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Estudo desvenda como os lobos se extinguiram na Andaluzia espanhola, em 2017

05.11.2025
leitura de 3 minutos
Lobo-ibérico. Foto: Arturo de Frias Marques/Wiki Commons

Uma equipa de investigadores analisou as causas do desaparecimento do lobo-ibérico da Sierra Morena, uma cadeia montanhosa no sul de Espanha, e deixa lições para o futuro.

Publicado agora na revista científica Biological Conservation, este estudo analisa como é que os números de lobos-ibéricos na Sierra Morena se foram reduzindo até ao desaparecimento desta população isolada, apesar de se tratar de uma espécie legalmente protegida. Sabe-se que os últimos lobos terão morrido em 2017, embora a extinção tenha sido oficialmente confirmada apenas anos mais tarde, em 2023.

A extinção da população de lobo no sul de Espanha foi em última análise o resultado de uma série de más decisões e de ações equivocadas, que aconteceram apesar da existência de um cenário altamente favorável para a espécie, tanto de uma perspetiva legal (proteção legal estrita e inclusão numa rede de áreas protegidas) como de disponibilidade financeira (fundos europeus do Life e fundos regionais)”, concluem os investigadores, liderados por Luis Llaneza, da Universidade da Coruña.

De acordo com a equipa, conjugaram-se várias causas para este triste desfecho, a começar pela “informação que não cumpria normas científicas apropriadas, levando a conclusões não verdadeiras sobre o estatuto de conservação da espécie”. Com efeito, durante anos as estimativas oficiais apontaram para a existência de seis a oito alcateias na região, quando na realidade os números seriam muito menores.

“A falta de transparência e o uso de informação não verificada geraram uma falsa perceção de estabilidade, quando a população já se encontrava à beira do colapso”, notam os autores deste estudo, que chamam também a atenção para a falta de publicações de dados de monitorização em revistas onde a revisão dos artigos científicos fosse assegurada por outros investigadores – uma das normas que atestam a credibilidade destes estudos.

Os cientistas chamam também a atenção para a falta de capacidade técnica das administrações locais, responsáveis pela avaliação da informação científica recebida, e explicam que foram ignorados estudos de campo que desde os anos 1990 avisavam sobre a situação preocupante do lobo-ibérico. O resultado foi o desenvolvimento de planos de ação “atrasados e ineficazes”, que se revelaram insuficientes para travar o declínio desta espécie na Sierra Morena.

As primeiras ações de conservação da espécie entraram em vigor apenas no final dos anos 1990, dirigidas principalmente à proteção do gado e a campanhas de comunicação. “É muito provável que na altura em que a administração local assumiu responsabilidades […], a população de lobo já fosse demograficamente inviável. Apesar disso, não foram consideradas ações de reforço populacional, e ainda menos consideração teve o que poderia ter sido a estratégia mais eficiente: capturar os indivíduos que restavam para preservar porções do património genético”, criticam.

Outras duas causas apontadas foram a falta de debate científico, “que deveria ter sido encorajado pelas autoridades para apoiar a tomada de decisões”, e também a existência de proteção legal ineficaz, que falhou na salvaguarda desta espécie.

O artigo aponta ainda a influência dos setores do gado e cinegético, que dificultaram a adoção de decisões mais firmes, e a falta de mecanismos de supervisão que garantissem a aplicação das regras legais.

Os investigadores concluem que o desaparecimento do lobo na Sierra Morena deve servir de aviso e que “a proteção legal por si só não garante a conservação se não estiver acompanhada de rigor científico, transparência e vontade política real”.

A equipa deixa ainda algumas recomendações para impedir que o mesmo se repita. Em primeiro lugar, recomendam que o aconselhamento científico e o debate aberto sejam incorporados no desenho de estratégias de conservação, em especial nos casos de pré-extinção, como este. Em segundo, que “outra lição essencial deste caso é a importância de se publicarem dados em revistas científicas onde é praticada a revisão dos artigos por outros cientistas (‘peer-reviewed’, em inglês). E ainda que os dados conhecidos sejam comunicados de forma rigorosa, ao público em geral.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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