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Fogo mata cria de abutre-preto e ameaça sobrevivência da colónia do Douro Internacional

21.08.2025
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Cria de abutre-preto encontrada no Douro Internacional. Foto: Ivan Gutiérrez/Palombar

Pelo menos uma das cinco crias de abutre-preto da colónia do Douro Internacional morreu vítima do incêndio que devastou há dias 15 mil hectares de habitat e destruiu ninhos e instalações do projeto de conservação desta espécie Em Perigo. As instituições lançam pedido de ajuda para recomeçar e salvar esta colónia.

Esta manhã, as equipas do projeto LIFE Aegypius Return no Douro Internacional encontraram uma cria de abutre-preto (Aegypius monachus), caída no solo por entre árvores calcinadas. Era uma das cinco crias que nasceram este ano na mais pequena colónia desta ave em Portugal e tinha-lhe sido colocado um emissor GPS em Junho.

O paradeiro das restantes crias ainda é desconhecido e os técnicos percorrem o terreno à sua procura.

A colónia de abutre-preto do Douro Internacional é uma das cinco que existem em Portugal, além das colónias da Herdade da Contenda (Moura), Vidigueira, Tejo Internacional e Serra da Malcata.

Apesar de ser a mais pequena, tem sido um caso de sucesso de conservação, tendo passado de dois casais em 2019 para oito este ano.

Incêndio no Douro Internacional. Foto: Mieza/Palombar

Mas anos de trabalho podem desaparecer em horas. O maior abutre da Europa está agora em risco de abandonar o Douro Internacional por já não ter condições para voltar.

“É uma situação complicada e, do ponto de vista emocional, está a ser muito difícil para nós”, comentou à Wilder Milene Matos, coordenadora do LIFE Aegypius Return. “Neste momento, não há habitat, nem para encontrar alimento nem para tranquilidade, para estes abutres. Há um enorme risco de que abandonem a região”, acrescentou a responsável.

A 15 de agosto, um incêndio deflagrou no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), em Poiares (Freixo de Espada à Cinta).

As temperaturas próximas dos 40 °C, que se mantinham há vários dias, favoreceram a rápida progressão das chamas que, em poucas horas, evoluíram para um grande incêndio e se estenderam aos concelhos vizinhos de Mogadouro e Torre de Moncorvo. No total, arderam mais de 15 mil hectares. 

Com a proximidade do incêndio à colónia reprodutora de abutres-pretos do Douro Internacional, as equipas no terreno foram imediatamente mobilizadas e, segundo um comunicado do LIFE Aegypius Return, “evitaram uma tragédia ainda maior”. 

Salvar abutres-pretos 

Na sexta-feira ao final do dia, o fogo estava ainda longe da estação de aclimatação do projeto LIFE Aegypius Return, construída sobre as arribas do Douro, em Fornos.

Contentor ardido. Foto: Palombar

No entanto, os acessos às zonas remotas poderiam vir a ser cortados, o que impediria ações posteriores, em caso de necessidade. Assim, numa intervenção atempada, que seguiu o plano de contingência previsto no projeto, a equipa da Palombar, articulada com os técnicos e vigilantes da natureza do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF/PNDI) e com a Vulture Conservation Foundation (VCF), a Faia Brava e o criador de gado e pastor que zela pela propriedade, assim como com os veterinários do Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (HV-UTAD), recolheram os seis abutres-pretos que se encontravam na jaula de aclimatação e transferiram-nos para as instalações do CIARA (Centro de Interpretação Ambiental e Recuperação Animal), em Felgar, onde permanecem em segurança. 

Na tarde do dia seguinte, o fogo atingiu efetivamente as instalações da estação de aclimatação, que incluem a jaula, o campo de alimentação e as estruturas de apoio. 

Segundo os conservacionistas, o fogo devastou todo o habitat em redor da estação de aclimatação, apesar de em toda a volta, e por uma vasta extensão, a vegetação estar cortada, como medida preventiva implementada pela Palombar.

“A jaula das aves teve alguns danos ligeiros, mas o contentor de apoio foi totalmente destruído. Este espaço funcionava como enfermaria e como centro digital de videovigilância das instalações. O campo de alimentação em frente à jaula de aclimatação foi também inteiramente queimado, o que impossibilita a sua função, no imediato”, segundo o mesmo comunicado.

Ainda não se sabe o que vai acontecer a estes seis abutres. “Prevíamos liberta-los por cima do canhão do Douro por volta de Outubro, mas agora não há condições”, lamentou Milene Matos. “Temos de analisar bem o que fazer com estes animais.” 

Ninhos ardidos 

Na colónia de abutres-pretos do Douro Internacional, sete casais conseguiram pôr ovos nesta temporada reprodutora; destes resultaram um total de cinco crias. Quatro delas tinham já saído do ninho, mas uma era ainda jovem e não voava. No entanto, atendendo à idade desta cria, esperava-se que abandonasse o ninho nos dias seguintes. “Quando o fogo e o fumo permitiram o acesso aos locais, foi possível verificar que o ninho da cria não voadora foi impactado por chamas muito próximas, e que a cria já não se encontrava nele.”    

Ninho ardido. Foto: Palombar

As equipas do projeto confirmaram que dois dos cinco ninhos que tiveram crias este ano arderam na totalidade e outros dois parcialmente. Além disso, quatro plataformas-ninho previamente colocadas para promover a nidificação foram afetadas em diferentes graus.

“Não é possível afirmar que as crias voadoras e os adultos tenham todos sobrevivido. Sendo a colónia de tão pequena dimensão, este é um enorme retrocesso na sua conservação, e pode suceder que os adultos abandonem este território, revertendo vários anos de esforços para restaurar a colónia.”  

Terra queimada a perder de vista cobre agora as arribas do Douro e toda a zona rural e natural envolvente, na área do PNDI de Freixo de Espada à Cinta. Segundo Milene Matos, o abutre-preto está muito longe de ser a única espécie afectada. Perdeu-se toda uma comunidade natural, desde mamíferos a répteis e anfíbios, já para não falar da vegetação. As equipas no terreno já tinham encontrado um grifo morto, com as patas queimadas.

A gravidade parece superar a do incêndio de 2017 – ano em que uma cria de abutre-preto morreu carbonizada –, com a destruição de centenas de hectares de habitat de reprodução e alimentação não só para o abutre-preto, mas também para outras espécies ameaçadas, como o britango (Neophron percnopterus) ou a águia-perdigueira (Aquila fasciata). A recuperação deste ecossistema já está em curso, mas levará décadas. 

“A colónia de abutre-preto do Douro Internacional – que já era a mais frágil, a mais pequena e a mais isolada do país –, sofreu agora um severo revés, cujas consequências serão acompanhadas de perto pela Palombar, pela Faia Brava, pela VCF e pelas autoridades competentes.”  

Um pedido de ajuda para recomeçar 

Os incêndios dos últimos dias destruíram extensas áreas de habitat de alimentação e reprodução, incluindo ninhos naturais, plataformas-ninho artificiais contruídas ao abrigo deste projeto LIFE, o campo de alimentação co-gerido pela Palombar e Faia Brava, e o contentor de apoio à aclimatação, que assegurava a logística e a videovigilância.

Abutre-preto. Foto: Francesco Veronesi / Wiki Commons

Neste momento, as aves não podem regressar a estas infraestruturas, o que poderá condicionar os objetivos do programa de aclimatação de 2025. 

É fundamental restaurar o habitat em torno da jaula, principalmente no campo de alimentação, e repor o contentor de apoio. “O contentor, que assegura a vigilância das aves em aclimatação e da envolvente – permitindo monitorizar comportamentos de alimentação, socialização e interação com aves selvagens –, funcionava com energia solar. Arderam os painéis fotovoltaicos, a cablagem, o inversor de energia e outro equipamento eletrónico essencial, num investimento que, em 2023, ascendeu a mais de 15.000 euros.”  

Adicionalmente, em articulação com a União das Freguesia de Lagoaça e Fornos, e com o ICNF, serão promovidas ações de restabelecimentos dos habitats prioritários para a alimentação e tranquilidade do abutre-preto no PNDI, implicando custos extraordinários para os quais não existem, neste momento, mecanismos de financiamento imediato. 

Por este motivo, os parceiros LIFE Aegypius Return apelam à solidariedade de todos e lançaram um projeto de crowdfunding para ajudar a restabelecer o programa de conservação do abutre-preto no PNDI. Os donativos podem ser feitos AQUI

Segundo Milene Matos, só para começar e repôr as condições mínimas, são precisos 30.000 euros, dinheiro que as associações conservacionistas no terreno não têm. “Precisamos acelerar o restauro dos habitats estratégicos, os locais de dormitório e de reprodução, repôr plataformas de nidificação, o campo de alimentação, a enfermaria e o sistema de video-vigilância.”

As equipas LIFE Aegypius Return têm estado em alerta permanente com a aproximação de fogos às várias colónias de abutre-preto. “Estamos em vigilância total. A Herdade da Contenda já esteve em risco, com o fogo a vir do lado espanhol e a chegar a menos de um quilómetro dos ninhos, mas foi contido. A situação está difícil na Malcata e um incêndio está a aproximar-se da colónia do Tejo Internacional, a maior do país.”

Além do Douro Internacional, também as colónias da Herdade da Contenda e da Serra da Malcata têm estado sob ameaça, com grandes incêndios nas proximidades. Do lado espanhol, a Serra de São Pedro, na província de Cáceres, registou sérios prejuízos, com pelo menos 60 ninhos de abutre-preto ardidos (alguns ainda com crias no ninho), entre outras baixas significativas. 

Em todas as situações, destaca-se a solidariedade entre a várias instituições envolvidas, desde as autoridades, bombeiros e organizações não governamentais até aos cidadãos individuais que, mesmo no meio de vidas e bens em risco, demonstram união e coordenação na proteção da natureza e do abutre-preto. 

No Douro Internacional esta determinação foi particularmente visível na vigilância, alertas e atuação conjunta no terreno. Os parceiros LIFE Aegypius Return, e a Palombar em particular, agradecem o apoio e ação dos vigilantes e técnicos do ICNF – Direção Regional do Norte e PNDI, do PNAD (JCyL), do HV-UTAD e CIARA, do pastor Nelson Cordeiro, bombeiros, Guarda Nacional Republicana, União das Freguesias de Lagoaça e Fornos, assim como as autarquias afetadas.

Agora, com o apoio de todos, espera-se acelerar a necessária reversão dos danos e continuar a proteger o abutre-preto. 


Se quiser, pode ajudar o abutre-preto no Douro Internacional aqui.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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