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Como se monta um ninho de abutre-preto

27.02.2026
leitura de 4 minutos
Foto: Samuel Infante

A tarefa de construir ninhos para o maior abutre da Europa, e de reforçar outros já existentes, é desafiadora. Samuel Infante, que trabalha com a espécie desde o seu regresso a Portugal, em 2010, e que tem participado nas ações do projeto LIFE Aegypius Return, conta-nos o que acontece.

Foi ainda adolescente, quando em 1992 se instalaram as primeiras plataformas-ninho para o abutre-preto (Aegypius monachus) no que é hoje o Parque Natural do Tejo Internacional, que Samuel Infante participou pela primeira vez numa destas ações. Na altura, o objetivo era atrair esta grande ave de regresso a Portugal, de onde estava desaparecida desde a década de 1970, contou à Wilder este responsável, que hoje tem 48 anos e está ligado à Plataforma de Defesa do Tejo Internacional.

Mas essa primeira tentativa não teve sucesso. Foi preciso esperar quase duas décadas para que o abutre-preto voltasse a reproduzir-se no país, começando precisamente na área protegida que acompanha o Tejo junto à fronteira. “Provavelmente com aves vindas de uma colónia próxima, do lado espanhol”, adianta Samuel Infante, que na altura dirigia o núcleo regional de Castelo Branco da Quercus.

Uma cria de abutre-preto (Aegypius monachus) marcada no ninho no Tejo Internacional, no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return. Foto: Samuel Infante

Hoje, contam-se entre 119 a 126 casais. No entanto, tanto na Beira Interior como noutras partes do país, desde há muito que faltam bons locais disponíveis para a nidificação desta espécie, de preferência árvores altas e robustas. “Com a campanha do trigo [durante o salazarismo] e depois com a expansão dos eucaliptais, destruíram-se milhares de hectares de árvores mais antigas que estavam mais bem preparadas.”

No Tejo Internacional, que abriga a maior colónia portuguesa de abutre-preto, a paisagem é dominada por sobreiros e azinheiras, muitos com uma altura inferior à que estas aves escolheriam, se tivessem opção. Ainda para mais, por vezes as árvores revelam-se fracas para aguentar o peso extra, que vai aumentando com o regresso do casal ao mesmo ninho, ano após ano, com a deposição de mais materiais. “Alguns ninhos muito antigos, com várias décadas, chegam a pesar 200 quilos, embora 100 quilos seja a norma”, comenta Samuel. Resultado? Por vezes tudo desaba e a queda é fatal para o ovo ou a cria, ou mesmo para os progenitores.

Restos de um ninho de abutre-preto que desabou do cimo de um sobreiro durante a tempestade Kristin, no Tejo Internacional. Foto: Samuel Infante

Para aumentar a segurança e os locais disponíveis para a nidificação desta espécie ameaçada, a aposta tem sido a instalação de plataformas-ninho e o reforço ou reconstrução dos ninhos naturais mais instáveis. Desde o início do projeto LIFE Aegypius Return (2022-2027), por exemplo, foram instaladas 89 plataformas-ninho e reconstruídos ou reforçados outros 73 ninhos.

Muito mais que um cesto metálico

Para árvores mais baixas que medem normalmente seis a oito metros de altura, como as do Tejo Internacional, a opção preferida para os novos ninhos tem sido uma plataforma metálica – uma espécie de grande cesto, explica Samuel Infante, que entre outubro e o início de 2026 assegurou este tipo de ações no Tejo Internacional, mas também no Vale do Coa e em Espanha, em colónias da espécie junto à fronteira.

No Tejo Internacional, quando acaba a estrada, a única opção é levar a pé vários materiais pesados até às árvores já definidas, às vezes caminhando por encostas muito íngremes e cheias de vegetação. “Só se consegue levar tudo, incluindo o cesto da plataforma que é bastante grande, quando somos pelo menos três ou quatro pessoas a carregar o material”, descreve Samuel.

Chegados ao destino, estas plataformas-ninho ficam encostadas ao topo da copa ou então de lado, “mas sempre assegurando espaço suficiente para os abutres aterrarem”. Além de se amarrarem à árvore, ficam seguras ao chão por uma viga de aço, construída a partir do encaixe de vários segmentos e fixada ao solo. “Têm bastante resistência. Já tivemos no passado árvores que ficaram praticamente sem copa, devido a incêndios por exemplo, e esse ninho resistiu e continou a ser usado.”

Samuel sobe ao topo da árvore para colocar o cesto metálico juntamente com outros membros da equipa, “sempre com cordas de segurança”, e instala-o já forrado com ramos de árvores e outros materiais da natureza, para tudo ficar o mais natural possível. Por cima de tudo, é norma espalharem-se ramagens de esteva (Cistus ladanifer), que nunca faltam nos ninhos construídos por estas aves.

Cesto metálico forrado com os materiais do ninho, pronto para ser colocado no local. Foto: Samuel Infante

Escalar a 14 metros de altura

Consoante as regiões, os abutres-pretos escolhem diferentes árvores para nidificar. No Douro Internacional, por exemplo, além de sobreiros e azinheiras, instalam-se também em zimbreiros, à beira das ravinas que abraçam o rio. Já na Herdade da Comporta, Baixo Alentejo, e também na Sierra de Gata, do lado espanhol da fronteira junto à Serra da Malcata, aproveitam os pinheiros-bravos (Pinus pinaster) que ali existem.

Mas também nesses casos, chegar finalmente à árvore certa pode ser o primeiro obstáculo. “Podem ser zonas de muito difícil acesso, como por exemplo na Sierra de Gata, com áreas montanhosas em que os acessos se fazem exclusivamente a pé; por vezes temos de caminhar quilómetros até à árvore que foi selecionada por ter as características certas.”

Nos pinheiros-bravos, ao contrário de sobreiros e azinheiras, o trabalho faz-se muito mais longe do chão, entre 10 a 12 metros de altura ou mesmo a 14 metros, como já aconteceu a Samuel, que usa equipamento de escalada. Ao contrário das árvores mais baixas, ali tem de subir sozinho até ao topo, enquanto a restante equipa aguarda mais abaixo.

Construção de uma plataforma no cimo de um pinheiro-bravo (Pinus pinaster), na ZEPA (Zona de Proteção Especial para as Aves) de Sierra de Gata, em Espanha. Foto: DR

Uma vez que não é possível instalar as plataformas metálicas tão distantes do solo, a alternativa é montar uma plataforma sólida e forte com ramos da própria árvore, que Samuel entrelaça uns nos outros no topo do pinheiro. “Fixo tudo com metal e arames e vou juntando mais material lenhoso e materiais que recolhemos no local, como os ramos de esteva”, descreve.

A partir de meados de janeiro, estas tarefas já não se fazem para não perturbar a época de reprodução dos abutres-pretos. Se tudo correr bem, a partir de abril nascerão novas crias, muitas delas em ninhos mais seguros.


Saiba mais.

Recorde como se faz a marcação das crias de abutre-preto, ainda enquanto estão no ninho.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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