Novo livro de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta dá-nos a conhecer episódios marcantes da história da biodiversidade no território português.
Destinado tanto a leitores interessados na natureza como aos que gostavam de compreender melhor as mudanças destas últimas décadas, chegou recentemente às livrarias o livro “Portugal Selvagem – Extinções e Regressos”, onde podemos conhecer 16 histórias de espécies que se extinguiram no território nacional. Mas não só. Alguns desses animais regressaram finalmente, muitos anos mais tarde, e há esperança de que outros, como o castor e o quebra-ossos, possam fazê-lo em breve. “Quando há vontade de fazer e de não desistir, muitas espécies ainda podem voltar”, sublinha Miguel Brandão Pimenta, numa entrevista dada pelos dois autores à Wilder.
Como surgiu a ideia de escreverem este livro?
Paulo Caetano: Surgiu, em primeiro lugar, da vontade de perceber o que está a acontecer à fauna selvagem portuguesa. Ao longo dos anos fomos acompanhando histórias de espécies que desapareceram, outras que regressaram e outras que começam novamente a aparecer no território. Percebemos que, por detrás de cada uma dessas histórias, havia uma narrativa muito maior sobre a transformação da paisagem portuguesa e sobre a relação entre o Homem e a Natureza.
Interessava-nos contar histórias de regresso. O lince-ibérico, por exemplo, é uma história extraordinária de recuperação e demonstra até onde podem chegar a ciência, a conservação e as políticas públicas. Mas há outros regressos que aconteceram de forma espontânea, como o do abutre-preto ou da águia-imperial, e há ainda espécies que continuam a existir nas nossas fronteiras naturais, como o castor, o urso ou o quebra-ossos, e que ocasionalmente atravessam a fronteira política com Portugal.
Ao mesmo tempo, quisemos olhar para o outro lado: para as espécies que desapareceram e nunca regressarão. O livro acaba por ser construído entre esses dois movimentos: os animais que estamos a perder e aqueles que podem voltar. E essa perspectiva permite-nos falar não apenas de animais, mas de alterações climáticas, transformação da paisagem, abandono rural, perseguição humana e, sobretudo, das escolhas que fazemos hoje relativamente ao nosso território.

A que leitores se destina?
Paulo Caetano: Pensámos num público bastante amplo. O livro pode interessar a quem já acompanha as questões da conservação da natureza e da biodiversidade, mas não é necessário ter conhecimentos prévios de biologia ou ecologia para o ler.
Tentámos escrever uma obra rigorosa, baseada em investigação científica e histórica, mas que pudesse ser lida como um conjunto de histórias. Cada espécie tem uma história própria, com protagonistas, conflitos, desaparecimentos e regressos.
No fundo, gostaríamos que o livro chegasse tanto ao leitor interessado na natureza como àquele que simplesmente quer compreender melhor como mudou Portugal nas últimas décadas. Porque falar de animais selvagens é também falar de agricultura, floresta, rios, montanhas, aldeias, caça, alterações climáticas e das profundas transformações sociais e económicas do mundo rural.

Como fizeram a seleção das espécies cujas histórias nos contam neste livro?
Paulo Caetano: Não quisemos fazer um catálogo da fauna portuguesa nem selecionar simplesmente as espécies mais emblemáticas. Procurámos construir uma narrativa através de espécies que permitissem contar diferentes histórias sobre a transformação do território.
Havia, desde logo, espécies que regressaram ou estão a regressar — algumas pela intervenção direta do Homem, outras de forma natural e outras ainda que continuam a ser visitantes ocasionais. O lince-ibérico, a águia-pesqueira, o abutre-preto, a águia-imperial ou os flamingos permitem-nos contar diferentes modelos de recuperação.
Depois quisemos incluir espécies que desapareceram definitivamente de Portugal. O esturjão, o zebro, o auroque, o elefante antigo ou o leão-das-cavernas permitem perceber que as extinções podem ter causas muito diferentes: perseguição humana, transformação dos habitats ou alterações climáticas.
Portanto, o critério principal foi a história que cada espécie nos permitia contar. Juntas, estas histórias permitem construir um retrato mais amplo da evolução da biodiversidade portuguesa e das ameaças que enfrentamos atualmente.

Quanto tempo demorou a investigação para esta obra e quais foram as principais fontes a que recorreram?
Paulo Caetano: A investigação foi longa e não começou propriamente quando decidimos escrever este livro. Algumas destas espécies acompanham o nosso trabalho há muitos anos, através de livros anteriores, documentários, artigos e contactos com investigadores e conservacionistas.
Para este livro fizemos uma pesquisa bibliográfica muito extensa, consultando trabalhos científicos, teses académicas, estudos de conservação, documentos históricos e peças jornalísticas. Mas uma parte fundamental da investigação foi feita através de entrevistas. Falámos diretamente com investigadores e protagonistas que acompanham estas espécies no terreno e que nos ajudaram a compreender não apenas os dados científicos, mas também aquilo que acontece longe dos números.
E houve uma particularidade importante no nosso método de trabalho: eu e o Miguel dividimos a escrita dos capítulos, mas nunca dividimos a investigação. Cada um fez as suas pesquisas e depois partilhámos informação, documentos, contactos e descobertas. Mesmo quando um capítulo estava a ser escrito por um de nós, o outro continuava envolvido na investigação. Foi, por isso, verdadeiramente um trabalho a quatro mãos.
Essa cumplicidade foi particularmente importante porque algumas das melhores histórias surgiram precisamente durante as conversas com as pessoas que trabalham no terreno. Em muitos casos, uma referência encontrada num artigo científico levou-nos a outra pessoa, que nos conduziu a outro documento ou a uma história que acabou por transformar a forma como olhámos para determinada espécie.
No fundo, a investigação foi uma espécie de cadeia de pistas: começámos muitas vezes num documento ou num trabalho científico e acabámos no terreno, a conversar com quem conhece estas espécies por dentro.

Das diferentes histórias que aqui contam, quais foram as que mais vos surpreenderam e porquê?
Miguel Brandão Pimenta: De uma maneira ou de outra, todas as espécies foram uma surpresa, mas realço a do lince-ibérico, do abutre-preto, da águia-imperial e da águia-pesqueira. Não nos podemos esquecer de que a segunda metade do século passado, sobretudo as últimas três décadas, foi marcada por um pessimismo crescente. Muitas espécies da nossa fauna, em particular as grandes aves de rapina, tinham desaparecido como nidificantes em Portugal, e havia a ideia de que algumas delas dificilmente voltariam.
Mas, de todo o conjunto, talvez os casos que mais me surpreenderam sejam o do lince e o da águia-pesqueira. O lince, pela extraordinária recuperação da população ibérica, depois de ter estado à beira da extinção e de ter beneficiado de um programa de reprodução em cativeiro que permitiu reforçar as populações selvagens. E a águia-pesqueira por uma razão diferente: porque o seu regresso foi sobretudo o resultado da persistência de um pequeno grupo de investigadores portugueses que acreditou ser possível trazer novamente a espécie para Portugal e trabalhou durante anos para que isso acontecesse.
Que lições podemos retirar de todas estas narrativas?
Miguel Brandão Pimenta: A grande lição que podemos tirar é que nunca devemos dar uma espécie como perdida. O regresso da águia-pesqueira, da águia-imperial, do abutre-preto, do lince, da cabra-montês e até do esquilo mostra-nos isso mesmo. Com vontade, persistência e colaboração, é possível recuperar espécies que quase desapareceram.
No fundo, fica uma mensagem de esperança: quando há vontade de fazer e de não desistir, muitas espécies ainda podem voltar. E há ainda uma outra lição que não devemos esquecer: em muitos destes regressos, beneficiámos directamente do trabalho feito pelo país vizinho. Espanha conservou populações que nós tínhamos perdido e, em vários casos, foi a partir delas que estas espécies voltaram a Portugal. A natureza não conhece fronteiras, e a conservação também não deveria conhecer.

Depois do livro “Feras e Homens”, sobre a fauna do Portugal Medieval, e agora deste novo livro, na vossa opinião ainda há espaço para novas obras de divulgação científica sobre a história da fauna em Portugal?
Miguel Brandão Pimenta: Sem dúvida. E não podemos esquecer “O Urso-pardo em Portugal — Crónica de uma Extinção”, publicado em 2017. Com estes três livros, fomos percorrendo diferentes momentos da história da nossa fauna, mas há ainda muito por descobrir e contar. O passado da fauna em Portugal continua a ser um território pouco explorado e há espaço para muitas outras histórias. Uma época que particularmente nos fascina é a Idade Moderna.
Já escolheram o tema do próximo livro?
Miguel Brandão Pimenta: Ainda não está decidido. Mas, seguindo um pouco a linha de “Feras e Homens – A Fauna no Portugal Medieval”, o próximo livro poderá debruçar-se precisamente sobre a fauna na Idade Moderna, entre os séculos XVI e XIX, e sobre as grandes mudanças que então se verificaram. Mas, por enquanto, fica apenas a ideia.

PORTUGAL SELVAGEM – EXTINÇÕES E REGRESSOS
Por Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta
Ilustrações: Patrícia Furtado
Editora: Penguin
Data de publicação: Agosto de 2026
Número de páginas: 189
Preço: 20,95 euros