Um macho adulto desta espécie ameaçada foi capturado em junho, num caso em que várias entidades se uniram e recorreram à ciência para desvendar o que teria acontecido. A Wilder conta-lhe o que encontraram e como foi a libertação na natureza.
Não é costume um mamífero selvagem andar a deambular pelo meio da cidade do Porto, ainda mais quando se trata de uma espécie ameaçada e raramente avistada em Portugal, como acontece com a marta (Martes martes). Mas foi precisamente isso que aconteceu em meados de junho numa zona residencial perto do Parque do Covelo, na frequesia de Paranhos, num encontro surpreendente.
Depois de capturado e encaminhado para o Centro de Recuperação de Fauna do Parque Biológico de Gaia (CRF-PBG), onde deu entrada a 19 de junho, este macho adulto de marta passou várias semanas em quarentena e avaliação, mas não só. Segundo uma nota publicada pela Câmara Municipal de Gaia, o “caráter excecional deste registo” levou ao trabalho conjunto de várias entidades, em busca de pistas para o sucedido e sobre o que fazer em seguida.


A marta é uma espécie de pequeno carnívoro que é considerada ameaçada de extinção a nível nacional, classificada como Vulnerável. Pertence à família dos mustelídeos, tal como a doninha, a fuinha ou a lontra, e é uma ágil trepadora com hábitos essencialmente noturnos. É dificilmente avistada no território português, onde se estima que vivem menos de 1000 exemplares, distribuídos por uma área total inferior a 500 quilómetros quadrados.
Em Portugal, as “poucas dezenas de registos confirmados” limitam-se todos ao extremo norte do país, “na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês e Parque Natural de Montesinho, e aparentemente associados a manchas de bosque nativo extensas e bem conservadas”, explica Francisco Álvares, investigador do BIOPOLIS-CIBIO (Universidade do Porto) e perito em mamíferos, numa entrevista sobre este caso.
Mas então, de onde teria vindo a marta encontrada no Porto e como teria ali chegado? Em busca de respostas a estas e outras questões, juntaram-se várias entidades num trabalho conjunto “entre o CRF-PBG, o Centro de Recolha Oficial de Animais do Porto – responsável pela captura e encaminhamento do animal – investigadores do BIOPOLIS-CIBIO, do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e da Universidade de Lisboa, com o objetivo de determinar a origem do exemplar e definir a solução mais adequada para a sua devolução à natureza”, segundo o município de Gaia.
Selvagem ou criado em cativeiro?
Depois de realizadas análises genéticas ao sangue do macho, concluiu-se que este era autóctone e seria muito provavelmente originário da população de martas que ocorre no Noroeste da Península Ibérica.
Dessa forma ficou afastada a possibilidade de se tratar de um animal criado em cativeiro, até porque “a monitorização comportamental permitiu igualmente confirmar que mantinha um comportamento tipicamente selvagem, demonstrando um acentuado receio da presença humana”, acrescenta o município.
Quanto à hipótese de ter chegado ao centro do Porto de forma autónoma, a partir da área onde habitava, Francisco Álvares explica que isso é pouco plausível. “Este registo de uma marta num meio tão urbano como este não deverá resultar da expansão ou dispersão natural, tendo em conta a grande distância a eventuais populações fonte (aproximadamente 100 quilómetros) e a ausência de habitat adequado que permitisse conectividade até ao centro da cidade do Porto”, indica.
O trabalho conjunto realizado concluiu que o mais certo é que o animal tenha sido transportado por alguém desde a região da Peneda-Gerês, quer isso tenha acontecido de propósito – “sendo por isso ilegal”, avisa o investigador – ou pelo contrário de uma forma involuntária.
A confirmar-se essa segunda hipótese, não seria aliás a primeira vez que isso sucede com pequenos carnívoros, transportados por acaso para longe do local de origem por estarem alojados em troncos de árvores ou armários. “Este processo já foi documentado para várias outras espécies de fauna, incluindo carnívoros como a geneta”, nota o mesmo responsável.
O desfecho
Entretanto, concluída a avaliação, decidiu-se que este macho de marta seria devolvido à natureza. Isso aconteceu a 30 de julho numa área de bosque autóctone que fica próxima da Serra da Abadia, dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês.



“A ação contou com a participação das várias entidades envolvidas neste processo, refletindo a importância da cooperação científica e institucional na conservação da fauna selvagem”, afirma o município de Gaia.
Para Francisco Álvares, embora este registo não seja relevante para determinar a área de distribuição deste pequeno carnívoro, tem importância a outros níveis: “Constitui um interessante registo de um carnívoro protegido e ameaçado, resgatado num meio urbano e devolvido à natureza, após um processo colaborativo com critérios científicos (por exemplo, determinação genética da população de origem) e motivações de conservação, constituindo um dos poucos casos nacionais”, conclui.
Saiba mais.
Leia toda a entrevista ao investigador do CIBIO, para conhecer esta espécie e perceber porque se sabe tão pouco sobre a marta, em Portugal.
Pode também consultar a ficha sobre este animal no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, publicado em 2023, que classificou a espécie como Vulnerável.