Lobo foi classificado como Vulnerável à extinção em Espanha. SECEM traça um retrato preocupante da situação da espécie nos dois lados da fronteira luso-espanhola e pede uma estratégia integrada da população ibérica.
A SECEM (Sociedade Ibérica para a Conservação e Estudo dos Mamíferos), organização composta por investigadores, técnicos, gestores e outros profissionais espanhóis e portugueses ligados aos mamíferos, está preocupada com a situação do lobo na Península Ibérica. Num manifesto público agora divulgado, alertou que este predador de topo “não tem assegurada a sua viabilidade a longo prazo” no território dos dois países e apelou à tomada de novas medidas tanto em Espanha como em Portugal, de forma coordenada.
O lobo-ibérico (Canis lupus signatus) foi recentemente declarado numa situação Vulnerável em território espanhol, no âmbito da publicação da avaliação do risco de extinção dos mamíferos terrestres no país (que para já não incluiu o grupo morcegos).
Na sequência desses trabalhos, a SECEM lançou agora um apelo público para que os dois países da Península Ibérica avancem com várias ações destinadas à conservação do lobo-ibérico. Entre estas, “implementar uma estratégia ibérica conjunta entre Espanha e Portugal, de modo que a população ibérica seja gerida como uma única unidade populacional e não de forma fragmentada”, afirma o manifesto divulgado.
No que respeita ao governo português, os mesmos responsáveis apelam a que se mantenha o atual regime de proteção legal do lobo, criado legalmente em 1988 e mais tarde regulamentado por um decreto-lei publicado em 2016.
Já em Espanha, a SECEM apela à inclusão deste mamífero no Catálogo Espanhol de Espécies Ameaçadas, na categoria de Vulnerável, o que se traduziria na sua reentrada na Lista de Espécies Silvestres em Regime de Proteção Especial. Em 2025, o lobo foi retirado desta lista que proibia a sua caça em todo o território espanhol, onde estava incluído desde 2021. Dessa forma, abriu-se espaço à retoma do abate controlado de dezenas de indivíduos em áreas onde a espécie não está protegida pela legislação regional, como as Astúrias e a Cantábria (entretanto suspensa por decisão do Supremo Tribunal, a 12 de fevereiro deste ano).
Em território espanhol, a área de distribuição estimada do lobo representa hoje cerca de 30% da que existia em 1850, acrescenta o manifesto agora publicado, que defende que garantir o estado favorável das populações deste mamífero “é importante para que os ecossistemas funcionem corretamente, trazendo assim benefícios como a regulação das populações de ungulados silvestres (por exemplo, javalis e corços) e a redução da transmissão das enfermidades associadas”.
“Melhorar os planos de seguimento da população à escala ibérica”, aplicando critérios científicos claros e homogéneos em toda a área de distribuição, para que os resultados sirvam de base às decisões de conservação da espécie, é outra das recomendações. A SECEM apela também à recolha mais eficaz de informação sobre os danos causados ao gado e à partilha desses dados com os investigadores, tal como à aplicação de medidas mais proativas de prevenção e de compensações nesta área.
“A elevada perseguição humana põe em perigo o futuro do lobo na Península Ibérica e o seu papel ecológico, cultural e emblemático”, sublinham.
Menos de 1000 lobos adultos em Espanha…
A recente avaliação do risco de extinção do lobo em Espanha, com base em estudos científicos e em dados publicados, realizou-se no âmbito de um projeto financiado pelo MITECO – Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico, que pretende reforçar o conhecimento sobre a situação atual da biodiversidade espanhola. Ligada a este projeto, a SECEM coordenou uma Lista Vermelha dos Mamíferos em território espanhol, em parceria com o Grupo de Especialistas de Espécies de Espanha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
No que respeita ao lobo-ibérico, explica a SECEM, a classificação como Vulnerável deveu-se à existência estimada de menos de 1000 indivídos em idade reprodutora, “distribuídos principalmente no terço noroeste do país” após a extinção da população da Sierra Morena, na região da Andaluzia. “A estimativa de indivíduos maduros baseou-se no número de grupos familiares detetados no último censo nacional 2021-2024 (333 grupos familiares) e na estrutura social da espécie, em que a reprodução se limita na grande maioria dos casos a um casal por cada grupo familiar.”
Esse resultado é também coerente com a avaliação realizada pelo MITECO para o período 2013-2018 – obrigatória de seis em seis anos segundo a legislação europeia e dividida em regiões biogeográficas – que apontou para um estado de conservação deste carnívoro “Desfavorável-Inadequado” por toda a área de Espanha onde o lobo está presente. Embora a avaliação para o período seguinte (2019-2024) esteja ainda por conhecer, “não é de esperar uma mudança positiva”, afirma o manifesto.
… e menos de 250 lobos adultos em Portugal
Já em Portugal, recorda este documento, o censo mais recente (2019-2021) apontou para uma diminuição em 20% da área de distribuição deste predador nas últimas duas décadas, além de uma redução no número de alcateias (de 63 em 2002-2003, para 58). Enquanto que a maioria da população portuguesa de lobo se concentra a norte do Douro, integrada na meta-população do noroeste peninsular, conhecem-se apenas cinco a seis alcateias a sul desse rio, “constituindo uma subpopulação isolada com um elevado grau de diferenciação genética”, acrescenta o documento.
“Estudos recentes, com base em monitorizações de longo prazo, indicam um reduzido sucesso reprodutor em várias alcateias situadas quer a norte quer a sul do rio Douro”, indica também a SECEM, que lembra que desde 1990 esta espécie está classificada como Em Perigo de extinção no território português. A classificação manteve-se em 2023, com a publicação do Livro Vermelho dos Mamíferos, face a uma população estimada que é aatualmente inferior a 250 indivíduos maduros.
No que respeita ao cumprimento da Diretiva Habitats, para o período 2019-2024, o estado de conservação deste carnívoro icónico foi avaliado como “Desfavorável-Mau” na região biogeográfica Mediterrânica, que abarca a maior parte de Portugal continental e inclui cerca de 85% da área onde o lobo está presente. Já o estado de conservação da espécie na área de distribuição restante, que cobre 15% do total e está inserida na região biogeográfica Atlântica (Noroeste do país), foi classificada como “Favorável”.
Saiba mais.
Conheça todo o manifesto público da SECEM sobre o lobo-ibérico, disponível numa versão portuguesa e em versão espanhola.