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Cinco meses depois, donativos garantem recuperação da colónia mais frágil de abutre-preto

05.02.2026
leitura de 4 minutos
Abutre-preto. Foto: Roberto Corvino

A onda de solidariedade depois do incêndio que, em agosto de 2025, destruiu ninhos e instalações do projeto de conservação desta espécie Em Perigo, no Douro Internacional, permitiu atingir a meta dos 30 mil euros, anunciou hoje a associação Palombar.

A campanha de angariação de fundos “Ajudar o abutre-preto após incêndio no Douro Internacional” foi lançada em agosto de 2025 para ajudar a recuperar o que o fogo tinha destruído.

Abutre-preto. Foto: Pedro Rego

Em agosto de 2025, um incêndio deflagrou no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), em Poiares (Freixo de Espada à Cinta) e acabou por atingir a estação de aclimatação do projeto LIFE Aegypius Return, construída sobre as arribas do Douro, em Fornos. Além disso, cerca de 15 mil hectares arderam em redor.

Os conservacionistas receavam que o abutre-preto não tivesse condições para regressar à região.

Mas a campanha de angariação de fundos conseguiu reunir o financiamento considerado necessário para implementar todas as ações de recuperação e conservação desta espécie ameaçada de extinção no pós-incêndio.

Segundo a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, o valor foi doado por pessoas a título individual e coletivo, mas também por empresas e entidades como a União Internacional para a Conservação da Natureza dos Países Baixos (IUCN NL, na sigla em inglês), com o apoio da Conservation Connect, através do Green Lifeline Action Fund, um mecanismo de financiamento de emergência da IUCN NL que oferece apoio rápido a organizações e comunidades que enfrentam ameaças urgentes à conservação da natureza; a REN – Redes Energéticas Nacionais; a Lightsource bp e a Proactivetour. A verba foi concedida quer por via da campanha lançada pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural na plataforma de crowdfunding Gofundme, quer através de doações feitas diretamente a esta organização não governamental.

Um dos abutres-pretos que completou o período de aclimatação na estação no PNDI. Foto: Uliana de Castro

“Com a meta de angariação de fundos atingida, a campanha, promovida pela Palombar no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return, está encerrada. Agora, é dada continuidade aos trabalhos de mitigação dos danos e perdas e recuperação do habitat e da colónia de abutre-preto naquela área protegida.”

A colónia de abutre-preto do Douro Internacional é uma das cinco que existem em Portugal, além das colónias da Herdade da Contenda (Moura), Vidigueira, Tejo Internacional e Serra da Malcata.

Apesar de ser a mais pequena, tem sido um caso de sucesso de conservação, tendo passado de dois casais em 2019 para oito em 2025.

O que está a ser feito

Segundo a Palombar, graças ao apoio coletivo recebido, os seis abutres-pretos que estavam na estação de aclimatação aquando da ocorrência do incêndio conseguiram completar com sucesso o período de adaptação faseada ao meio e foram devolvidos à natureza no final de outubro de 2025.

Ninho artificial de abutre-preto construído na área da colónia do PNDI. Foto: Palombar

Entretanto, a organização já limpou a área ardida e a removeu as infraestruturas de apoio destruídas pelo fogo. Ainda assim, foi reaproveitada a “armadura” do contentor que ficou praticamente destruído para construir um novo. “Esta infraestrutura é fundamental para apoiar o funcionamento da estação de aclimatação, sendo aqui que se encontra instalado, por exemplo, o sistema de videovigilância contínua dos abutres, bem como outros equipamentos e materiais”, explicou, em comunicado.

A verba arrecadada permitiu comprar os equipamentos necessários para substituir e garantir a autonomia e funcionamento do sistema de videovigilância que foi destruído pelo incêndio, nomeadamente painéis solares e baterias de longa duração.

Na área desta colónia de abutre-preto, a equipa da Palombar reforçou a disponibilidade de alimento para os abutres, uma medida essencial para reduzir situações de stress alimentar decorrentes deste evento adverso e garantir nutrição adequada e boa condição física antes de período reprodutor.

Casal abutre-preto monitorizado na área do Douro Internacional. Foto: Palombar

Ao longo destes meses, os técnicos da Palombar têm monitorizado, in loco, a colónia de abutre-preto afetada pelo incêndio. O objetivo é “avaliar o seu estado e dinâmicas após este evento devastador e obter informação essencial para a implementação eficaz das medidas definidas no plano de emergência”.

Em outubro de 2025 foram construídos e instalados três ninhos de abutre-preto e reconstruídas outras quatro plataformas-ninho que tinham sido parcialmente afetadas pelo grande incêndio.  

Outra medida já implementada no terreno foi a instalação de cinco bebedouros e cinco comedouros para reforçar o alimento disponível para a fauna selvagem na zona afetada pelo incêndio.

Comedouros e bebedouros instalados após o incêndio. Foto: Palombar

“O aumento do número de animais silvestres na área da colónia potencia a existência, a médio e longo prazo, de carcaças no campo que servem de alimento para os abutres, garantindo desta forma, a sua auto-suficiência alimentar.”

Na zona atingida pelo incêndio realizaram‑se sementeiras para beneficiar a pecuária extensiva, essencial para a conservação do abutre‑preto e de outras espécies de abutres.

Área ardida antes e depois das sementeiras. Foto: Palombar

Paralelamente, estas sementeiras contribuem para o aumento da disponibilidade alimentar para a fauna silvestre, em especial para o fomento de espécies‑presa como o corço, javali, coelho‑bravo, lebre e perdiz, entre outras. “Ao acelerar a recuperação da vegetação herbácea e arbustiva após o incêndio, as sementeiras reforçam, assim, a base trófica do ecossistema, apoiando tanto a atividade agro‑pastoril sustentável, como a dinâmica ecológica das populações de ungulados e pequenos vertebrados essenciais ao equilíbrio funcional do território.”

Para minimizar a perturbação decorrente das atividades humanas na zona circundante da colónia de abutre-preto no PNDI, a Palombar está a articular-se com várias entidades locais para otimizar as medidas de gestão de habitat e conservação do abutre-preto na região.

LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia e implementado por um consórcio que integra a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidad.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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