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O andorinhão-preto está ameaçado? O que podemos fazer

19.05.2026
leitura de 6 minutos
Andorinhão-preto (Apus apus). Foto: Alexis Lours/WikiCommons

Os números de andorinhões-pretos podem estar a diminuir, tal como acontece noutros países europeus, alerta o coordenador do projeto Andorin, que explica como podemos contribuir para a conservação destas aves tão importantes no combate contra pragas florestais e agrícolas e insetos vetores de doenças.

Aves migradoras escuras de asas compridas e cauda bifurcada, e por isso confundidos erradamente com as andorinhas, os andorinhões-pretos (Apus apus) passam praticamente toda a vida a voar, mesmo enquanto dormem. Vindos de África, regressam todas as primaveras a Portugal para nidificar e cuidarem das crias. No entanto, é possível que por cá a espécie esteja em regressão, à semelhança do que está a acontecer noutros países europeus, avisa Vasco Flores, coordenador do projeto Andorin.

“O que sabemos é que nalguns países europeus onde são feitos trabalhos de monitorização desta espécie de longo prazo, os resultados são desanimadores. Em Espanha a tendência populacional observada entre 1998 e 2018 indica um declínio de cerca de 40%, enquanto que no Reino Unido entre 1995 e 2024 a população diminuiu 72%”, indicou à Wilder este ecólogo e fotógrafo de natureza e vida selvagem, que há poucos anos lançou o Andorin. Este projeto tem como objetivo estudar e contribuir para a conservação das andorinhas e andorinhões em Portugal.

Andorinhões-pretos. Foto: Keta / Wiki Commons

Em território espanhol, o andorinhão-preto está classificado como Vulnerável desde 2021, enquanto que no Reino Unido faz parte da lista de aves ameaçadas. “Por cada 10 andorinhões-pretos que passavam nos nossos céus em 1995, havia apenas cerca de três em 2022”, explica a ONG britânica RSPB, que se dedica à conservação das aves naquele país.

A questão é que esta redução de números também pode estar a acontecer em Portugal: “é a sensação que temos, embora não existam dados que o confirmem”, nota Vasco Flores. Por enquanto, tal como se passa com o seu congénere andorinhão-pálido (Apus pallidus), estas aves estão classificadas como Pouco Preocupantes pela Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental (2022).

Já outras espécies do mesmo grupo, mas menos comuns, foram avaliadas com maior risco de extinção: o andorinhão-cafre (Apus caffer) é considerado Vulnerável e o andorinhão-real (Tachymarptis melba) está Quase Ameaçado. Nos dois casos isso acontece porque têm poucos casais reprodutores em Portugal, mas ambas as espécies estão “em expansão” e “à partida não carecem de grandes cuidados”, explica o coordenador do Andorin, que acrescenta uma ressalva: “a única preocupação reside no facto de quase metade dos locais de nidificação conhecidos de andorinhão-real serem em pontes, o que faz com que a espécie esteja de certa maneira dependente de como é feita a manutenção destas infraestruturas.”

Andorinhão-preto ou pálido?

Quanto ao andorinhão-preto, Vasco Flores acredita que faz falta uma monitorização mais focada nesta espécie. “O principal problema dos trabalhos até hoje realizados no nosso país, relativos à distribuição de andorinhões enquanto nidificantes, é a dificuldade em distinguir o andorinhão-preto do andorinhão-pálido, seu congénere”, explica. Não ajuda o facto de ambos terem cores e formatos semelhantes e de serem quase sempre observados em contraluz.

E por isso, apesar de já haver muitos materiais disponíves que ajudam a distinguir as duas espécies, “são comuns os erros de identificação.” Em caso de dúvida, aliás, é mais habitual decidir que se trata de um andorinhão-preto, uma vez que este “é historicamente uma espécie mais comum e melhor distribuída” em Portugal.

Mas como é que se fez nos outros países? Tanto em Espanha como no Reino Unido, o estatuto desfavorável da espécie foi confirmado graças a programas de monitorização semelhantes ao Censo de Aves Comuns (conhecido também pela sigla CAC, em Portugal), que consiste na monitorização de aves nidificantes, ano após ano, com recurso a voluntários e a contagens sistematizadas.

No entanto, “como o programa no nosso país não tem a abrangência desejada e tal como os demais não está vocacionado para aves com grande mobilidade como os andorinhões, julgo que para termos uma noção das tendências das populações teríamos de pensar num programa com um esforço dirigido especificamente a estas espécies -justifica o mesmo responsável – de momento não sabemos com rigor nem a distribuição nem a tendência das populações destas aves”.

O que fazer

É verdade que os andorinhões-pretos e continuam a ser relativamente fáceis de observar quando estão em Portugal, entre abril e o início de agosto, mesmo que se confirme a descida de números, até porque muitas destas aves nidificam nos telhados de vilas e cidades. Todavia, o coordenador do Andorin avisa que isso não é motivo para ignorar os cuidados a ter, nem com esta ave nem com outros andorinhões. “É muito importante que se preservem as espécies que são muito comuns, sobretudo aquelas com que partilhamos o espaço urbano e que nos prestam importantes serviços ecossistémicos”, sublinha.

Contas feitas, os cientistas estimam que um andorinhão captura em média cerca de 1000 invertebrados por dia, entre grandes quantidades de insetos e aranhas. “Existindo invertebrados com fortes impactos na produção agrícola e florestal, e outros que são vetores de doenças, faz com que a preservação destas aves estritamente insectívoras nos pareça uma prioridade.”

Além do aumento das monoculturas agrícolas e do recurso habitual a pesticidas, que “têm um grande impacto na diversidade e abundância” das presas de que se alimentam estas aves, outra ameaça importante é a reabilitação de edifícios históricos – como sucedeu recentemente com a muralha de Trancoso, no distrito da Guarda, por exemplo.

Nos últimos anos, muitos monumentos foram alvo de obras de restauro, devido ao aumento do dinheiro disponível, mas muitas vezes esses trabalhos acontecem “durante o período de nidificação das aves e sem considerar a sua presença, terminando com as cavidades e frestas obstruídas”, descreve Vasco Flores.

“Embora perceba pouco de técnicas de construção, onde parecem ter havido mudanças mais significativas é nos telhados, em que os edifícios depois de intervencionados surgem com os remates das telhas sem qualquer fresta por onde as aves possam entrar. São centenas de exemplos, sobretudo igrejas, que foram restauradas desta forma nos últimos anos.” 

Andorinhão a entrar no ninho, depois de restauro em edifício no Porto. Foto: Vasco Flores

Para contrariar este problema, as autarquias podem aplicar duas medidas, explica o coordenador do Andorin. Primeiro, identificar e proteger os atuais locais de nidificação destas aves; nas novas construções, assegurar condições que permitam abrigar novas colónias. Foi o que sucedeu recentemente no Porto, com uma espécie ainda rara em Portugal continental, o andorinhão-real.

“Sem qualquer prejuízo para a estética ou funcionalidade do edifício, com o custo de abrir com um berbequim oito orifícios em quatro janelas e instalar umas pequenas peças impressas em três dias, conseguimos preservar os locais de nidificação dos casais que lá existiam e dar oportunidade a que a colónia se expanda, com a possível ocupação por parte de novos casais”, recorda. “Nós continuamos a monitorizar o edifício e depois de no ano passado já terem nidificado com sucesso, este ano está também prestes a sair a primeira ninhada!” 

Trabalhos no interior de edifício no Porto, para preservar condições de nidificação. Foto: Vasco Flores

Mas além dos municípios, cada um de nós pode contribuir, uma vez que “mais de um terço das colónias de andorinhões conhecidas no nosso país estão localizadas em moradias e por isso os cidadãos têm também um papel fundamental na sua conservação”.

O que se deseja é que quem tem a sorte de ter andorinhões a nidificar na casa onde vive, seja o primeiro a exigir a sua conservação”, sublinha. “Aqui a principal questão passa pela edução sobre estas questões e mais uma vez a solução, é garantir que as intervenções não eliminem as frestas que as aves utilizam para construir os seus ninhos e respeitar o período de reprodução.”


Artigo apoiado pelo Naturcôa – Aves & Património.

Este sábado à tarde, dia 23 de maioVasco Flores apresenta uma palestra sobre ameaças e conservação de andorinhões neste festival que se realiza no Sabugal, distrito da Guarda. Pode consultar o programa aqui.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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