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Este ano há entre 119 e 126 casais de abutre-preto em Portugal

05.12.2025
leitura de 4 minutos
Abutres-pretos. Foto: Bruno Berthemy

Em apenas três anos, o número de casais de abutre-preto (Aegypius monachus) em Portugal passou de 40 (em 2022) para entre 119 a 126 (em 2025), revela hoje o projecto de conservação desta espécie ameaçada. Destes resultaram 56 crias voadoras, segundo o LIFE Aegypius Return.

Estes números explicam-se com acções coordenadas de conservação em vários pontos do país, postas no terreno por dezenas de especialistas e amantes da natureza.

Os resultados da época de reprodução de 2025 do abutre-preto (Aegypius monachus) em Portugal, revelados a 5 de dezembro, contrastam com o que passava no país há algumas décadas.

Abutre-preto e uma cria. Foto: Bruno Berthemy

Na verdade, durante 40 anos (dos anos 1970 a 2010) não nasceram crias de abutre-preto em Portugal. A perda de habitat, envenenamento, colisão e electrocussão em linhas eléctricas e diminuição de alimento disponível ditaram a ausência da maior ave de rapina da Europa.

Até que, em 2010, dois casais reprodutores se estabeleceram no Parque Natural do Tejo Internacional. Esta colónia fundadora é a maior do país e alberga mais de metade da população nacional.

Este ano, na época de reprodução que se estende de Janeiro a início de Setembro, nidificaram em Portugal entre 119 e 126 casais – entre 68 e 72 no Tejo Internacional, entre 16 e 18 no Baixo Alentejo, 15 na Reserva Natural da Malcata, entre 12 a 13 na Vidigueira/Portel e oito no Douro Internacional, – e hoje há 56 crias que sobreviveram.

O maior número de crias (36) foi conseguido no Tejo Internacional. A Reserva Natural da Serra da Malcata acabou a época de 2025 com oito crias, o Tejo Internacional e a Herdade da Contenda (Moura) com cinco crias cada e o núcleo da Vidigueira/Portel com duas crias.

Os conservacionistas salientam que 25 a 26 destes casais e 16 das crias pertencem a ninhos localizados em território espanhol, uma vez que várias colónias são transfronteiriças.

Na época de reprodução anterior foram registados entre 108 a 116 casais e 48 crias.

Abutres-pretos. Foto: Bruno Berthemy

Mas, ainda que a população nacional tenha continuado a crescer em 2025, os responsáveis pelo LIFE Aegypius Return (2022-2027) salientam que tal aconteceu “a um ritmo mais moderado”. “O sucesso reprodutor diminuiu ligeiramente e a espécie demonstrou vulnerabilidade face a várias ameaças.”

“O sucesso reprodutor em 2025 baixou ligeiramente, de 0.51 para 0.50 (significa que apenas 50% das posturas resultaram em crias recrutadas para a população). Este decréscimo poderá estar associado ao mau tempo registado durante o inverno e às vagas de calor do verão, evidenciando a vulnerabilidade do abutre-preto aos eventos meteorológicos extremos – agravados pelas alterações climáticas – e a outros fatores não controláveis.”

Consolidar o regresso do abutre-preto 

O LIFE Aegypius Return começou no final de 2022 com o objetivo de melhorar as condições ecológicas que permitissem consolidar o regresso do abutre-preto a Portugal, quatro décadas após a sua extinção enquanto espécie reprodutora. 

Em 2022 estimava-se que as quatro colónias então conhecidas – Douro Internacional, Serra da Malcata, Tejo Internacional e Herdade da Contenda – totalizassem apenas 44 casais reprodutores. O objetivo implementar era conseguir duplicar este número, alcançando pelo menos 80 casais distribuídos por cinco colónias até 2027.

Em 2024 foi descoberta uma quinta colónia, que atualmente abrange os concelhos de Vidigueira e Portel. É considerado um núcleo “com grande relevância para a conservação da espécie no Alentejo”.

Abutre-preto. Foto: Francesco Veronesi / Wiki Commons

Mas a história de conservação do abutre-preto, hoje classificado como espécie Em Perigo de extinção, está longe ser um sucesso garantido.

Há sempre fatores que podem pôr em perigo todo o trabalho. Por exemplo, em 2025 houve vários problemas que condicionaram a reprodução do abutre-preto, como tempestades no inverno e ondas de calor no verão e o incêndio que queimou mais de 10.000 hectares do Parque Natural do Douro Internacional.

“A colónia do Douro, reestabelecida em 2012, tinha crescido até oito casais em 2024. O incêndio destruiu completamente dois ninhos e afetou outros seis, em diferentes graus. Confirmou-se a morte de duas das cinco crias nascidas, havendo suspeita da morte de outras duas”, lembram os responsáveis. Está em curso um plano de emergência para recuperar o habitat e sustentar a manutenção da colónia.

Segundo os conservacionistas, “as várias colónias estão também ameaçadas pela forte expansão de projetos de energia renovável, com a instalação de novos aerogeradores e linhas elétricas nas proximidades dos ninhos, aumentando o risco de mortalidade por colisão e eletrocussão. Por sua vez, os parques solares inutilizam vastas áreas de alimentação ou de potencial expansão da espécie. Todos estes empreendimentos implicam ainda elevados níveis de perturbação, tanto durante a construção como na fase de exploração, comprometendo a tranquilidade essencial ao sucesso reprodutor do abutre-preto.”

Além disso, o abutre-preto continua exposto a ameaças bem conhecidas, como o envenenamento, o tiro e a perturbação.

abutre-preto em voo
Abutre-preto. Foto: Artemy Voikhansky/Wiki Commons

“Com mais dois anos de trabalho pela frente, no âmbito do LIFE Aegypius Return, os parceiros permanecem firmemente empenhados em alcançar os melhores resultados possíveis para assegurar um futuro sustentável para a espécie.”

A monitorização do abutre-preto em Portugal é realizada pelos parceiros do projeto LIFE Aegypius Return e conta com o apoio do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Rewilding Portugal, Quercus e Agentes del Medio Ambiente das Juntas de Castela e Leão, da Extremadura e da Andaluzia.


Saiba mais.

Carlos Pacheco e Milene Matos explicam como se marca um abutre-preto (e para que serve).

Aqui pode descobrir tudo o que precisa saber para observar abutres-pretos, com Eduardo Santos, da LPN, e Gonçalo Elias, do portal Aves de Portugal.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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