envenenamento ou com sintomas neurológicos) fazem voos de dispersão algo longos, afastando-se do seu habitat. Por não se conseguirem alimentar, são muitas vezes encontrados muito débeis e exaustos, em zonas urbanas ou costeiras.
É importante que as autoridades capturem estes abutres em situação de fragilidade, para que ingressem em centros de recuperação. Todavia, a fragilidade também os torna alvos fáceis para a perseguição e o crime e as autoridades nem sempre chegam a tempo. Foi o caso deste abutre-preto, uma cria nascida em 2024, que foi encontrado ferido a tiro de espingarda na Bobadela, Loures, em novembro passado. Foi entregue no LxCRAS – Centro de Recuperação de Animais Silvestres, em Lisboa, ainda com vida, mas não resistiu aos ferimentos.
Pousio
Pousio é a única cria conhecida da mais recente colónia portuguesa desta espécie, situada na Herdade do Monte da Ribeira, na Vidigueira. No final de janeiro, os funcionários da herdade encontraram este abutre no solo, com uma postura prostrada e comportamentos estranhos. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas foi chamado e prontamente recolheu a ave, tendo-a entregado no LxCRAS.
O diagnóstico foi atroz: Pousio foi vítima de tiro de espingarda pelas costas, enquanto estava pousado. A enorme quantidade de projéteis indica que o tiro foi feito de muito perto e, portanto, não deixa dúvidas quanto à sua intenção: 16 chumbos e fragmentos menores numa das patas, seis chumbos e fragmentos na outra, e ainda um chumbo alojado no músculo peitoral. As lesões obrigaram a várias intervenções médico-veterinárias, incluindo a remoção de uma unha.
Pousio encontra-se a recuperar, mas, ainda que venha a sobreviver, tem elevados níveis de chumbo no organismo, o que, junto com as lesões, poderá condicionar a sua qualidade de vida e capacidade de sobrevivência e reprodução.
O comunicado divulgado esta quarta-feira foi subscrito pelas entidades que formam o consórcio do LIFE Aegypius Return, nomeadamente a VCF (beneficiário coordenador) e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural (com cofinanciamento da Viridia – Conservação em Ação), Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade, em conjunto com as três organizações portuguesas do setor da caça de 1.º nível, FENCAÇA, CNCP e ANPC.
Agora é a sua vez.
“Um combate eficaz aos crimes contra a vida selvagem depende da colaboração de todos: autoridades, médicos veterinários, organizações não governamentais, mas também de todos os cidadãos, incluindo os caçadores”, avisam os signatários desta nota de repúdio contra os ataques a tiro que têm como alvo os abutres-pretos.
“Denunciar crimes é fundamental! Se detetar ou suspeitar de práticas irregulares, denuncie pela linha SOS Ambiente e Território – 808 200 520 – ou através do site www.gnr.pt/ambiente.aspx . É um serviço disponível 24 horas por dia, durante todo o ano.”