Francisco Álvares, investigador da Universidade do Porto e do BIOPOLIS-Cibio, explica à Wilder o que poderá ter conduzido a este registo surpreendente e fala sobre este pequeno carnívoro semelhante à fuinha, raramente avistado.
Qual é a relevância deste registo?
A marta (Martes martes) em Portugal, está classificada como ameaçada (Vulnerável), ocupando uma área inferior a 500 km2 e uma população estimada em menos de 1000 exemplares. A sua presença é conhecida através de poucas dezenas de registos confirmados, todos eles limitados ao extremo norte do país, na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês e Parque Natural de Montesinho, e aparentemente associados a manchas de bosque nativo extensas e bem conservadas.
Desta forma, este registo de uma marta num meio tão urbano como a cidade do Porto não deverá resultar da expansão ou dispersão natural, tendo em conta a grande distância a eventuais populações fonte (aproximadamente 100km) e a ausência de habitat adequado que permitisse conectividade até ao centro da cidade do Porto.
Deverá sim, muito provavelmente, resultar do transporte por ação humana, propositado (e por isso ilegal) ou involuntário (por exemplo, em troncos de árvores ou armários), de um exemplar com origem nas montanhas do Norte, um processo já documentado para várias outras espécies de fauna, incluindo carnívoros como a geneta.
Não é, por isso, um registo de presença de um exemplar em condições naturais que seja relevante para determinar a área de distribuição desta espécie. Mas constitui um interessante registo de um carnívoro protegido e ameaçado, resgatado num meio urbano e devolvido à natureza, após um processo colaborativo com critérios científicos (por exemplo, determinação genética da população de origem) e motivações de conservação, constituindo um dos poucos casos nacionais.

Porque se sabe tão pouco sobre esta espécie?
Na Península Ibérica, a marta ocorre exclusivamente numa estreita faixa ao longo das zonas montanhosas do norte (Pirinéus e Cordilheira Cantábrica), em que as populações marginais do extremo oeste da Península Ibérica (Galiza, Zamora e norte de Portugal) são pequenas e bastante fragmentadas, principalmente devido à degradação dos habitats florestais.
É também uma espécie de difícil deteção, devido aos seus hábitos esquivos (é solitária e maioritariamente nocturna), normalmente evitando áreas com atividade humana, e porque apresenta grandes semelhanças com a fuinha (Martes foina) – um outro carnívoro muito mais abundante e amplamente distribuído em Portugal – requerendo por isso provas fotográficas ou genéticas para confirmar a presença de marta.

Talvez por essa razão, a ocorrência de marta em Portugal só tenha sido confirmada pela comunidade científica no final da década de 1980, o que aconteceu através da recolha de um animal atropelado, apesar de várias fontes documentais sugerirem a sua presença histórica no país desde há vários séculos.
Actualmente, o que conhecemos da marta limita-se a alguns registos ocasionais obtidos através de câmaras automáticas, atropelamentos ou observações, havendo um grande desconhecimento sobre a sua dieta, requisitos ecológicos ou ameaças.
Com efeito, nunca houve estudos especificamente direcionados a este carnívoro em Portugal, o que talvez seja o resultado da dificuldade inerente à sua deteção, do limitado financiamento para estudos ecológicos e da reduzida consciência social para a necessidade da sua conservação. Desta forma a marta é, muito provavelmente, o carnívoro da fauna portuguesa mais desconhecido, tanto pela ciência como pelo público em geral.

Quais são as possibilidades das populações de marta aumentarem em Portugal e que condições deveríamos ter enquanto país?
A marta em Portugal encontra-se distribuída por duas sub-populações (Peneda-Gerês e Montesinho), cada uma com escassas localizações conhecidas e algum nível de fragmentação, mas aparentemente em continuidade com populações em Espanha. Nos últimos anos parece ter havido um aumento de registos de presença, mas que poderão ser muito potenciados pela facilidade de tirar fotografias, pela circulação de informação nas redes sociais e por uma maior consciencialização pública para com este animal.
O habitat adequado à marta, os bosques nativos e maturos de folhosas (isto é, carvalhais e florestas ribeirinhas), com uma cobertura das copas superior a 60% e que sejam diversificados em termos de recursos alimentares e condições de refúgio (ou seja, com uma elevada diversidade de árvores e arbustos, presença de árvores centenárias e reduzida perturbação humana) tem uma expressão muito limitada a nível nacional e aparenta estar a sofrer uma diminuição em termos de extensão e qualidade.
Existem várias ameaças a esta espécie, que importa mitigar para melhorar o seu estado de conservação a nível nacional. A principal deverá ser a degradação dos ecossistemas florestais nativos e maturos, em particular devido à ocorrência de incêndios, aos cortes de árvores centenárias e às plantações de florestas de produção, que contribuem para o aumento da fragmentação das populações. As martas são suscetíveis a outras perturbações antropogénicas, como a urbanização e a construção de infra-estruturas, sendo comum o seu atropelamento.
Também as alterações climáticas, com diminuição da pluviosidade e aumento da temperatura, poderão reduzir as condições ambientais para a manutenção das populações nacionais, tendo em conta a sua afinidade biogeográfica com a região Eurosiberiana.
Por fim, é também possível um incremento da competição com a fuinha, que aparenta afastar a marta para habitats menos adequados, colocando esta espécie numa situação de maior fragilidade face à incidência de vários factores de ameaça numa área de ocupação tão restrita.

Como principais medidas de conservação, deverá ser assegurado o restauro, proteção e expansão de habitats florestais nativos e maturos, promovendo a plantação e regeneração do coberto arbóreo e condicionando o corte raso ou seletivo de árvores de grande porte. No interior da sua reduzida área de ocorrência, devem também ser implementadas medidas eficazes para minimizar atropelamentos e outras perturbações de origem humana, como atividades desportivas, lúdico-turísticas e incêndios florestais.
Por fim, também seria benéfico o desenvolvimento de campanhas de sensibilização sobre esta espécie, particularmente, evidenciando a importância da marta como um dos melhores indicadores ecológicos das últimas florestas autóctones, extensas e bem preservadas que ainda subsistem em Portugal.