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Guardiões das Flores: O que podemos fazer para proteger os polinizadores?

27.08.2025
leitura de 7 minutos

Pequenas ações podem ter grande impacto. Aqui ficam excelentes ideias para começar já a ajudar estas espécies tão importantes. Esta é mais uma crónica da série “Guardiões das Flores”, uma parceria entre a Wilder e o projeto PolinizAÇÃO.

Acordas e preparas o teu pequeno-almoço: pão com queijo, um iogurte e uma peça de fruta. Ao almoço a escolha é uma salada de frango com alface, tomate, milho, cenoura, maçã, caju e, para rematar, uma mousse de chocolate e um café.

Agora imagina que os polinizadores desapareciam.

Destes alimentos, quais continuariam a estar disponíveis? Só o pão, uma vez que os cereais são polinizados pelo vento, porque tudo o resto, direta ou indiretamente, depende dos polinizadores.

Os alimentos aparecem no supermercado, sem pensarmos no papel dos polinizadores, peças fundamentais nos ecossistemas e que contribuem para o nosso bem-estar de muitas formas diferentes. Ajudam a manter a diversidade das plantas nos ecossistemas terrestres, asseguram a produção de muitos dos alimentos que consumimos e sustentam inúmeras cadeias alimentares.

Mas, infelizmente, estão em declínio. São afetados negativamente por diferentes ameaças que incluem a perda e fragmentação do habitat, o uso excessivo de pesticidas, a proliferação de espécies invasoras e as alterações climáticas, entre outros (podes saber mais aqui). Perante este cenário, o que podemos fazer para travar este declínio e ajudar os polinizadores a recuperar?

Paisagem em mosaico, alternando áreas produtivas de vegetação herbácea, arbustiva e arbórea com manchas de vegetação natural. Abitureiras, concelho de Santarém. Foto: Helena Ceia

A boa notícia é que todos podemos ter um papel ativo na mudança. Desde as escolhas que cada um de nós faz no seu dia-a-dia até às decisões políticas e práticas de gestão do território.

Eis algumas iniciativas que podem fazer a diferença.

Valorizar práticas agrícolas e florestais sustentáveis

Grande parte do nosso território é ocupada por áreas de produção agrícola ou florestal. No entanto, muitas das práticas tradicionais estão a ser substituídas por práticas intensivas.

Hoje, uma parte significativa destas áreas produtivas é ocupada por monoculturas, plantações dominadas por uma única espécie vegetal. Estas culturas apresentam maior risco de pragas e doenças, exigindo a aplicação de mais pesticidas, que eliminam igualmente muitos outros organismos essenciais para a saúde das culturas e dos solos.

A baixa biodiversidade neste tipo de culturas reduz vários serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, como a polinização, a reciclagem de nutrientes e o controlo natural de pragas.

A falta de organismos que reciclam nutrientes – como fungos, bactérias ou até minhocas – leva a solos mais pobres, tornando necessária a aplicação de fertilizantes, o que traz custos acrescidos para os agricultores.

No caso da falta de polinizadores, recorre-se a outras estratégias, nomeadamente a utilização de polinizadores geridos (criados pelo homem) como a abelha-do-mel ou o abelhão terrestre, ou a técnicas dispendiosas artificiais e dispendiosas de polinização mecânica.

Assim, é fundamental aumentar a diversidade estrutural e biológica destas áreas, o que pode ser alcançado mantendo manchas de habitats naturais e semi-naturais e criando faixas florais de espécies silvestres autóctones, importantes para os polinizadores.

Mosaico agrícola, em Vale Prazeres, Castelo Branco. Olivais tradicionais, pomares de cereja, culturas anuais, entre outros, separados por bordaduras com vegetação espontânea. Foto: Sílvia Castro

Pode parecer que se perde área de cultivo mas, na verdade, estas manchas levam a uma maior diversidade e abundância de polinizadores, o que aumenta a produtividade da área cultivada e a qualidade dos produtos.

É particularmente importante que as misturas florais utilizem espécies autóctones (i.e., provenientes da região onde são instaladas) e que floresçam em diferentes épocas do ano, dado que a floração das culturas agrícolas é limitada a um período restrito, reduzindo a disponibilidade de alimento para a sobrevivência dos polinizadores ao longo do ano. 

A recuperação e a manutenção de zonas ribeirinhas, clareiras, sebes, charcos, muros de pedra e outras estruturas ecológicas nas paisagens agrícolas e florestais ajudam a garantir alimento e abrigo para todo o tipo de vida selvagem, incluindo os polinizadores. Adicionalmente, estes elementos, quando presentes na paisagem de forma consistente, promovem a conectividade da paisagem e permitem a deslocação dos polinizadores.

Outras escolhas simples também fazem diferença: optar por métodos de controlo natural de pragas, escolher produtos biológicos e evitar pulverizações em plantas em flor e aplicar produtos apenas quando estritamente necessário, nunca ultrapassando as doses recomendadas.

Devemos apelar a que estes cuidados sejam adotados não só em áreas agrícolas e florestais, mas também nos espaços públicos das áreas urbanas.

Fazer a diferença também nas cidades

Mesmo quem vive em ambiente urbano pode ajudar os polinizadores!

Jardins, hortas, varandas e até pequenas floreiras podem fazer a diferença se forem plantadas com diferentes plantas autóctones – muitas das quais aromáticas e comestíveis-, escolhidas de modo a que haja flores ao longo do ano.

Exemplo de quintal com área de relvado e mancha de vegetação espontânea. Foto: Helena Ceia

Zonas com vegetação natural no jardim ou na horta representam excelentes refúgios para muitos insetos, por fornecerem alimento ou zonas de nidificação ou de abrigo. Pequenas áreas de solo nu ou com materiais como areia ou madeira morta com cavidades são indispensáveis para muitas abelhas e outros polinizadores que precisam desses materiais para fazer os seus ninhos e criar a sua descendência.

É igualmente fundamental mudar a forma como os espaços verdes públicos são geridos. Reduzir o uso de pesticidas, espaçar os cortes da vegetação e fazer podas adequadas permitem manter uma vegetação diversificada, com flores para os polinizadores.

Um jardim público não tem que ser só relva, que exige um consumo elevado de água e manutenção constante. Pode combinar diferentes espaços, incluindo também prados espontâneos, intercalados com árvores e arbustos, também fundamentais para aumentar a biodiversidade.

Parque urbano no concelho de Oeiras – área de relvado com bordadura de vegetação arbustiva e mancha de vegetação espontânea. Foto: Helena Ceia

Deixar algumas zonas com vegetação natural é uma opção consciente e ecológica, não é sinal de desleixo. Evitar cortar a vegetação quando está em flor permite que as plantas floresçam, produzam sementes e, assim, assegurem a sua continuidade e diversidade.

Alguns municípios já estão a adotar estas práticas amigas dos polinizadores e já se observa o efeito de contágio. Também aqui, como cidadãos, podemos e devemos ter um papel mais ativo, manifestando o nosso apoio ao uso de práticas mais ecológicas.

Conhecer, sensibilizar e envolver

A conservação dos polinizadores precisa de conhecimento e esse conhecimento cresce quando mais pessoas se envolvem.

Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian – vegetação selecionada tendo em vista a ocorrência de polinizadores. Foto: Helena Ceia

A participação em projetos de ciência cidadã – como os Censos das Borboletas de Portugal, a Rede de Estações de Borboletas Noturnas ou o PolinizAÇÃO- interações planta-polinizador – são apenas alguns exemplos de projetos existentes em Portugal, para os quais qualquer um de nós pode contribuir com as suas observações de polinizadores e aprender a identificar os grandes grupos de insetos.

Para isso, podem ser usadas várias aplicações disponíveis, como ButterflyCount, Biodiversity4all (ou iNaturalist) ou Fitcount.

Participar em bioblitzs  (atividades de inventariação rápida de biodiversidade) com a família e amigos é uma ótima forma de promover o contacto com a natureza e de aprender mais sobre o mundo natural que nos rodeia.

Jardim para os polinizadores. Imagem: Buglife

E ensinar desde cedo é fundamental. Incluir o tema dos polinizadores e da polinização nos currículos escolares dos diferentes níveis de ensino é urgente, de forma a cativar e alertar desde cedo as crianças e jovens (e, por extensão, as suas famílias) para a importância dos polinizadores. A médio e longo prazo, esta consciencialização pode também despertar vocações e levar mais estudantes do ensino superior a especializarem-se nesta área, onde ainda existe uma grande carência de profissionais.

As escolhas que fazemos ao comprar fruta e vegetais também são importantes. Ao optar por alimentos que não foram produzidos em sistemas intensivos, estamos não só a zelar pela nossa saúde mas também a enviar uma mensagem como consumidores, incentivando uma produção alimentar mais sustentável.  

Exigir políticas públicas ambiciosas e coerentes

A nível nacional e europeu, estão a ser discutidas e implementadas estratégias para proteger os polinizadores e os seus habitats, de que são exemplos o Regulamento do Restauro da Natureza e o Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores em Portugal.

É fundamental uma abordagem integrada ao problema que envolva desde o início os vários setores, de forma a obtermos uma utilização mais eficaz das ferramentas e políticas existentes.

Placa explicativa sobre o porquê da manutenção da vegetação. Foto: Freguesia de Rio de Mouro

Enquanto cidadãos, temos o direito (e o dever), nomeadamente através das consultas públicas, de acompanhar, apoiar e exigir que estas políticas se traduzam em ações concretas no território.

O esforço é coletivo! 

A conservação dos polinizadores não depende apenas dos especialistas, dos agricultores ou dos decisores políticos. Depende de todos nós. Ao transformar os nossos espaços, escolhas e comportamentos em benefício dos polinizadores, estamos a contribuir para um território mais resiliente e favorável à biodiversidade. Não queremos chegar ao ponto de ter de realizar a polinização manualmente, como já acontece em algumas partes do mundo…

Vegetação nas ruas de Espinho

Proteger os polinizadores é proteger o nosso futuro. Pequenas ações podem ter grande impacto. Faz a tua parte, podes começar hoje mesmo!


Helena Ceia é engenheira silvicultora e trabalha no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Nesta crónica colaboraram ainda como autores Carla Rego e Sílvia Castro. Carolina Caetano, da Universidade de Coimbra, assegurou a revisão do artigo.

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