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Terceiro grupo de abutres-pretos já está em aclimatação no Douro Internacional

31.03.2026
leitura de 4 minutos
Abutre-preto. Foto: Francesco Veronesi / Wiki Commons

Um grupo de cinco abutres-pretos já está a ser preparado para a reintrodução na natureza no Douro Internacional, revela a associação Palombar. O objetivo é reforçar a mais frágil e isolada colónia do país desta espécie ameaçada.

O novo grupo que ingressou na estação de aclimatação no Douro Internacional é constituído por quatro juvenis nascidos em 2025 e o Pousio, nascido na colónia da Vidigueira, em 2024. 

Os quatro juvenis foram recolhidos em setembro e outubro com sinais de debilidade e desnutrição em diferentes pontos da região Centro – Escalhão (Figueira de Castelo Rodrigo), Torredeita (Viseu), Santa Comba (Seia) e Guarda. Estiveram a ser recuperados no CERVAS – Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens, gerido pela Associação ALDEIA, em Gouveia.

O Pousio, nascido em 2024, é a primeira cria conhecida da recente colónia da Vidigueira. Algum tempo depois, e graças a uma anilha e emissor GPS/GSM, os técnicos do projeto LIFE Aegypius Return descobriram que o Pousio tinha vítima de tiro de caçadeira, tendo ficado com mais de 22 chumbos e fragmentos de projéteis nas patas e no corpo. Depois de ter sido recuperado em vários centros de recuperação de animais selvagens durante oito meses, o Pousio foi devolvido à sua colónia natal, em setembro de 2025. 

Mas nos dias que se seguiram, o Pousio não se alimentou e acabou por ser novamente, resgatado e entregue no LxCRAS, onde permaneceu até ao ingresso na aclimatação. 

“Tendo vivido apenas cerca de quatro meses em liberdade e, depois de um processo de reabilitação complexo que envolveu múltiplos procedimentos veterinários e um longo período de recuperação, o Pousio parece ter-se acostumado à presença humana e à obtenção de alimento por via artificial. Assim, não está em condições de regressar à natureza em segurança. Por esse motivo, a aclimatação dar-lhe-á uma oportunidade de reaprendizagem e de voltar a tornar-se autónomo, após a devolução à natureza”, explica a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural em comunicado.

Aclimatação no pós-incêndio

O programa de aclimatação do projeto LIFE Aegypius Return centra-se no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), que alberga uma das colónias de abutre-preto mais vulneráveis do país. 

Localizada em Fornos, junto às arribas do Douro, a estação de aclimatação foi construída num terreno do parceiro Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza e é gerida pela Palombar. A infraestrutura principal mede 15 metros de comprimento por nove de largura, sendo complementada por um contentor que alberga a enfermaria e o centro logístico. Este último assegura o sistema de videovigilância, permitindo a constante monitorização das aves. 

Todas estas infraestruturas foram severamente afetadas pelo incêndio que lavrou no PNDI no verão de 2025. “Graças aos donativos de muitas pessoas e entidades, e à célere atuação do parceiro Palombar, a estação de aclimatação e o habitat envolvente foram restaurados a tempo de completar o programa de aclimatação de 2025 e de permitir o de 2026.” 

No PNDI, oito ninhos de abutres-pretos foram afetados pelo fogo de 2025, com vários completamente destruídos. Duas a quatro crias morreram devido ao incêndio. “O restauro do habitat e das zonas de alimentação aparenta ter mantido a maioria das aves adultas no território, mas ainda é cedo para avaliar os impactos das chamas na sustentabilidade da colónia. O incêndio veio reforçar a importância do programa de aclimatação para colmatar a fragilidade desta colónia.”

Os abutres-pretos que ingressam no programa de aclimatação são juvenis dos quais não se conhece a colónia de origem. Deram entrada e foram tratados em centros de recuperação de fauna silvestre. Este ano, por motivos excecionais, o programa recebeu também o Pousio, cujo local de nascimento é conhecido. 

Durante a aclimatação, os abutres (re)aprendem os comportamentos normais da espécie, ao socializarem com vários companheiros. Do interior da estação de aclimatação, os abutres observam também os seus congéneres, e outras espécies em liberdade, no exterior e no campo de alimentação para aves necrófagas que se localiza em frente.

Durante cerca de oito meses (devolução faseada à natureza – soft release), apreendem as normais interações sociais, como alimentação, cooperação, competição, entre outras. A alimentação e os cuidados são assegurados sem que ocorra qualquer contacto com os tratadores humanos. Chegado o momento da devolução à natureza, a estação é aberta e cada abutre sai livremente quando assim entender. 

O soft release é um procedimento consolidado na conservação de abutres, com eficácia comprovada em vários países da Europa. Em comparação com técnicas alternativas, este método favorece a filopatria (fidelização à área) e é recomendado para aumentar a sobrevivência dos indivíduos reabilitados, acelerar a sua fixação ao local da aclimatação e fortalecer a estabilidade demográfica das populações.

“A maioria dos abutres-pretos anteriormente aclimatados no PNDI efetivamente tem-se mantido nas proximidades, sendo continuamente monitorizados.”

Um projeto que está a recuperar uma espécie

Em apenas três anos, o número de casais de abutre-preto (Aegypius monachus) em Portugal passou de 40 (em 2022) para entre 119 a 126 (em 2025), revelou em dezembro de 2025 o LIFE Aegypius Return.

Este projeto começou no final de 2022 com o objetivo de melhorar as condições ecológicas que permitissem consolidar o regresso do abutre-preto a Portugal, quatro décadas após a sua extinção enquanto espécie reprodutora. 

Em 2022 estimava-se que as quatro colónias então conhecidas – Douro Internacional, Serra da Malcata, Tejo Internacional e Herdade da Contenda – totalizassem apenas 44 casais reprodutores. O objetivo era conseguir duplicar este número, alcançando pelo menos 80 casais distribuídos por cinco colónias até 2027.

Em 2024 foi descoberta uma quinta colónia, que atualmente abrange os concelhos de Vidigueira e Portel. É considerado um núcleo “com grande relevância para a conservação da espécie no Alentejo”.

Mas a história de conservação do abutre-preto, hoje classificado como espécie Em Perigo de extinção, está longe ser um sucesso garantido.


Saiba mais.

Carlos Pacheco e Milene Matos explicam como se marca um abutre-preto (e para que serve).

Aqui pode descobrir tudo o que precisa saber para observar abutres-pretos, com Eduardo Santos, da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), e Gonçalo Elias, do portal Aves de Portugal.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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