A onda de solidariedade depois do incêndio que, em agosto de 2025, destruiu ninhos e instalações do projeto de conservação desta espécie Em Perigo, no Douro Internacional, permitiu atingir a meta dos 30 mil euros, anunciou hoje a associação Palombar.
A campanha de angariação de fundos “Ajudar o abutre-preto após incêndio no Douro Internacional” foi lançada em agosto de 2025 para ajudar a recuperar o que o fogo tinha destruído.

Em agosto de 2025, um incêndio deflagrou no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), em Poiares (Freixo de Espada à Cinta) e acabou por atingir a estação de aclimatação do projeto LIFE Aegypius Return, construída sobre as arribas do Douro, em Fornos. Além disso, cerca de 15 mil hectares arderam em redor.
Os conservacionistas receavam que o abutre-preto não tivesse condições para regressar à região.
Mas a campanha de angariação de fundos conseguiu reunir o financiamento considerado necessário para implementar todas as ações de recuperação e conservação desta espécie ameaçada de extinção no pós-incêndio.
Segundo a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, o valor foi doado por pessoas a título individual e coletivo, mas também por empresas e entidades como a União Internacional para a Conservação da Natureza dos Países Baixos (IUCN NL, na sigla em inglês), com o apoio da Conservation Connect, através do Green Lifeline Action Fund, um mecanismo de financiamento de emergência da IUCN NL que oferece apoio rápido a organizações e comunidades que enfrentam ameaças urgentes à conservação da natureza; a REN – Redes Energéticas Nacionais; a Lightsource bp e a Proactivetour. A verba foi concedida quer por via da campanha lançada pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural na plataforma de crowdfunding Gofundme, quer através de doações feitas diretamente a esta organização não governamental.

“Com a meta de angariação de fundos atingida, a campanha, promovida pela Palombar no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return, está encerrada. Agora, é dada continuidade aos trabalhos de mitigação dos danos e perdas e recuperação do habitat e da colónia de abutre-preto naquela área protegida.”
A colónia de abutre-preto do Douro Internacional é uma das cinco que existem em Portugal, além das colónias da Herdade da Contenda (Moura), Vidigueira, Tejo Internacional e Serra da Malcata.
Apesar de ser a mais pequena, tem sido um caso de sucesso de conservação, tendo passado de dois casais em 2019 para oito em 2025.
O que está a ser feito
Segundo a Palombar, graças ao apoio coletivo recebido, os seis abutres-pretos que estavam na estação de aclimatação aquando da ocorrência do incêndio conseguiram completar com sucesso o período de adaptação faseada ao meio e foram devolvidos à natureza no final de outubro de 2025.

Entretanto, a organização já limpou a área ardida e a removeu as infraestruturas de apoio destruídas pelo fogo. Ainda assim, foi reaproveitada a “armadura” do contentor que ficou praticamente destruído para construir um novo. “Esta infraestrutura é fundamental para apoiar o funcionamento da estação de aclimatação, sendo aqui que se encontra instalado, por exemplo, o sistema de videovigilância contínua dos abutres, bem como outros equipamentos e materiais”, explicou, em comunicado.
A verba arrecadada permitiu comprar os equipamentos necessários para substituir e garantir a autonomia e funcionamento do sistema de videovigilância que foi destruído pelo incêndio, nomeadamente painéis solares e baterias de longa duração.
Na área desta colónia de abutre-preto, a equipa da Palombar reforçou a disponibilidade de alimento para os abutres, uma medida essencial para reduzir situações de stress alimentar decorrentes deste evento adverso e garantir nutrição adequada e boa condição física antes de período reprodutor.

Ao longo destes meses, os técnicos da Palombar têm monitorizado, in loco, a colónia de abutre-preto afetada pelo incêndio. O objetivo é “avaliar o seu estado e dinâmicas após este evento devastador e obter informação essencial para a implementação eficaz das medidas definidas no plano de emergência”.
Em outubro de 2025 foram construídos e instalados três ninhos de abutre-preto e reconstruídas outras quatro plataformas-ninho que tinham sido parcialmente afetadas pelo grande incêndio.
Outra medida já implementada no terreno foi a instalação de cinco bebedouros e cinco comedouros para reforçar o alimento disponível para a fauna selvagem na zona afetada pelo incêndio.

“O aumento do número de animais silvestres na área da colónia potencia a existência, a médio e longo prazo, de carcaças no campo que servem de alimento para os abutres, garantindo desta forma, a sua auto-suficiência alimentar.”
Na zona atingida pelo incêndio realizaram‑se sementeiras para beneficiar a pecuária extensiva, essencial para a conservação do abutre‑preto e de outras espécies de abutres.

Paralelamente, estas sementeiras contribuem para o aumento da disponibilidade alimentar para a fauna silvestre, em especial para o fomento de espécies‑presa como o corço, javali, coelho‑bravo, lebre e perdiz, entre outras. “Ao acelerar a recuperação da vegetação herbácea e arbustiva após o incêndio, as sementeiras reforçam, assim, a base trófica do ecossistema, apoiando tanto a atividade agro‑pastoril sustentável, como a dinâmica ecológica das populações de ungulados e pequenos vertebrados essenciais ao equilíbrio funcional do território.”
Para minimizar a perturbação decorrente das atividades humanas na zona circundante da colónia de abutre-preto no PNDI, a Palombar está a articular-se com várias entidades locais para otimizar as medidas de gestão de habitat e conservação do abutre-preto na região.
O LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia e implementado por um consórcio que integra a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidad.