As quatro a cinco alcateias que restam a Sul do Douro estão ameaçadas pela perseguição humana, destruição do habitat e pela falta de comunicação com produtores de gado. Dário Hipólito, que há oito anos monitoriza estes lobos, falou com a Wilder sobre o futuro das alcateias mais vulneráveis de Portugal.
As poucas alcateias de lobo-ibérico (Canis lupus signatus) que restam a Sul do Douro – no cume das serras da Freita, Arada e Montemuro (distritos de Aveiro e Viseu) – estão a começar a época de acasalamento. Se tudo correr bem, as crias nascerão entre final de abril e o mês de maio.

Mas destas quatro ou cinco alcateias (não se sabe se uma ainda existe na altura em que escrevemos) apenas três têm reprodução comprovada.
Dário Hipólito é investigador da Unidade de Vida Selvagem da Universidade de Aveiro e desde 2018 monitoriza estas alcateias a Sul do Douro. Há anos que se dedica à questão da convivência entre populações locais e lobo-ibérico, investigando o caso português mas também de duas regiões na Croácia. No final de fevereiro, foi um dos autores de um estudo segundo o qual os incêndios e a pressão humana estão a afectar negativamente a população ameaçada de lobo-ibérico a Sul do Douro.
Na verdade, é a Sul do Douro que a perseguição ao lobo estará a condicionar mais a recuperação desta espécie ameaçada, da qual estão confirmadas 56 alcateias em Portugal Continental, segundo o último Censo (2019-2021).
“A autoridade máxima para o lobo-ibérico, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), tem de ter uma posição clara. Quer, ou não, lobo a sul do Douro? Se quer, têm de haver acções no terreno para manter o que há”, comentou à Wilder Dário Hipólito.
Na equação da convivência entre humanos e lobos na região há peças em falta.
Para este investigador, uma das maiores dessas peças é a falta de um “contacto de proximidade que permita criar confiança com os produtores de gado”.
“Ando muito no campo, faço monitorizações todos os meses, e sei que há muita desinformação, muitos mitos”, contou. “Já aconteceu ir de carro na estrada e buzinarem-me para parar, para me perguntarem se levava lobos comigo para soltar”. Outros lançam o boato que “andam a libertar 30 lobos na serra da Arada”.
Dário Hipólito explicou que uma alcateia que tenha apenas um par de lobos e se, depois da época de reprodução, tiver quatro crias, pode, num curto espaço de tempo passar a ter seis lobos. “Isto faz diferença, as pessoas ‘de repente’ podem encontrar mais lobos na sua região. Muitos pensam que há alguém a soltar lobos”.
“Mas até lido bem com isto passando a informação concreta e real.”

Por exemplo, na região estão registadas as alcateias da Arada, Montemuro/Leomil, Lapa e Trancoso. Mas os números flutuam muito; há alcateias que podem ter apenas um par, sem indício de reprodução; outras podem ter oito lobos. A alcateia da Arada teve reprodução em 2023; o par reprodutor teve quatro crias mas apenas duas sobreviveram ao inverno. E a progenitora acabou por morrer. Hoje estima-se que restem apenas o macho reprodutor e as duas crias de 2023.
Informação dificilmente chega aos produtores de gado
Além de não haver informação disponível e actualizada sobre o estado das alcateias a nível local, o investigador sente que os produtores não conhecem todas as ferramentas ao seu dispor para proteger o seu gado dos ataques de lobo.
“Muitos destes criadores são pessoas envelhecidas, com um baixo conhecimento digital. Compreendo que lhes seja difícil aceder às ajudas”.
Na sua opinião, deveria ser promovida uma maior cooperação com as cooperativas agrícolas, nas quais os produtores confiam, para os informarem das medidas a que podem recorrer, desde os cães de gado às vedações eléctricas. Porque “neste momento, a informação não está a chegar aos produtores. Há descrédito e desinformação, as pessoas não acreditam nas medidas que existem”.
Defende ainda que os vigilantes da natureza no terreno deveriam ter formação anual, para conseguirem ajudar a melhorar a convivência, indo mais além dos registos dos ataques de lobo. E terem uma presença mais regular no terreno, para ganharem a confiança das pessoas.
Outro problema do lobo-ibérico a Sul do Douro é a destruição do habitat através de queimadas sucessivas, que não permitem a regeneração da floresta nativa e matos de uma altura considerável para os lobos se abrigarem. E as presas selvagens do lobo naquela região – corço e javali – deixaram de estar no topo das serras; agora está lá apenas gado.
Além disso, as matilhas de cães assilvestrados são outro dos problemas. “Estão por todo o lado e, por vezes, é o lobo que acaba por ser acusado de ataques a gado causados por cães.”
Um futuro possível mas condicionado
Na opinião de Dário Hipólito, “há futuro para o lobo a Sul do Douro”. Mas há trabalho a fazer, nomeadamente uma maior proximidade com cooperativas agrícolas, um maior acompanhamento dos produtores de gado.

Para o investigador, importa trabalhar à pequena escala, quase caso a caso. “Seria importante perceber com o produtor de gado que medidas já experimentou, se resultaram e se não, porquê, tentar novos métodos.”
“Para o futuro quero compreender melhor como as pessoas lidam com o lobo e vice-versa. É natural que alguém que tenha o seu rebanho atacado por lobo fique revoltado. Mas quero trabalhar em soluções para que tal não aconteça no futuro.”
Uma das coisas que acha importante conseguir é ter autorização do ICNF para capturar lobos a fim de os marcar com coleiras radio-transmissoras, algo que até ao momento não conseguiu. “Com as câmaras de foto-armadilhagem consigo perceber onde está o lobo ou por onde se movimentou a alcateia. Mas é só uma ideia. Com as coleiras teria muito mais certezas e permitir-me-iam perceber quais os movimentos dos lobos, quando se aproximam dos rebanhos e das aldeias, perceber onde se cruzam com o gado, em que períodos do dia e se perto ou longe das povoações”.
O Plano Nacional de Restauro da Natureza, que Portugal está a preparar e tem de apresentar à Comissão Europeia até 1 de setembro, pode contribuir para preservar o habitat do lobo-ibérico nesta região. “Às vezes, basta só não intervir ou não fazer queimadas mas sim limpezas mecânicas para permitir o crescimento de árvores nativas e a manutenção do banco de sementes. Este Plano pode ajudar, mas depende muito de como será aplicado.”
Outro motivo de esperança é o Programa Alcateia (2025-2035), aprovado em dezembro de 2025. Ainda assim, Dário Hipólito sublinhou que este é um plano de ação, não um plano de gestão o que, na sua opinião, seria preferível. “Um plano de gestão é revisto anualmente, tem informação actualizada que é disponibilizada publicamente sobre, por exemplo, o número de indivíduos, o número de animais mortos, a evolução dos danos, o que se perspectiva para o futuro ou orientações de monitorização e um relatório do que foi feito”.
“O secretismo quanto ao estado das alcateias em Portugal contribui muito para os mitos.”
Mais do que falar em expansão do lobo para Sul, para a Cordilheira Central (Serra da Estrela e Serra da Lousã), Dário Hipólito considera importante proteger as alcateias que restam.
Até aos anos 30 do século XX, o lobo-ibérico distribuía-se por todo o país, até ao Algarve. Com o passar dos anos, foi sendo empurrado para norte, concentrando-se hoje em núcleos no Alto Minho, Trás-os-Montes e numa região a Sul do Douro.
O lobo-ibérico é a única espécie da fauna portuguesa que tem uma legislação específica, pela qual é protegida. É uma espécie Em Perigo de extinção, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal Continental, com cerca de 300 indivíduos, menos de metade dos quais são animais reprodutores capazes de contribuir para a continuidade da população.
Até 2035, o novo Programa Alcateia quer reverter a diminuição do número de lobos-ibéricos em Portugal, assegurando que esta espécie Em Perigo de extinção passa a estar em situação de conservação favorável.